Capítulo 4 O CHEFE

SAMIRA

Pego a bandeja com chá e levo até a sala da presidência.

Dou umas batidinhas na porta.

— Entra!

Quando entro, me deparo com o homem que esbarrei.

Ele desvia sua atenção do notebook, me olhando.

Por Alláh!

O chefe é o homem que esbarrei!

Por um instante, sinto meu sistema entrar em pane.

Alláh, é ele mesmo, em carne, osso e músculos.

E que músculos!

Preciso me recompor.

— Aqui está seu chá, senhor. — Olho para ele com as mãos trêmulas.

O homem está ainda mais lindo hoje, com uma roupa mais despojada. Os cabelos estão presos só pela metade.

Ele faz sinal para eu levar até ele.

Respiro fundo e caminho o mais firme que posso.

Minhas pernas parecem gelatinas.

Não entendo por que estou tão nervosa.

Quando estou a dois passos dele, inexplicavelmente tropeço, derrubando o chá.

— Alláh, sua maluca! Derrubou chá em mim, porra! Isso está quente como o inferno! — Levo as mãos à boca, vendo o homem de quase dois metros à minha frente agora de pé, puxando sua camisa do corpo para não se queimar.

— Me perdoe, senhor, por favor…

Ele faz sinal para que eu me cale e começa a tirar sua camisa.

Observo cada movimento seu sem piscar.

Quando o vejo sem a camisa, respiro o mais fundo que posso.

Isso é um verdadeiro espetáculo.

Que homem!

PARA, SAMIRA!

Seu peito e abdômen são perfeitos.

Ele não tem defeito algum!

Me arrepio involuntariamente quando ele me lança um olhar mortal. Me aproximo, pegando sua camisa, sem pensar direito.

— Me deixe ajudá-lo.

Começo a secar seu peito e barriga.

Por Alláh, que homem é esse!?

Deslizo minhas mãos devagar. Devo estar babando.

Olho para o homem à minha frente.

Percebo um vinco em sua testa.

Ele arranha a garganta e pega a camisa da minha mão com certa ignorância.

Ele se afasta, virando-se de costas.

— Já fez o bastante. Saia da minha sala!

— Me desculpe, senhor. Por favor!

— Saia! — Grita, e paro instantaneamente, travando no lugar.

Sinto algo estranho.

Ele realmente é um grosso.

Recolho a xícara e a bandeja caídas e saio correndo de sua sala.

Após descer praticamente correndo, entro na minha salinha com as pernas bambas.

Meu coração está acelerado.

Preciso falar com Lais.

Mando uma mensagem.

Mensagem

Samira: Amiga. Eu não sei o que tá acontecendo comigo. Sei quem é o cara que esbarrei. Ele é o senhor Cam. O que Salim disse para ficar longe, meu chefe!

Passam só alguns segundos e ela responde:

Lais: Sério, mana! Então o que te deixou aflita?

Samira: Eu fiz a merda de derrubar chá nele! DROGA!

Lais: Ihhh!

Samira: Por que desse “Ihhh”? Acredita que serei demitida?

Lais: Olha, não vou mentir, pode ser que sim! Ele ficou muito bravo?

Samira: Muito, mana! Estava soltando fogo pelo nariz! Eu até tentei secar ele, ajudá-lo, mas quando me aproximei daqueles músculos, perdi o foco.

Mando a mensagem já me arrependendo do que escrevi.

Lais: Seremos mais claras: a xoxota coçou, né, meu bem! Mana, o nome disso é desejo. O seu chefe pode ser estressado, mas é gostoso.

Samira: Lais! Olha, esquece. Voltarei ao trabalho, se é que ainda tenho um.

Lais: E eu, a aproveitar minha folga! 🙏🏻 Depois me conta tudo. Boa sorte, minha desastrada!

Deixo o celular de lado e volto meu pensamento ao que Lais falou.

Salim me chama para levar uns documentos, que eu, desastrada, derrubo no meio da empresa.

Me xingo com raiva.

Estou uma pilha de nervos, com medo de ser demitida.

— Deixa eu te ajudar. — Fala uma moça loira de olhos claros. Ela tem um sorriso simpático.

— Ah, sou tão desastrada! — Falo recolhendo os papéis enquanto a moça me ajuda.

— Calma, isso acontece. Eu me chamo Suze. — Fala estendendo a mão para mim.

— E eu, Samira, mas pode me chamar de Sam. — Pego sua mão, apertando. — Isso sempre acontece comigo. Minha irmã diz que parece que minha mão é furada. — Sorrio, ainda nervosa por ser tão ridiculamente distraída.

— Isso acontece.

— Duvido que isso aconteça a todo instante com você.

A moça ri sem ânimo.

