Capítulo 2 Improviso

Elowen acordou antes do alarme, o coração já acelerado como se tivesse corrido uma maratona em sonho. A tela do celular marcava 6h17. Do lado de fora, a chuva da madrugada tinha diminuído para um fio fino e persistente que riscava os vidros do dormitório com a regularidade de um relógio quebrado. Ela ficou deitada por longos segundos, olhando o teto manchado, tentando convencer o corpo de que ainda havia tempo, de que podia fechar os olhos e fingir que a confirmação enviada na noite anterior não passara de um delírio momentâneo. Mas o peso do celular sob o travesseiro e o e-mail aberto na tela não mentiam. Em menos de três horas ela estaria na sede da Vésper AI, ocupando o lugar de Mara, olhando nos olhos de Kael Thorne.

Levantou-se com movimentos lentos, como quem teme acordar um animal perigoso. O chão frio sob os pés descalços a fez estremecer. Acendeu a luminária de mesa e o quarto ganhou a luz amarelada que ela tanto detestava. O espelho de corpo inteiro encostado na parede do armário a devolveu a imagem de uma jovem de cabelos bagunçados, camiseta larga de uma banda que nunca vira ao vivo e olhos ainda inchados de sono. Elowen Voss, vinte e um anos, aluna do último ano de Publicidade, filha de um professor de literatura que ainda corrigia redações de graça para os vizinhos e de uma enfermeira que voltava do plantão com o cheiro de antisséptico impregnado na pele. Aquela era a menina que preferia ficar na última fileira da sala, que escrevia campanhas imaginárias em cadernos de capa preta, que nunca tinha entrado em um prédio de vidro espelhado sem se sentir como uma intrusa. E agora precisava se transformar, em menos de duas horas, em alguém capaz de sustentar uma conversa com o homem mais inacessível de Aether Bay.

Abriu o armário com cuidado, como se as roupas pudessem julgá-la. A calça social preta estava amassada no fundo, ainda com a etiqueta de preço que ela esquecera de retirar depois do seminário de Ética na Comunicação. A blusa branca de botão cheirava a amaciante barato e tinha um fio puxado perto do punho. Elowen puxou as duas peças e as estendeu sobre a cama, examinando cada imperfeição sob a luz fraca. Não havia tempo para passar. Não havia outra opção. Enquanto vestia a calça, o celular vibrou. Era uma mensagem de Mara, enviada às 5h43.

Médico disse que a febre baixou um pouco. Ainda tonta. Você está se preparando? Me manda foto da roupa. Por favor não use aquela blusa branca com o botão torto. E lembra: na Vésper ninguém sorri à toa.

Elowen parou com a blusa pela metade do braço. Digitou de volta, os dedos ainda trêmulos.

É a única que tenho. Vai ter que servir. O que você quer dizer com ninguém sorri?

A resposta demorou quase um minuto, tempo suficiente para Elowen terminar de abotoar a blusa e perceber que o botão torto realmente chamava atenção.

A cultura de lá é… intensa. Eles chamam de “clareza radical”. Ninguém perde tempo com formalidades vazias. Reuniões começam no segundo exato. E-mails têm no máximo três linhas. E o Thorne odeia qualquer sinal de insegurança. Se você gaguejar, ele nota. Se você tentar agradar demais, ele nota mais ainda. A sede inteira funciona como uma extensão da cabeça dele: silenciosa, eficiente, quase asséptica. As pessoas falam baixo. Ninguém deixa xícara suja na pia da cozinha comum. E tem uma regra não escrita de que você nunca pergunta sobre a vida pessoal de ninguém, especialmente a dele. Eu pesquisei tudo isso ontem à noite antes de passar mal. Desculpa te jogar nisso.

Elowen leu a mensagem duas vezes, o estômago revirando. Clareza radical. Silêncio. Eficiência. Ela imaginou os corredores de vidro, os funcionários caminhando com fones de ouvido com cancelamento de ruído, as paredes brancas sem nenhum quadro motivacional barato. Tinha lido, semanas antes, uma reportagem antiga sobre a Vésper AI no Aether Tech Review: a empresa não tinha departamento de Recursos Humanos tradicional. Tinha um “time de alinhamento”, cujo trabalho era garantir que cada funcionário estivesse “sincronizado com a visão”. Quem não se adaptava era dispensado em menos de noventa dias, sem cerimônia. Os escritórios não tinham divisórias altas; todo mundo trabalhava em mesas longas de concreto polido, sob luz fria e constante. E no último andar, onde ficava o gabinete de Kael Thorne, diziam que a temperatura era mantida dois graus mais baixa de propósito.

Ela trancou a tela e voltou ao espelho. A blusa estava um pouco larga nos ombros. A calça, justa demais no quadril e frouxa na cintura. Elowen puxou o cinto fino que usava nos jeans e apertou até a fivela encontrar o último furo. O resultado ainda parecia de alguém que vestira a roupa de outra pessoa às pressas. Abriu a gaveta da cômoda e retirou o único par de sapatos sociais que possuía: saltos baixos pretos, comprados em liquidação dois anos antes. Os dedos dos pés reclamaram assim que ela os enfiou. Caminhou até a pia do banheiro compartilhado, escovou os dentes com pressa, lavou o rosto com água fria até as bochechas arderem e tentou domar o cabelo com um elástico simples. O resultado foi um rabo de cavalo baixo, prático, sem graça. Nada que lembrasse as alunas confiantes que desfilavam pelos corredores da faculdade.

