Capítulo 2 UM NOVO CICLO II
SAMIRA
Salim sorri para mim, um sorriso acolhedor. Percebi que queria me dizer algo, mas apenas respirou fundo e logo começou a me mostrar todo o trabalho que preciso fazer.
Ele fala expressivamente, com gestos e bom humor. É bem divertido, parece uma pessoa leve e de fácil comunicação.
— Os chefes podem pedir muitas coisas, tipo: café, chá, que você vá à sala limpar. Fora que você tem que manter a área dos escritórios sempre limpíssima. — Fala enquanto mostra a mesa de café e chá.
Olho para Salim tonta. É tanta informação!
— … Separar arquivos, levar para os chefes, aguentar Sinem, seus mandos e desmandos. — Continua enquanto tento gravar tudo que diz.
— Nossa, tanta coisa, será que dou conta? — Me sinto aflita. Não posso falhar.
— Calma, fofa, você dará conta, sim. É só não se distrair.
— Bem… Esse é o problema, sou bem distraída.
Sorrio nervosa para Salim, que retribui, parecendo entender minha aflição.
Ele me olha calmamente e continua a me explicar.
— Sendo assim, tente ao máximo seu melhor. O que precisar é só me chamar. Você parece muito jovem, dará conta, com certeza!
— Sim.
— Quantos anos você tem?
— Dezenove, por quê?
— Não me leve a mal, mas parece ter mais. Você é um mulherão. — Ele sorri, e acredito que estou vermelha. — Calma, fofa, é só um elogio. A fruta que você gosta, engulo até o caroço, sem fazer nenhuma careta.
Começo a rir e ele também.
Salim é engraçado. Eu gosto do seu jeito e humor.
— Já trabalhou antes?
— Trabalhava na doceria dos meus pais, comecei lá aos quinze anos. — Falo orgulhosa.
— Certo. Agora preciso voltar ao trabalho. Se precisar, só chamar, como já disse. Sua salinha será essa. — Fala abrindo uma porta de um microescritório.
O lugar é tão pequeno que mal cabem duas pessoas.
— Ei, Salim! Por que tenho que ficar nessa salinha aqui nos fundos e sozinha, separada de todos? — Questiono, percebendo que a salinha fica ao lado de um grande elevador, que tem uma placa escrita: exclusivo!
— Então, as outras mesas são todas juntas pelos trabalhos serem meio que interligados. Eles precisam um do outro para fechar cada ciclo. — Tenta me explicar. — Essa agência de publicidade é uma das melhores pelo trabalho em equipe e sua organização.
— Mas por que tenho que ficar aqui, sozinha?
— Porque você tiraria a concentração do pessoal, meu amor. O que você iria ficar fazendo ali? Você terá que ficar para lá e para cá o dia todo, iria nos atrapalhar muito.
— Ah! — Falo desanimada.
— Ânimo, fofa, você não ficará muito tempo nessa salinha. Como disse: passará o dia de um lado para o outro. Ainda bem que você é jovem. — Fala tentando me animar.
— Verdade, pelo menos não ficarei tanto tempo presa nesse cubículo. Não que eu esteja reclamando, mas não tem janela, não entra ar, parece que sufoca. — Avalio a sala fechada, sem vida.
— Sei… — Fala colocando a mão no meu ombro. — Ah! E antes que me esqueça, Sinem é encarregada de dar ordens, contratações… Mas nossos chefes são o senhor Cam e o seu vice, é o senhor Elijah. Eles são irmãos e muito gostosos. Ai, garota, são de babar.
Salim se abana.
Sorrio com sua empolgação, e ele prossegue:
— O senhor Elijah é bem descontraído e fala com todos, é um bom chefe. Já o senhor Cam é sério, muito profissional, também é mandão e gosta de tudo muito bem feito. Às vezes ele me dá medo. — Fala abaixando a voz.
— Já fiquei com medo dele. Sou muito desastrada, já pensou se faço algo errado na frente dele?
— Procure ficar longe dele e não terá problemas. — Salim me alerta.
A forma como ele fala de Cam me deixa ainda mais curiosa.
Não sei quem é esse homem, mas definitivamente não quero conhecê-lo.
— Tá bem, muito obrigada, Salim!
— Por nada, Samira.
— Pode me chamar de Sam.
— Tá bem, Sam. Até mais, fofa. — Ele sai me deixando sozinha.
Observo meu local sufocante de trabalho, tentando entender tudo, até que o telefone toca, me fazendo pular de susto.
Olho para o telefone, me controlando.
Preciso atender. Afinal, é meu trabalho.
Controlo minha mente e atendo o telefone.
— Sim. — Falo sem saber o que dizer.
— Me traga um café, por favor!
A voz é de homem, com certeza!