— Ei, tudo bem com você?

— Ah, só cansada. Estou trabalhando em uma matéria que está acabando comigo! — Fala passando os dedos nas têmporas.

— Do que fala a matéria?

— Eu não deveria mostrar, mas sei que você não falará nada.

Ela me mostra uns tópicos em um papel que carrega nas mãos.

Fala sobre os prazeres que temos ao comer, o que isso pode causar no nosso corpo e cérebro.

— Nossa! Olha, suponho que você deveria sentir o que está escrevendo. O que você pensa sobre o assunto?

— Ah! Fiz uma pesquisa de campo, mas ainda assim não sei o que escrever! — Diz frustrada.

— E como você pode falar de algo sem parar para sentir de verdade?

E aí que há um estalo em minha mente e uma ideia me surge.

— Espere uma horinha que já te chamo.

Ligo para Lais e peço para ela me trazer umas coisas.

Ela chia por estar de folga, mas acaba falando que vai me ajudar.

Após quarenta minutos, estou recebendo as coisas que ela me trouxe.

— Mana, você me coloca em cada situação! Sua mãe ficou fazendo várias perguntas.

— Ah, mana, desculpa. O que minha mãe falou quando pediu as coisas?

— Perguntou para quê eu queria, se era para trazer para você mesmo… Essas coisas.

— Daqui a pouco ligo para ela e explico.

— E o que você fará com toda essa comida? — Pergunta olhando para as sacolas.

— Degustação, mana! Muito obrigada! Por isso que te amo! — Falo lhe abraçando forte!

— Hum-rum, sei. Vê se não faz nenhuma loucura, agora, ou será demitida! Deixa eu voltar para minha folga!

Agradeço Lais mais uma vez.

Subo com as coisas e preparo na mesinha dos cafés.

O pessoal vem observar. Devem pensar que sou maluca.

— O que está fazendo, fofa? — Pergunta Salim, franzindo o cenho.

— Você verá!

Vou até à mesa de Suze, peço licença e coloco um lenço em seus olhos, vendando a moça.

— Sam, o que você tá fazendo? — Pergunta desconfiada.

— Calma, você já saberá!

Guio Suze até à mesa com as comidas.

— Sam, o que fará? — Pergunta preocupada.

— Calma! Vou te dar umas coisas. Você provará e sentirá… Apenas sinta as sensações que a comida causará em você. — Falo, e ela parece ainda confusa.

Pego uma porção de comida com uma colher e dou para Suze comer.

— Hmmm, que delícia.

— Sim, foi minha mãe que fez. Ela cozinha muito bem. Mas me diz: o que você sente ao saborear o alimento?

— É doce…

— Não é isso que quero saber. Quero saber o que você sentiu quando comeu. Quais sensações teve?

— Aaaah, entendi. Bem…

Suze pensa, e lhe dou outra colherada.

Ela degusta, e sua expressão é leve e feliz.

— Sinto felicidade, uma explosão de sabores… Sinto liberdade… — Ela sorri.

— Isso! Agora prove esse. — Falo e lhe dou uma colherada de outra iguaria.

— Hmmm, divino! Parece que estou derretendo assim, como o alimento na minha boca. A sensação é tão agradável que me sinto assim… Como quando eu era criança e minha mãe me fazia algo que gostava e me dava na boca. Tenho a mesma sensação de estar sendo cuidada!

— É isso, Suze! Não é só comida, é sentir. Não podemos fazer simplesmente as coisas no automático. Só por fazer! — Todos me observam atentamente. — Não é só escrever qualquer coisa. Quem lê cada matéria espera por mais… Mais informação, mais tato. As pessoas esperam sentir através de quem está escrevendo! — Falo olhando para todos em volta. — As pessoas precisam sentir por vocês. Só assim fará sentido o que elas leem. Se você descrever mais que aparência e descrever sensações, as pessoas terão interesse em ler mais e conhecer mais coisas que você escreve!

Salim me observa com afinco, e Suze, que tirou agora o lenço do rosto, parece estar entendendo o que quero dizer.

— Sam, obrigada! — Ela me dá um beijo estalado no rosto. — Agora sei o que você quis dizer, e escreverei! Tchau! — Fala enquanto corre para sua mesa.

— Por nada! — Grito para ela.

— Arrasou, menina! Você surpreendeu a todos! — Fala mostrando em volta. — Agora podemos comer?

— Claro!

Todos comem e fazem perguntas tanto sobre o trabalho como sobre as comidas maravilhosas.

Mas, de repente:

— Que bagunça é essa aqui?

A voz imponente e grossa atrás de mim provoca automaticamente um arrepio na minha espinha, me deixando estática, com medo de encarar o dono da voz. 

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