Capítulo 1 A substituta
Elowen Voss estava sentada na beira da cama estreita do dormitório compartilhado quando o celular vibrou pela terceira vez em menos de dois minutos. A tela iluminou o semiescuro do quarto com o nome de Mara Chen, e por um instante ela considerou deixar tocar. Era quase meia-noite de uma terça-feira chuvosa em Aether Bay, e o cansaço pesava nos ombros depois de mais um dia inteiro de aulas de Publicidade Estratégica, reuniões de grupo e um turno extra na cafeteria do campus. Mas Mara nunca ligava tão tarde sem motivo. Elowen deslizou o polegar pela tela e atendeu, a voz ainda rouca de quem tinha acabado de adormecer com o caderno aberto no colo.
— Mara? — murmurou, empurrando os fios castanho-escuros para trás da orelha.
Do outro lado da linha veio um som rouco, quase um gemido, seguido pela voz familiar, porém quebrada, da melhor amiga.
— El… eu não consigo ir amanhã.
Elowen sentou-se mais ereta. O coração deu um salto desconfortável. Mara era a pessoa mais pontual e determinada que ela conhecia. Desde o primeiro semestre, quando as duas se encontraram na fila da biblioteca brigando pelo último exemplar de O Código da Persuasão, Mara tinha sido o contraponto perfeito para a timidez de Elowen: falante, ambiciosa, sempre com o currículo atualizado e um plano de cinco anos impresso na parede do quarto. Agora a voz dela soava pequena, arrastada, como se cada palavra custasse esforço.
— O que aconteceu? Você está bem?
— Febre… quarenta e um. O médico disse que é uma infecção forte. Estou no hospital desde as seis da tarde. Não vou conseguir… a entrevista. Elowen, é amanhã às nove. Com ele. Com Kael Thorne.
O nome caiu no silêncio do quarto como uma pedra em água parada. Elowen sentiu a garganta secar. Kael Thorne. O bilionário recluso de trinta e quatro anos que quase nunca concedia entrevistas, o homem por trás da Vesper AI, a empresa que tinha transformado Aether Bay de uma cidade universitária costeira em um dos polos tecnológicos mais cobiçados da Costa Oeste. Todo mundo no curso de Publicidade falava dele como se fosse uma lenda viva: frio, brilhante, impossível de acessar. A revista estudantil Aether Pulse tinha lutado meses por aquela exclusiva. Mara fora a escolhida — a aluna mais brilhante do último ano, a que já tinha estágio garantido em três agências. E agora ela estava deitada em uma cama de hospital, pedindo o impossível.
— Mara, eu não posso. Eu não sou você. Eu não preparei nada. Eu mal sei formular uma pergunta decente na frente de um professor, quanto mais…
— Você é a única pessoa em quem eu confio para não estragar tudo — interrompeu Mara, a voz falhando. — O editor já avisou que se a gente perder essa data, a Vesper cancela. Eles só abriram a agenda porque eu insisti. Por favor, El. Só… aparece. Leva o gravador. Faz três perguntas. Qualquer coisa. Eu te devo a vida.
Elowen fechou os olhos. A chuva batia contra a janela em ritmos irregulares, e o cheiro de café velho e papel molhado impregnava o quarto. Ela conhecia cada detalhe daquela vida pequena e organizada que tinha construído com tanto cuidado. Filha única de um professor de literatura aposentado e de uma enfermeira que trabalhava turnos noturnos no hospital municipal, Elowen crescera em um apartamento modesto a vinte minutos do campus, cercada de livros e do silêncio respeitoso da casa. Sempre fora a menina quieta da sala, a que observava mais do que falava, a que tirava notas altas porque estudava até tarde e não porque brilhava em apresentações. Tinha vinte e um anos, cabelos castanhos que recusavam qualquer estilo elaborado, olhos cor de avelã que as pessoas descreviam como “gentis” e uma timidez que ainda a fazia corar quando um garçom perguntava se queria gelo no refrigerante. Nunca tinha namorado de verdade. Nunca tinha beijado alguém com a intensidade que via nos filmes. E agora Mara pedia que ela se colocasse na frente do homem mais intimidante de Aether Bay.
