Acertos de contas sem dormir
Ann não conseguiu pregar o olho naquela noite. O apartamento estava silencioso, exceto pelo zumbido da velha geladeira no canto, mas em sua mente, o caos reinava. Ela estava deitada rígida na cama, olhos bem abertos, encarando o teto como se ele pudesse responder às suas perguntas não ditas. Ela tinha fechado as cortinas com força - sem luz da lua para guiá-la, apenas escuridão - mas isso só fazia seus pensamentos girarem mais ferozmente.
Cada rangido do prédio a deixava inquieta. Cada tique-taque do relógio de parede disparava sua adrenalina. Ela tentava acalmar seu coração acelerado, mas ele batia como tambores de guerra. Ann olhou ao redor do apartamento vazio: os pratos abandonados na mesa de centro, sua mala arrumada encostada no guarda-roupa, uma única rosa vermelha em um vaso - um presente que Judith lhe deu no Dia dos Namorados, agora murcha e quase seca.
Ela se revirava debaixo das cobertas, enrolando o lençol ao seu redor como uma armadura. Em um momento ela congelava; no próximo, tremia. Então sua mente se inundava com possibilidades futuras, cada uma mais aterrorizante que a outra.
'O que aconteceria agora? Rex Radford retaliaria? Minha reputação seria destruída? Não que eu tivesse muita coisa a perder de qualquer maneira. O bullying pioraria? No pior dos casos: eu conseguiria mostrar meu rosto no campus de novo?', ela se perguntava em pânico.
Mais de uma vez, ela se levantou e andou de um lado para o outro em seu pequeno quarto, respirando fundo enquanto seus olhos se voltavam para a janela. De vez em quando, ela espiava pela fresta das cortinas, meio esperando ver paparazzi ou olhares julgadores do outro lado da rua. Mas não havia nada, apenas a noite escura além.
Ela verificou a hora em seu telefone quebrado: 3:02 AM. Ela estava um feixe de nervos.
"Talvez eu devesse fugir para o México. Mudar meu nome para Aurora... ou Amor. Eu poderia abrir uma barraca de tacos. Ou me casar com um fazendeiro. Ter doze filhos, formar um time de futebol de verdade, ganhar campeonatos. Ganhar dinheiro. Ser feliz."
Ela fechou os olhos e balançou a cabeça com força, "não, não, isso é baixo demais - até para mim."
Cambaleando até o banheiro, ela se olhou no espelho. Seu rosto estava marcado pelo estresse, olheiras escuras sob os olhos inchados. Suas mãos tremiam levemente quando esfregou as têmporas.
"Talvez... Las Vegas?" ela sussurrou com os olhos brilhando de esperança. "Ficar bêbada, acordar casada com um cara rico... Divórcio de conto de fadas seis meses depois, ficar com metade das propriedades dele... a vida poderia ser... interessante se fosse assim."
E depois disso, ela imaginou um auditório cheio de repórteres, suas próprias lágrimas na capa de uma revista enquanto ela se fazia de vítima. Ela riu da ideia. "Patético demais."
"Ou eu poderia simplesmente largar a escola," ela afirmou para si mesma no espelho. "Ficar como garçonete no Craves. E... sei lá. Apenas existir. Sem mais constrangimentos."
Seus ombros caíram, o peito apertado. "Por que eu fui para a escola ontem? Por que eu o confrontei daquele jeito? Eu nem o conhecia. Vivi minha vida nas sombras por tanto tempo, ignorando a popularidade, ignorando as pessoas, ficando invisível. E hoje eu decidi deixar um rosto bonito me derrubar... Que piada!"
O pensamento acendeu seus olhos. Ela bateu de leve com o punho no balcão do banheiro e cambaleou para trás, sufocada pela culpa.
Nas horas mais profundas, lágrimas brotaram em seus olhos. Ela se deixou cair no chão, encostada nas frias lajotas, enterrando a cabeça nas mãos. Ela sussurrou as injustiças que tinha suportado: "Você não pode evitar quem você é. Você não pode fingir para sempre. Você não pode fingir ser esse capacho para sempre."
Não foi até a luz do sol sangrar pelas cortinas que ela finalmente deslizou para o sono, a exaustão embaçando sua consciência. Quando a madrugada rompia, sua mente se acalmou. Ela se deixou levar... em paz pela primeira vez em horas.
A manhã chegou cedo demais.
O despertador quebrou o chamado pré-alvorada, alto, penetrante, implacável. Parecia um tiro. Ann se levantou de um pulo, coração disparado. Ela piscou, desorientada, seu corpo ainda pesado da sobrecarga emocional da noite anterior.
O display digital brilhava: 9:58 AM.
Suas aulas tinham começado às 8:00 AM.
"Merda!" ela ofegou, o sangue subindo ao rosto. Ela saltou da cama, ainda tonta, e de repente estava de pé.
Ela mal processou os móveis sem graça: os lençóis meio puxados, suas roupas espalhadas pela cômoda.
Sua mente se inundou de pânico.
"Se eu não for de novo hoje, serei rotulada de covarde. Fraca. Fugitiva. Eles vão dizer que eu tenho medo dele. Eu não posso deixar isso acontecer. Mas como eu vou chegar lá? O ônibus já deve ter ido embora."
Ela congelou na porta do quarto, respiração ofegante. Os ônibus saíam do complexo estudantil duas vezes por hora. O último provavelmente saiu às 8:00 AM.
O próximo só passaria às 11h, o que é tarde. Ir a pé a faria chegar ainda mais tarde, mas ela não pode gastar a maior parte de sua mesada semanal em táxis. Mas ela precisava ir ao campus. Ela tinha que ir.