Voltou ao quarto e abriu o notebook. O currículo de Mara ainda estava na tela, impecável. Elowen abriu um documento novo e começou a digitar o próprio, mas a mente não parava de voltar às palavras da amiga. Clareza radical. Ela imaginou Kael Thorne sentado do outro lado de uma mesa de vidro, observando-a com aqueles olhos que as fotos da internet mostravam sempre iguais: frios, atentos, impacientes. A reportagem dizia que ele raramente apertava mãos. Preferia um aceno mínimo. Que os estágios na Vésper eram lendários por exigir dedicação quase monástica: jornadas de doze horas, silêncio absoluto nas áreas comuns, e uma política de “portas abertas” que, na prática, significava que qualquer um podia ser chamado à sala do CEO a qualquer momento para justificar uma linha de código ou uma decisão de campanha. Elowen sentiu o peito apertar. Ela, que ainda gaguejava quando o professor pedia para ler um parágrafo em voz alta, teria que atravessar aquele território.

Imprimiu duas cópias do currículo improvisado na impressora compartilhada do corredor — que emperrou duas vezes — e guardou as folhas numa pasta de plástico transparente. O gravador digital, emprestado da revista, já estava carregado e dentro da bolsa de lona azul. Não havia pasta de couro. Não havia perfume caro. Só a versão mais presenteável possível de Elowen Voss, prestes a entrar em um lugar onde, segundo Mara, até o café era servido em xícaras pretas foscas para não “distrair a mente”.

Às 7h40 o estômago roncou. Ela não conseguia comer. Fez um café instantâneo na caneca rachada e bebeu em goles pequenos, olhando pela janela o estacionamento ainda semi-vazio. Os carros dos poucos alunos que tinham aula às oito da manhã brilhavam sob a chuva fina. O dela — um Honda Civic 2012 herdado do pai — estava no fundo, perto do muro de concreto. Elowen calculou o tempo: vinte e cinco minutos até a sede da Vésper AI se o trânsito cooperasse. O endereço já estava salvo no GPS desde a noite anterior. Abriu mais uma vez a reportagem antiga no celular e leu o trecho que mais a inquietava: “Dentro da Vésper, a cultura é descrita por ex-funcionários como uma mistura de mosteiro e laboratório de alta performance. Não se fala em ‘equipe’; fala-se em ‘célula’. Não se fala em ‘erro’; fala-se em ‘desvio de alinhamento’. E no centro de tudo está Thorne, que raramente levanta a voz porque não precisa. O silêncio dele já é uma ordem.”

Elowen fechou o artigo. Sentou-se na beira da cama, a bolsa no colo, o currículo improvisado dentro da pasta, o celular na mão. Abriu o roteiro de Mara e leu as perguntas em voz alta, tentando ensaiar o tom. A primeira soava inteligente demais na sua boca. A segunda, invasiva. A terceira, quase filosófica. Parou no meio da quarta e fechou os olhos. Imaginou a sala de reuniões da Vésper: paredes brancas, nenhuma planta, nenhuma foto, apenas o logo discreto da empresa gravado no vidro da porta. Imaginou o homem do outro lado da mesa notando o botão torto da blusa, o salto um pouco gasto, a voz que teimava em tremer. O peito apertou. Por um segundo considerou ligar para o editor da revista e dizer que não iria. Depois considerou ligar para Mara e devolver a responsabilidade. Mas a memória da voz rouca da amiga e a frase “você é a única pessoa em quem eu confio” a impediram.

Levantou-se de súbito. Guardou o celular no bolso da calça, passou a alça da bolsa pelo ombro e olhou o quarto pela última vez. A cama desalinhada, o caderno aberto na mesa, a caneca de café pela metade. Tudo parecia pertencer a outra vida, uma vida em que ela ainda era apenas a estudante quieta que observava o mundo pela fresta da porta. Agora a porta precisava ser atravessada — e do outro lado esperava um lugar onde o silêncio era regra e a clareza, lei.

Elowen apagou a luminária, verificou o bolso uma última vez — chaves, celular, documento de identidade — e saiu. No corredor silencioso, o cheiro de torrada queimada vinha de algum quarto próximo. Ela caminhou rápido até a escada de emergência, desceu os dois lances sem encontrar ninguém e atravessou o saguão vazio. A porta de vidro do prédio pesou mais do que o normal quando ela a empurrou. Lá fora, o ar frio e úmido bateu no rosto. A chuva fina grudou nos fios soltos do cabelo.

O Honda Civic esperava no mesmo lugar. Elowen abriu a porta do motorista, jogou a bolsa no banco do passageiro e, antes de entrar, olhou para trás, para a janela do seu quarto no segundo andar. Depois, com um movimento decidido, puxou a chave do bolso, trancou a porta do carro por reflexo — embora ninguém estivesse por perto — e, ao perceber o gesto inútil, riu baixinho de si mesma. O som saiu estranho, quase histérico. Guardou a chave de novo, ajeitou a bolsa e saiu correndo entre as poças d’água em direção ao veículo, o salto baixo batendo irregularmente no asfalto molhado, o coração batendo muito mais alto do que os passos.

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