Capítulo 5 🧸 O primeiro encontro
POV Scarlett
💍🧸💍
Eu tinha imaginado aquele encontro pelo menos umas vinte vezes. E em nenhuma delas, Adrian Laurent parecia tão tranquilo. Ele estava sentado diante de mim, com uma xícara de café semivazia entre as mãos e a postura relaxada.
Eu, por outro lado, segurava minha bolsa no colo como se ela pudesse me proteger de qualquer pergunta inconveniente.
— Você sempre chega na hora? — ele perguntou.
— Gosto de ser pontual. Nada demais.
— Uma controladora...
Olhei para ele e Adrian sorriu. Era um sorriso discreto, mas suficiente para mudar completamente seu rosto.
— Você está tentando me deixar confortável? — indaguei.
— Está funcionando?
— Ainda não.
— Poxa. Então vou precisar me esforçar mais.
O garçom se aproximou com um pouco de água para mim, e fizemos nossos pedidos. Quando ficamos sozinhos novamente, ele apoiou os braços sobre a mesa.
— Vamos começar pelo básico?
— Por favor.
— O casamento será em três semanas?
— Sim. Em uma propriedade próxima à Paris.
— Quantos dias você pretende ficar?
— Duas semanas, talvez um pouco mais.
— E quer que eu acompanhe você durante toda a viagem?
— Quero.
— Isso inclui voos, hospedagem, eventos e refeições?
— Sim.
— Dormiremos em quartos separados?
A pergunta foi feita com tanta naturalidade que quase me engasguei com a água.
— Eu não quero dividir um quarto com um desconhecido.
— Então não dividiremos.
A resposta veio sem hesitação. Aquilo me surpreendeu. Eu esperava algum comentário provocador, talvez uma tentativa de me convencer de que seria mais convincente se estivéssemos próximos durante a viagem. Mas Adrian apenas aceitou.
— Você é sempre tão profissional? — inquiri.
— Quando estou trabalhando, sim.
— E quando não está?
— Depende da companhia.
A maneira como ele disse aquilo fez meu coração tropeçar.
— Antes do casamento, vai ocorrer um jantar íntimo e você vai precisar conhecer minha família. Meus pais, Vivienne e Romero Durand. Minha irmã, Margot. E alguns amigos da família.
— Margot é sua irmã modelo?
Levantei os olhos rapidamente.
— Você pesquisou sobre mim?
— A agência me passou as informações necessárias.
— O que mais você sabe?
— Que você é empresária, que trabalha muito, que mora aqui em São Paulo e que deseja manter sua vida pessoal privada.
— Isso é tudo?
— É o suficiente para começarmos.
— E você não procurou minhas redes sociais?
— Não.
— Por quê?
Adrian inclinou a cabeça.
— Porque quero conhecer a mulher que está sentada diante de mim. Não a versão que ela escolheu mostrar na internet.
A resposta me atingiu de um jeito inesperado.
A maioria das pessoas que se aproximava de mim já sabia alguma coisa. Meu nome aparecia em revistas de negócios, entrevistas e eventos empresariais. Algumas pessoas me conheciam pela empresa. Outras, pelo sobrenome. Já minha família me conhecia pelas comparações.
Adrian parecia interessado em mim sem precisar de nenhuma dessas referências.
— Minha família é difícil — avisei.
— Você já mencionou isso.
— Eles podem ser bem desagradáveis.
— Com você?
— Principalmente comigo.
Ele ficou em silêncio. Não havia pena em seu rosto. Apenas atenção.
— Por quê?
A pergunta era simples. Já minha resposta, não.
— Porque sou diferente da Margot.
— Diferente como? Porque para mim, ambas são mulheres. Você por acaso tem algum brinquedinho extra em seu corpo?
Aquilo me fez rir.
— Não é isso. Margot é modelo internacional. Magra, muito bonita, sempre impecável. Meus pais acreditam que ela representa tudo o que uma mulher deve ser.
