Capítulo 5 O olhar

A porta de madeira escura se fechou atrás de Elowen com um clique suave e definitivo, isolando-a completamente do corredor e da presença controlada de Iris Hale. O escritório de Kael Thorne era maior do que ela imaginara e, ao mesmo tempo, estranhamente vazio. As paredes continuavam brancas, mas aqui a brancura parecia mais absoluta, quase agressiva, interrompida apenas por uma única parede de vidro que ia do chão ao teto e revelava a mesma vista cinzenta de Aether Bay, agora vista de uma altura ainda mais isolada. Não havia estantes repletas de livros. Não havia fotografias. Não havia troféus nem certificados emoldurados. Havia apenas uma mesa longa de concreto polido posicionada de frente para a janela, duas cadeiras de couro preto idênticas às da sala de espera, e, no canto mais distante, uma poltrona baixa voltada para o exterior, como se o dono daquele espaço preferisse ocasionalmente dar as costas para o mundo que construíra.

Elowen permaneceu de pé a poucos passos da porta, a bolsa de lona pressionada contra o corpo, o crachá provisório ainda pendurado no pescoço como uma confissão. O ar estava visivelmente mais frio ali dentro. A temperatura mais baixa de que as reportagens falavam não era exagero; era uma escolha deliberada, mais uma camada da clareza radical que parecia governar cada centímetro da Vésper AI. Ela sentia o frio penetrar a blusa fina, endurecer os mamilos sob o tecido, fazer os dedos formigarem em volta da alça da bolsa. O silêncio era tão completo que podia ouvir o próprio sangue circulando nas têmporas. Não havia relógio na parede. Não havia qualquer indicação de quanto tempo deveria esperar. Apenas o espaço vazio e a certeza de que estava sendo observada, mesmo que ainda não houvesse ninguém visível.

Ela não se sentou. Não ousou. Em vez disso, deu dois passos hesitantes em direção à mesa, depois parou, indecisa sobre qual cadeira seria a dela. A de frente para a janela ou a de costas? A dúvida em si já a fazia sentir-se ridícula. Mara teria escolhido sem hesitar. Mara teria colocado a pasta sobre a mesa, aberto o gravador e esperado com a postura de quem pertencia àquele lugar. Elowen apenas apertou mais forte a alça da bolsa e deixou o olhar vagar pela superfície da mesa. Não havia computador visível. Não havia canetas. Não havia sequer uma folha de papel. A clareza radical se estendia até a ausência de objetos: tudo o que não servia a um propósito imediato fora removido. Ela se perguntou, por um segundo absurdo, se o próprio Kael Thorne também se considerava um objeto funcional dentro daquela lógica.

O tempo se alongou. Elowen contou as respirações novamente, como fizera na sala de espera. Dez. Vinte. Trinta. O frio começava a se instalar nos ossos. Ela pensou em tirar o crachá, depois desistiu. Pensou em se sentar, depois desistiu outra vez. Cada movimento possível parecia carregado de significado, e ela não queria escolher o significado errado. A janela atraía o olhar como um ímã. Lá fora, a chuva continuava caindo sobre Aether Bay em fios finos e constantes. Os prédios do campus universitário pareciam brinquedos distantes. O mar, uma faixa cinza indistinta. Daquela altura, sua vida inteira — o dormitório compartilhado, o Honda Civic arranhado, as noites de estudo com café instantâneo — parecia pertencer a um mundo menor, quase irrelevante. O peito apertou. Ela era pequena demais para aquele lugar. Pequena demais para a porta que acabara de atravessar. Pequena demais para o homem que ainda não aparecera e que, mesmo ausente, já ocupava todo o oxigênio da sala.

Foi então que a porta ao fundo do escritório — uma porta que ela nem notara, disfarçada na brancura da parede — se abriu.

Kael Thorne entrou sem pressa e sem qualquer som desnecessário. A porta se fechou atrás dele com o mesmo clique suave. Ele não falou. Não cumprimentou. Apenas parou a alguns passos de distância e a observou.

Elowen sentiu o impacto do olhar como um toque físico. Ele era mais alto do que as fotos sugeriam, ou talvez a presença dele simplesmente ocupasse mais espaço do que a média das pessoas. O terno era preto, impecável, cortado de forma a enfatizar a largura dos ombros e a linha longa das pernas, sem qualquer excesso de tecido ou adorno. A camisa branca por baixo não tinha gravata; o colarinho aberto revelava apenas um fragmento da garganta e o início da clavícula. O cabelo escuro, cortado curto nas laterais e um pouco mais longo em cima, estava penteado com a mesma precisão que parecia governar tudo ao redor. Mas eram os olhos que a prendiam. Cinza-escuros, quase cor de tempestade, e completamente imóveis. Eles percorriam o rosto dela com uma lentidão deliberada, desciam pelo pescoço, pelo crachá provisório, pela blusa branca de botão torto, pela calça social um pouco frouxa na cintura, até os saltos baixos gastos, e depois subiam de novo, sem pressa, como se estivesse catalogando cada detalhe e arquivando-o em algum lugar inacessível.

O silêncio se estendeu. Elowen sentiu o rosto esquentar, depois esfriar. As mãos suavam em volta da alça da bolsa. Ela abriu a boca para se apresentar, para explicar a substituição, para dizer qualquer coisa que quebrasse aquela tensão, mas nenhum som saiu. O olhar dele não permitia. Era um olhar que não pedia permissão e não oferecia alívio; apenas tomava informação e a processava em silêncio. Ela se lembrou da frase de Mara — “se você gaguejar, ele nota” — e percebeu que nem sequer conseguira chegar ao ponto de gaguejar. Estava paralisada.

Kael deu um passo à frente. Depois outro. A distância entre eles diminuiu o suficiente para que Elowen captasse o leve aroma de algo limpo e frio, como madeira clara e ar noturno. Ele não estendeu a mão. Não sorriu. Apenas continuou a observá-la, a cabeça ligeiramente inclinada, como se ela fosse um problema inesperado em uma equação que até então se resolvia com elegância. O tempo pareceu distorcer. Elowen teve a estranha certeza de que ele conseguia ouvir o batimento descompassado do coração dela, que via a respiração curta, o modo como os dedos se apertavam em volta da bolsa, a luta interna para não baixar os olhos. Ela forçou-se a manter o contato visual, mesmo sentindo as pernas amolecerem. Era a menina do dormitório, a filha da enfermeira e do professor de literatura, a estudante que ainda corava quando pedia a conta no restaurante. E ele era Kael Thorne, o homem que construíra um império sobre silêncio e precisão, e que agora a estudava como se ela fosse a única imperfeição naquele espaço perfeito.

Por fim, ele se moveu. Caminhou até a mesa de concreto, puxou a cadeira de costas para a janela e sentou-se com uma naturalidade que contrastava com a rigidez de tudo ao redor. Os cotovelos se apoiaram na superfície limpa, os dedos longos se entrelaçaram à frente do corpo. O olhar cinza não se desviou dela nem por um segundo.

Então a voz veio, baixa, clara, sem qualquer pressa ou elevação desnecessária.

— Você não é a pessoa que eu esperava.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo