Capítulo 3 ENTRE DOCES E CONFIDÊNCIAS
SAMIRA
— Filha, acorde, meu amor.
Abro meus olhos com dificuldade, ouvindo as batidas da minha mãe na porta do quarto.
— Entra, mamãe! — Falo com a voz embolada pelo sono.
Ela entra no quarto com sua habitual animação.
— Ah! Minha bebê, nem nos falamos ontem. Como foi seu primeiro dia de trabalho? — Fala sentando-se ao meu lado.
Deito minha cabeça em seu colo e ela acaricia meus cabelos.
— Ah, mamãe, foi normal, eu acho. Gostei do lugar. — Falo e solto um bocejo.
— O que achou de trabalhar lá? — pergunta curiosa.
— Achei um pouquinho chato o escritório, é muito fechado. O restante é muito legal! — tranquilizo minha mãe.
— Filha, me perdoe! Eu queria muito que você continuasse na loja, mas não temos dinheiro e você trabalhando na agência vai nos ajudar a pagar as dívidas. — Seu semblante é triste e culpado.
— Sei, mamãe, não se preocupe. É meu dever ajudar. Afinal, estou bem crescida, não é mesmo!? — Me levanto, abraçando-a.
— Me perdoe! — Ela me olha triste.
— Mamãe, pare com isso! — Lhe lanço um largo sorriso.
Ela me aperta ainda mais em seus braços. Amo esses carinhos da minha mãe! Ela sempre é tão atenciosa.
— Agora preciso ir. Tenho que comprar alguns ingredientes para fazer uns doces para a loja. — Se levanta. Antes de sair, ela se vira para mim novamente. — Ah! Vá ver seu pai. Ele quer saber como foi seu primeiro dia de trabalho e, claro, sente sua falta também. Ele não parou de falar que perdeu sua companheira de trabalho. — Mamãe sorri, e eu também. Imagino o drama do meu pai.
— Tá bom, mamãe. — Falo já me levantando para tomar banho e me arrumar.
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De banho tomado e vestida, avalio minha simples produção no espelho.
Coloquei uma blusa simples, uma saia de corte reto que vai até um dedo acima do joelho, com uma amarração na cintura, e um tênis. Porque, do jeito que sou desastrada, é melhor prevenir…
Acredito que esteja bom.
Pego minhas coisas e vou até a doceria ver meu pai.
Assim que entro na loja, ele sorri animado. Parece até que não nos vemos há muito tempo.
Meu pai me espera com chá e algumas guloseimas. Ele vem até mim de braços abertos.
— Filha! Minha princesinha. Olha aqui o que está te esperando! — Fala me abraçando forte. Depois, me mostra a bandeja de doces turcos preparados por mamãe.
Nem preciso falar que eles ainda me tratam igual a uma criança.
— Hmmm, me dá aqui, comerei tudo! — Pego o doce maior e jogo na boca, me deliciando com o sabor divino que derrete na boca.
— Sabia que iria gostar! E como foi no trabalho?
— Ah, foi bom. E como o senhor está se virando sem mim?
Seu sorriso vai se desfazendo lentamente.
— Você faz muita falta, mas não tem outro jeito, filha. A loja tem muitas dívidas. — Fala, e vejo culpa em seus olhos.
— Hei, papai, ficará tudo bem! Já estou bem crescida, além de que amei o lugar. Penso que será ótimo para mim. — Lhe abraço e deixo um beijo em seu rosto. — Agora preciso ir.
— Mas você acabou de chegar, minha princesa. — Se lamenta.
— Sim, papai. Preciso passar na casa da Lais. Não falo com ela desde antes de ontem. Não quero que ela pense que a abandonei.
— Tudo bem, meu amor, vai lá!
Despeço-me de meu pai, pego meus doces e sigo para casa de Lais. Minha melhor amiga, ela, sim, é como uma irmã para mim.
Quando chego, nem preciso bater duas vezes. Ela abre a porta rapidamente, me puxando para dentro sem cerimônia nenhuma!