— Sou nova aqui, senhor. Qual sua sala, por gentileza?
— Da diretoria. — Me responde com calma.
— Certo, senhor.
Vou até a mesa onde ficam os cafés e chás, pego um cafezinho, arrumo na bandeja e chamo Salim.
— Salim, onde é a sala da diretoria?
— Fica na parte de cima. — Fala apontando para o elevador. — Você usará ele porque o fluxo de pessoas é menor.
— Obrigada, Salim!
Pego o elevador e subo até o andar de cima.
Procuro a sala escrita diretoria e bato.
— Pode entrar.
Entro e vejo um belo homem, loiro, de olhos azuis, sentado.
— Com licença!
Ele me observa com atenção e curiosidade. Julgo que porque tento equilibrar a bandeja com muito esforço.
— Pode deixar aqui! — Fala apontando para sua mesa.
Coloco onde ele mandou e me viro para sair.
— Então, você é a nova ajudante? — Me pergunta.
— Sim, senhor.
— Sou Elijah, muito prazer! — Ele tem um sorriso sincero e me estende sua mão.
— Me chamo Samira, muito prazer, senhor. — Aperto sua mão.
— Meu pai me falou sobre você. É a irmã da Aline?
— Sim, senhor!
— Seja bem-vinda. Qualquer coisa, não hesite em me comunicar. Ficarei feliz em poder ajudá-la.
Ele é muito cordial e educado. Parece mesmo ser um bom chefe, como Salim me disse.
— Obrigada, senhor. Com licença!
— Toda.
Viro-me, indo em direção à porta e então…
Tropeço, caindo de cara no chão.
Não demora e sinto as mãos do senhor Elijah me ajudando a levantar.
— Você está bem? — Sua voz ressoa preocupada.
— Está tudo bem, sim, desculpe! — Limpo minha roupa com as mãos assim que ele me deixa de pé.
A vergonha é tanta que saio em disparada.
Isso sempre me acontece.
Por que tenho que ser tão desastrada?
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O resto do dia passa tranquilo, tirando algumas vezes que quase beijei o chão.
Realmente, Aline tem razão nesse ponto: preciso ser mais atenta.
— Pronta para ir embora? — Salim se aproxima.
— Sim, só estou esperando minha irmã.
— O que achou do seu primeiro dia?
— Bem… Foi tranquilo.
— O que achou do gostoso do Elijah? — Sussurra, mordendo os lábios e virando os olhos.
Sorrio com seu jeito engraçado.
— Bem… Legal. — Sorrio ainda mais de suas caras e bocas.
— Legal não é a palavra, meu bem. Ele é babado bafônico! — Suspira.— Aquela barba dele, ainnn é tudo!
Salim se despede e se vai.
Alguns minutos se passam e nada de Aline vir.
Resolvo esperar lá fora, porque não aguento mais ficar nessa salinha.
Estou saindo e, de repente, esbarro em alguém e caio de bunda no chão.
— Aiii! — Exclamo ao cair no chão sentindo o chão duro.
— Cuidado, garota! — Uma voz ríspida e irritada ecoa até mim.
Subo meu olhar lentamente pelo corpo do homem à minha frente.
E que homem!
Ele é forte. Seu rosto é demarcado por uma barba grande, assim como seus cabelos escuros presos em um coque. Ele me avalia e não consigo decifrar seu olhar.
Ele oferece a mão para me ajudar.
Aceito e me levanto com sua ajuda.
No movimento rápido e forte, acabo batendo no seu peito.
Ele segura firme minha cintura. Agarro seus braços e, nossa, é forte, muito forte!
Sinto uma onda de calor percorrer todo meu corpo.
Nosso olhar se encontra e fico imóvel, sentindo seu perfume, seu hálito quente, sua respiração…
Olho para sua boca.
Não sei o que está havendo comigo. De repente, está quente…
Até que nos afastamos rapidamente.
— Desculpe, senhor. Estava meio distraída, não o vi. — Ainda atônita com esse monumento de homem, tento recuperar a sanidade.
— Meio? Diria que totalmente! — Ele desvia o olhar, limpando a garganta, e alinha o terno, sem voltar a me olhar. — Devia olhar para onde anda, garota!
A voz dele é fria, como se estivesse incomodado com nossa aproximação.
Ele simplesmente se vira e vai embora sem dizer mais nada.
E eu fico ali, parada, pensando no toque desse estranho, em suas mãos em volta da minha cintura, que me seguraram tão forte que ainda consigo senti-las em mim…
Seu cabelo, seu rosto rústico e, simultaneamente, tão lindo.
Fico sem ar só de lembrar da aproximação do seu corpo junto ao meu, do seu olhar preso ao meu.
Quem será esse homem?
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