— Eu vou estragar — sussurrou ela. — Ele vai perceber que eu não sou você em cinco segundos.
— Então diga a verdade. Diz que eu fiquei doente e que você veio no meu lugar. Ele não é um monstro, El. É só um homem. Um homem ridiculamente rico e que odeia perder tempo, mas ainda assim um homem. Por favor. Eu não aguento a ideia de perder isso.
Houve um silêncio longo. Elowen ouviu o bipe distante de algum monitor hospitalar e a respiração ofegante da amiga. Pensou na carreira de Mara, no quanto aquela entrevista significava para o portfólio dela, no quanto as duas tinham sonhado juntas em sair da universidade com algo que as destacasse. Pensou também em si mesma — na menina que ainda escrevia rascunhos de campanhas publicitárias à mão porque o teclado a intimidava, na jovem que preferia observar o mundo a ser observada por ele. E, de repente, uma faísca de algo que ela raramente permitia a si mesma sentir: curiosidade. O que seria estar na mesma sala que Kael Thorne? O que ele diria? Como seria a voz dele quando não estivesse lendo um discurso preparado?
— Tudo bem — disse finalmente, a voz mais firme do que esperava. — Eu vou. Mas você me deve um café gigante quando sair daí. E uma explicação detalhada de todas as perguntas que tinha planejado.
Mara soltou um som que poderia ter sido riso ou soluço.
— Eu te mando o roteiro agora. E Elowen… obrigada. De verdade. Você é a melhor pessoa que eu conheço.
A ligação caiu. Elowen ficou olhando para a tela preta por longos segundos, o coração batendo rápido demais para a hora. O quarto parecia menor. A chuva lá fora, mais alta. Ela se levantou, acendeu a luminária de mesa e abriu o notebook. Em menos de um minuto o e-mail de Mara chegou com o arquivo anexado: Roteiro_Entrevista_Thorne_Final.docx. Elowen abriu. As perguntas eram boas — inteligentes, bem pesquisadas, o tipo de coisa que só Mara conseguiria formular. Ela leu cada uma duas vezes, memorizando o essencial, sentindo o estômago revirar.
Levantou-se de novo e abriu o armário. O que se vestia para entrevistar um bilionário às nove da manhã? Tinha apenas uma calça social preta que usara no último seminário e uma blusa branca de botão que ainda cheirava a amaciante barato. Puxou as duas peças, examinou-as sob a luz fraca e suspirou. Não havia milagre possível. Seria ela mesma, desajeitada e visivelmente deslocada, tentando ocupar o lugar de alguém que brilhava sem esforço.
Sentou-se novamente na cama, o celular ainda na mão. A mensagem do editor da revista já estava aberta na tela: "Confirmação de presença – Entrevista Kael Thorne – 9h – Sede Vesper AI – Levar documento de identificação e gravador". O cursor piscava no campo de resposta. Elowen leu o texto três vezes. Pensou em desistir. Pensou em ligar de volta para Mara e dizer que não tinha coragem. Pensou no rosto do pai quando ela contasse, meses depois, que tinha perdido a chance de algo importante por medo. E então, com os dedos ligeiramente trêmulos, começou a digitar.
"Confirmo presença. Elowen Voss, no lugar de Mara Chen por motivos de saúde. Chegarei pontualmente."
Enviou. O celular vibrou com a confirmação automática do sistema. Elowen ficou ali, sentada na beira da cama, segurando o aparelho com as duas mãos como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento. A chuva continuava caindo. O quarto continuava pequeno. Mas alguma coisa, silenciosa e irreversível, já tinha começado a se mover.
