Capítulo 3 Vidro e Silêncio
O prédio da Vésper AI ergue-se no centro de Aether Bay como uma lâmina negra de vidro e aço, tão alta que a chuva fina parecia deslizar por suas faces sem conseguir manchá-las. Elowen estacionou o Honda Civic a dois quarteirões de distância porque o estacionamento subterrâneo exigia credencial prévia e ela não tinha nenhuma. Caminhou sob o guarda-chuva torto que encontrara no porta-malas, os saltos baixos batendo irregularmente nas pedras molhadas da calçada, a bolsa de lona azul batendo contra o quadril a cada passo. Quanto mais se aproximava, mais o edifício parecia absorver o som da cidade. Os carros passavam em silêncio abafado, os pedestres aceleravam o passo sem conversar, e até o vento parecia respeitar a fronteira invisível que cercava o terreno.
Na entrada principal, duas portas de vidro fumê se abriram automaticamente com um sibilo suave. O saguão era vasto, de pé-direito altíssimo, piso de concreto polido que refletia as luzes embutidas no teto como espelhos opacos. Não havia música ambiente. Não havia plantas. Não havia recepcionista sorridente atrás de um balcão de madeira clara. Havia apenas uma parede inteira de vidro fosco com o logo da Vésper gravado em baixo-relevo — um “V” estilizado que lembrava tanto uma chama quanto uma lâmina — e, à direita, um arco de segurança que parecia mais sofisticado do que os de aeroportos internacionais. Dois homens de terno preto e fone de ouvido discreto observavam cada pessoa que entrava. Um terceiro, mais jovem, segurava um tablet e já olhava na direção de Elowen antes mesmo de ela terminar de fechar o guarda-chuva.
— Nome completo e motivo da visita — disse o jovem, a voz baixa e neutra, sem qualquer inflexão de cortesia vazia.
Elowen engoliu em seco. A cultura de clareza radical de que Mara falara parecia começar já na porta.
— Elowen Voss. Estou aqui para a entrevista das nove horas com o senhor Kael Thorne. No lugar de Mara Chen. Ela… ficou doente.
O homem digitou algo no tablet. Os olhos dele não se ergueram imediatamente. Quando finalmente olhou para ela, o olhar era avaliador, quase clínico.
— Documento de identificação. Convite digital ou confirmação de e-mail.
Elowen abriu a bolsa com mãos um pouco trêmulas, retirou a carteira de identidade e o celular, abrindo o e-mail de confirmação que enviara na noite anterior. O segurança leu em silêncio, depois passou o documento por um scanner portátil. O aparelho emitiu um bipe curto.
— Bolsa na esteira. Casaco e objetos metálicos na bandeja. Passar pelo arco com os braços afastados do corpo.
Ela obedeceu. A esteira engoliu a bolsa de lona como se fosse um corpo estranho. O arco não apitou, mas um dos homens de terno preto fez um gesto mínimo com a cabeça e apontou para uma sala lateral de vidro fosco.
— Verificação adicional. Protocolo para visitantes sem credencial permanente.
O coração de Elowen acelerou. A sala era pequena, iluminada por luz branca fria, com uma mesa de metal e duas cadeiras. Uma mulher de cabelos presos em coque baixo e expressão imperscrutável entrou logo atrás dela, carregando um scanner manual e um tablet.
— Por favor, retire o conteúdo da bolsa e coloque sobre a mesa — disse a mulher, a voz tão controlada quanto a do colega.
Elowen obedeceu. Caderno, canetas, o gravador digital, o currículo improvisado dentro da pasta plástica, um pacote de lenços, a chave do carro, o celular. A mulher examinou cada item com calma metódica, passou o scanner sobre o gravador duas vezes e depois apontou o aparelho para o corpo de Elowen, da cabeça aos pés, sem tocar.
— Algum dispositivo de gravação adicional? Microfone oculto? Câmera?
— Só o gravador da revista — respondeu Elowen, a voz saindo mais baixa do que pretendia. — É para a entrevista. Eu… preciso dele.
A mulher anotou algo no tablet.
— O gravador será lacrado até a sala de reunião e devolvido na sua saída, caso a entrevista seja autorizada. Política interna. Clareza radical inclui controle total de registro. O senhor Thorne decide o que pode ou não ser gravado.
Elowen sentiu o estômago revirar. Mara não tinha mencionado isso. A mulher lacrou o gravador com uma fita preta numerada, devolveu os demais pertences e entregou a Elowen um crachá provisório de plástico transparente com seu nome impresso em letras discretas e a palavra “VISITANTE – ACESSO RESTRITO – 9.º ANDAR”.
— Use o crachá visível o tempo todo. Não fotografe. Não grave. Não interaja com funcionários além do necessário. O elevador da direita é o único liberado para o seu destino. Ele sobe direto. Não há botões intermediários.
Elowen pendurou o crachá no pescoço. O plástico era frio contra a pele. Saiu da sala de verificação e atravessou o saguão sob o olhar atento dos seguranças. O elevador indicado era uma cabine de aço escovado e vidro fumê, sem nenhum botão aparente no exterior. Quando ela se aproximou, a porta se abriu sozinha com o mesmo sibilo suave das portas de entrada. Lá dentro, o espaço era maior do que o esperado, paredes revestidas de um material fosco que absorvia a luz, e um único display digital que já mostrava “9 – GABINETE EXECUTIVO”. Não havia painel de botões. Não havia música. Apenas o reflexo distorcido de Elowen no vidro escuro: a blusa branca com o botão torto, o rabo de cavalo simples, o crachá provisório brilhando no peito como uma marca de quem não pertencia àquele lugar.
Ela entrou. O chão da cabine era de um material que amortecia o som dos saltos. A porta começou a se fechar com lentidão deliberada. No último segundo, Elowen viu o segurança mais jovem ainda a observando do outro lado do saguão, o tablet na mão, a expressão inalterada. Depois o vidro fumê selou a visão do mundo lá fora. Houve um instante de silêncio absoluto, tão completo que ela pôde ouvir o próprio sangue latejando nos ouvidos. Em seguida, a cabine deu um leve solavanco e começou a subir em velocidade constante, sem as paradas habituais dos elevadores comuns, sem o som metálico dos andares passando. Apenas o movimento suave e inevitável em direção ao topo do prédio, onde, segundo todas as reportagens que ela lera, Kael Thorne aguardava em uma sala cuja temperatura era mantida dois graus mais baixa do que o restante do edifício.
Elowen apertou a alça da bolsa contra o peito. O currículo improvisado dentro da pasta plástica parecia de repente ridículo. A cultura de clareza radical da Vésper não admitia improvisos. Não admitia botões tortos. Não admitia meninas de dormitório que chegavam de Honda Civic arranhado e tentavam ocupar o lugar de alguém brilhante. E ainda assim o elevador continuava subindo, em silêncio, direto para o último andar.