— Amiga, até que enfim! Quero saber tudo, não me esconda nada! Como foi seu primeiro dia no novo trabalho? — Lais, além de curiosa, está muito animada.
Seus cabelos ruivos estão ainda mais fumegantes com a luz do sol que invade sua janela, e seus olhos verdes mostram uma ânsia para saber sobre a mudança que minha vida teve.
— Calma, vou contar. Não que seja nada demais… — Digo, e ela faz uma careta.
— Claro que é! Você passou sua vida inteira sem ir muito longe. Agora você terá mais emoção assim, espero! — Sorrio.
— Lais, eu só mudei de emprego — falo ainda rindo. — Isso não é nada demais.
— Na sua vida tediosa, isso significa muita coisa! — Ela fala, e estreito meu olhar para ela.
Conto sobre meu dia e também do bonitão que esbarrei, como ele era.
A cada detalhe que lhe contava sobre o bonitão, Lais mordia os lábios em excitação.
Mas é uma safada mesmo.
— Caraca! Quem será esse gostoso?! — Fala levando o indicador ao queixo, de modo pensativo.
— Não sei! Mas ele é muito lindo mesmo. Meu coração quase pulou do peito quando ele me puxou e chocamos nossos corpos. — Me lembro do toque dele, da sua respiração tão perto.
— E eu aqui, quase morri de ansiedade esperando notícias.
— Curiosa você, mana! — Falo sorrindo.
— Curiosa nada, palhaça! — Lais joga uma almofada do sofá em mim.
Solto uma gargalhada, e ela também.
— Humm, que cheirinho bom.
— É do bolo que comprei na padaria. Você quer?
— Óbvio! O que você acha!? — Lais levanta-se e busca o bolo.
— Você não engorda de ruim! — Brinca, me entregando duas fatias de bolo.
Não respondo. Começo a devorar o bolo enquanto ela me conta sobre o rapaz que saiu ontem. Fico ouvindo suas aventuras enquanto termino de comer.
Da casa de Lais vou para o trabalho. Nem esperei Aline. Ela anda mais chata que o habitual. Nós nunca nos demos bem, mas ultimamente ela vem piorando.
Não sei por que Aline é assim.
Ela parece me odiar!
Chegando no trabalho, começa a correria.
Volto para minha salinha já morrendo de fome. Pego os doces que meu pai me deu e começo a comer.
Meus pensamentos pairam em um lindo homem de cabelos escuros amarrados, com uma barba que o deixa ainda mais lindo.
Por Alláh! Que braços fortes!
— Ahrá! Comendo, né, fofa! — Pulo da cadeira, quase engasgando com o susto que Salim me deu!
— Quer me matar do coração, Salim? — Coloco a mão no peito, e Salim ri.
— Ai, Sam, desculpe, fofa. — Salim se encosta na parede. — Você parece que gosta de comer. — Fala apontando para a sacola farta de doces.
— Sim, e muito! Também penso muito, e isso me dá fome. — Falo mordendo mais um pedaço do doce.
— Essa é nova. Pensar dá fome! Dessa não sabia. — Salim sorri, me encarando.
— Quer um docinho? — Pergunto apontando o pacote para ele.
— A cara está ótima! — Ele diz, espiando.
— Pega. Minha mãe que faz. Minha família tem uma loja de doces turcos.
Salim fica curioso.
— Nossa, você é turca! — Fala surpreso. — Eu também, assim como os donos da empresa.
— É, eu sei. Minha irmã começou a trabalhar aqui porque o meu pai conhece o dono que se aposentou.
— Que fabuloso! — Salim exclama, comendo o doce.
Continuo meu trabalho, entregando café, separando arquivos e levando relatórios.
Assim que entro novamente na minha salinha, o telefone toca.
— Me traga um chá e rápido na sala da presidência.
Essa voz não me é estranha.
Se é da sala da presidência, só pode ser o senhor Cam, o qual Salim me disse para ficar longe.
— Certo…
Desligou na minha cara!
— Grosso!
Bem que Salim falou!
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