Naquela manhã, às 10h18, em pé na frente da geladeira, ela pegou uma maçã machucada e deu uma mordida forte. O sabor azedo a despertou, dissipando a névoa.
Nesse momento, a porta se abriu de repente. Judith tropeçou para dentro, olhos vermelhos, cabelo bagunçado, agarrando uma bolsa grande como se fosse sua tábua de salvação.
O coração de Ann deu um salto. Ela se virou rapidamente da geladeira e ficou olhando. Por um momento, a fadiga e a culpa de Ann explodiram em um acolhimento pontilhado de rosas.
“Judith?”
Sua voz suave tremia.
Judith não respondeu. Ela correu pela sala de estar estreita e se jogou nos braços de Ann. Logo, suas lágrimas molhavam a camisa de Ann.
Ela não precisava perguntar. Ela não precisava explicar.
“Eu... eu sinto muito,” Judith disse entre soluços. “Eu não fui justa com você ontem. Eu não deveria ter gritado—eu deveria ter ajudado. Eu ouvi... todos os boatos. Ouvi dizer que você havia sido fechada permanentemente... Eu entrei em pânico. Achei que você tinha ido embora. Achei que você já teria ido embora quando eu chegasse aqui.”
Ann fechou os olhos, sobrecarregada—por alívio, arrependimento e amor, tudo se misturando. Ela gentilmente acariciou as costas de Judith até as lágrimas de Judith diminuírem.
Ann colocou um dedo suavemente para silenciá-la. “Jud, está tudo bem. Pare de chorar.”
Ela se afastou um pouco, afastando o cabelo do rosto de Judith.
Judith fungou. “Mas eu deveria ter sido seu porto seguro. Em vez disso, adicionei mais turbulência à sua tempestade.”
Ann balançou a cabeça. “Você não fez isso. Não de verdade.”
Elas ficaram em um silêncio íntimo e embaçado pelas lágrimas.
Finalmente, os ombros de Ann relaxaram. “Eu também sinto muito. Ontem—eu senti como se o chão tivesse se aberto sob meus pés. Minha vida inteira passou diante dos meus olhos. Eu não sabia se iria me recuperar.”
Ela exalou, o peito se expandindo. “Mas eu tenho que enfrentar isso. Não posso ficar escondida. Não posso deixar isso me arruinar.”
Judith assentiu, enxugando os olhos. “São 10h30. Já estamos atrasadas. Vamos—pelo bem de ambas.”
A tensão entre elas havia derretido. Elas entenderam: estavam nisso juntas, e juntas eram melhores do que separadas.
Ann se sentou e ofereceu a maçã a Judith.
“Não,” Judith balançou a cabeça. “Preciso de algo forte. Algo mais viciante. Café?”
Ann riu suavemente pela primeira vez em dias.
“Café e... seja o que for necessário para sobreviver hoje. Depois você me conta todas as histórias que ouviu sobre mim esta manhã na escola. Combinado?”
Judith abriu a boca para responder—mas foi interrompida por um barulho alto contra a porta da frente.
Ambas as garotas se sobressaltaram. Judith pulou.
Ann se levantou lentamente, a maçã rolando de seu colo para o chão.
Outro barulho. Este mais alto. Mais deliberado.
“O que diabos—” Judith sussurrou, sua voz de repente pequena.
Ann deu um passo em direção à porta, o coração disparado. “Quem é?” ela chamou.
Nenhuma resposta.
Seus olhos se voltaram para o olho mágico. Seu corpo inteiro ficou tenso.
Um homem de terno escuro estava do lado de fora, usando óculos escuros apesar da sombra do corredor. Ao lado dele, uma mulher segurando uma prancheta. Ambos pareciam corporativos. Limpos. Caros.
Judith sussurrou, “Ann...?”
“Eles não são policiais, não parecem.” Ann murmurou, tentando ser convincente.
Ela abriu a porta apenas uma fresta, deixando a corrente de segurança ainda presa.
“Oi-oi, posso ajudar?”
O homem não sorriu. “Senhorita Mcbrown?”
“Quem está perguntando?”
“Você foi notificada de uma ordem de restrição esta manhã. Da família Radford. Isto é um aviso legal—assinado e selado.”
Judith ofegou atrás dela.
“Com que base?” Ann retrucou, a raiva subindo por suas veias.
O homem não piscou. “Assédio. Calúnia. Difamação. Estresse emocional. Distribuição de informações pessoais falsas.”
As mãos de Ann se fecharam em punhos do lado de dentro da porta.
“Isso não faz sentido, eu não fiz nenhuma dessas coisas,” Ann informou a eles.
“Bem, deixaremos os documentos aqui,” disse a mulher com a prancheta. “Você foi formalmente avisada. Qualquer contato direto não autorizado com Rex Radford—público ou privado—pode resultar em processo.”
O homem deslizou o envelope pela fresta sob a porta, acenou uma vez e foi embora como se nada tivesse acontecido.
Ann bateu a porta com força e encostou-se nela, respirando descontroladamente.
Judith a encarou, olhos arregalados. “Isso... isso é insano.”
“Não se trata de legalidade,” Ann murmurou, a voz tremendo de fúria. “É intimidação. É controle de poder. Ele está tentando me intimidar por uma questão tão pequena?”
Judith se ajoelhou para pegar o envelope, virando-o.
“Isso é real,” ela sussurrou.
Ann olhou para o chão, desanimada.
“Droga, eu odeio ainda mais esse cara agora.” Ann declarou com uma careta.