— E você não representa?
— Eu sou uma mulher que trabalha demais, não se encaixa no padrão deles e não tem um namorado para exibir em eventos.
— Isso parece mais uma descrição de independência do que um problema.
Soltei uma risada curta desviando o olhar.
— Você não conhece meus pais.
— Não. Mas conheço pessoas que confundem aparência com valor.
Meu olhar voltou-se para ele. Havia alguma coisa escondida naquela resposta. Mas Adrian não parecia disposto a falar sobre isso, e eu não insistiria.
— Eu não quero que você brigue com eles — informei — Também não quero que tente me salvar. Só quero que pareça que estou em um relacionamento feliz.
— Isso eu consigo fazer.
— Mesmo se eles forem cruéis?
— Especialmente se forem cruéis.
A segurança em sua voz me desconcertou então acabei perguntando se ele não tinha medo de nada. Adrian olhou para a janela. Por um instante, sua expressão mudou. A tranquilidade desapareceu, substituída por algo mais fechado.
— De apenas perder tempo com pessoas que não sabem o que querem.
— Isso foi uma indireta?
— Ainda não.
E pela segunda vez naquele encontro eu dei uma risada verdadeira, espontânea, que escapou antes que eu pudesse controlar.
Adrian me observou por alguns segundos.
Não como os homens costumavam observar meu corpo. Não com curiosidade, julgamento ou desejo disfarçado. Ele olhou para o meu rosto. Para o meu sorriso. E isso me deixou mais nervosa do que qualquer avaliação física teria deixado.
— Você é diferente da fotografia — ele comentou.
Meu sorriso desapareceu.
— Diferente de que maneira?
— Mais expressiva.
— Isso é bom?
— Muito.
O garçom trouxe nossos pedidos. Eu havia escolhido uma salada com salmão, embora não estivesse com muita fome. E Adrian percebeu.
— Você não precisa comer pouco para me impressionar.
A frase me deixou imóvel.
— Eu não estou tentando impressionar você.
— Eu sei.
— Então por que disse isso?
— Porque você olhou para o prato como se tivesse cometido um erro ao pedir comida.
Baixei os olhos. Eu odiava quando alguém percebia coisas demais.
— Estou acostumada a ser observada então eu faço isso às vezes — murmurei.
— Então olhe para mim.
Levantei os olhos.
— Quando estiver comigo, não olhe para as pessoas procurando aprovação. Olhe sempre para mim.
Meu peito apertou. Ele disse aquilo como parte do trabalho. Ainda assim, alguma coisa dentro de mim se moveu.
— Você dá ordens a todas as suas clientes?
— Apenas às que precisam.
— Eu não preciso.
— Ótimo. Então vai me contrariar?
— Com prazer.
Adrian sorriu novamente. E, pela primeira vez desde que aquela loucura havia começado, eu esqueci que estava diante de um homem contratado. Por alguns segundos, existíamos apenas nós dois, dividindo uma mesa e uma conversa que parecia fácil demais.
Quando terminamos de comer, Adrian colocou o cartão sobre a mesa.
— A entrevista foi boa — ele disse.
— Foi?
— Você ainda está aqui.
— Talvez eu esteja apenas sendo educada.
— Você não parece o tipo de mulher que permanece em um lugar por educação.
Não consegui discordar. Ele então se levantou e eu fiz o mesmo.
— Vou enviar os detalhes do contrato hoje à noite.
— E se eu decidir não contratar você?
Adrian olhou para mim e sorriu.
— Então espero que encontre alguém que faça você se sentir segura.
— E se eu contratar?
Ele se aproximou o suficiente para que eu sentisse o seu perfume.
— Então vou garantir que ninguém em Paris faça você se sentir pequena.
Meu coração bateu forte.
Adrian se afastou antes que eu pudesse responder. E eu soube, naquele instante, que o problema não seria convencer minha família de que ele era meu namorado. O problema seria convencer a mim mesma de que ele era apenas um contratado.
