Capítulo 4 Quatro
Selene gemeu:
— Mãe...
— Não.
Elas tentaram pedir, implorar, negociar e subornar para conseguir boas notas neste bimestre, mas nada funcionou.
Uma hora depois, Selene abriu um sorriso travesso no quarto:
— A gente vai sair pela janela.
Lyra encarou a amiga.
— Você é maluca.
— Provavelmente — Selene disse, rindo baixinho, já se levantando da cama enquanto Lyra a observava, chocada.
Como ela foi parar com uma amiga tão caótica assim?
Elas saíram com cuidado e pularam no quintal, só para encontrar Rowan parado ali.
Ele cruzou os braços.
— Vocês duas são inacreditáveis.
Selene suspirou, dramática.
— Quanto?
Rowan sorriu, os olhos percorrendo Lyra, admirando como o vestido ficava nela sem desviar por um segundo, antes de dizer em voz baixa:
— Cinquenta.
Selene enfiou o dinheiro na mão dele.
— Você não viu nada.
Rowan guardou no bolso e saiu do caminho.
— Divirtam-se, criminosas. Selene, cuida dela!
As garotas correram rindo até o carro de Selene. Quando chegaram ao local da festa, a música fazia as paredes tremerem.
A festa dos Night Riders estava insana: luzes piscando, corpos se mexendo por toda parte. O som era alto o bastante para Lyra sentir no peito. Selene agarrou a mão dela e a puxou para dentro.
Pela primeira vez, ninguém parou Lyra. Ela não estava invisível, e elas dançaram juntas no meio da multidão, rindo, sem fôlego.
Lyra nunca tinha visto nada parecido. As pessoas estavam selvagens, descuidadas, vivas — e Selene se encaixava ali com uma facilidade absurda.
Em algum momento, Selene a arrastou até o bar. Elas se sentaram nos bancos altos, rindo e bebendo. Lyra tomou um gole devagar, observando tudo ao redor, maravilhada.
Então Selene arfou de repente:
— Meu Deus.
— O quê?
— Aquele cara... minha paixonite do bimestre passado.
Antes que Lyra pudesse responder, Selene desceu do banco num pulo.
— Eu vou dançar com ele.
Lyra riu.
— Vai.
Selene sorriu e desapareceu na multidão.
Sozinha, Lyra ficou sentada em silêncio, bebendo e vendo Selene dançar. Ela parecia tão livre, tão destemida... não fazia ideia de como era sortuda, e Lyra sorriu de leve enquanto observava a amiga. Então o ambiente começou a embaçar, e ela piscou.
As luzes ficaram brilhantes demais, a música alta demais. Ela se levantou tentando se firmar; o corpo balançou. Tinha algo errado, e ela tentou ir na direção de Selene.
O chão inclinou sob seus pés e, no instante em que ela tropeçou, braços fortes a seguraram, e o cheiro de um estranho a envolveu.
Os dedos dela se agarraram a um peito firme quando a tontura desabou sobre ela. Lyra tentou erguer a cabeça, mas a sala girava rápido demais. A última coisa que sentiu foi o calor de braços desconhecidos mantendo-a de pé.
Então tudo ficou escuro.
Aos poucos, ela começou a sentir mãos na pele. Eram toques quentes, possessivos, e cada toque mandava calor pelo corpo dela, como fogo correndo sob as veias.
Seus lábios estavam pressionados contra os de outra pessoa; suspiros suaves escapavam dela enquanto dedos deslizavam por sua cintura, seus braços, suas coxas.
A mente dela se afogava em névoa, em calor, no borrão vertiginoso de prazer e confusão. É o Damon? Foi o que o coração perguntou à única célula do cérebro que ainda funcionava, mas nem o cérebro conseguia processar nada naquele momento.
Tinha que ser Damon. Era o único pensamento ao qual ela se agarrava.
É ele, era o único garoto que poderia estar tão perto dela assim; ela o queria havia tanto tempo, o sorriso dele fazia seu coração disparar, alguém que ela sempre sonhara em beijar — ou com quem perder a virgindade. Valeria a pena se ela perdesse com ele.
Então ela sentiu mãos em seus seios, uma mordiscada em seu pescoço, nas orelhas; os pés dela se encolheram, e as mãos repousaram naqueles ombros largos.
Isso estava mesmo acontecendo? Isso finalmente era real?
Um som baixo escapou de seus lábios quando ela se sentiu deitada com cuidado sobre lençóis macios. O quarto estava escuro, o mundo girava, e seus pensamentos iam e vinham como sombras.
Ela tentou distinguir o rosto dele, tentou enxergá-lo. Mas tudo estava embaçado, e tudo o que ela conseguia sentir era o toque dele.
Então veio uma dor aguda que a fez prender o ar. Os dedos dela se agarraram a ele por instinto. Por um segundo, ela achou que iria se afastar. Mas então os lábios dele encontraram os dela de novo.
A dor amoleceu sob a onda de calor que veio em seguida, e ela se derreteu nela. Os braços dela se envolveram nele como se ela quisesse aquilo havia uma vida inteira.
Como se fosse ali que ela sempre tivesse querido estar. E, em algum lugar na escuridão, ela sussurrou o nome que vivia nos cantos secretos do seu coração.
— Damon...
O corpo sobre o dela ficou imóvel por um breve segundo. Então o momento engoliu tudo outra vez.
Lyra acordou devagar, com a cabeça latejando e o corpo dolorido.
Por um instante, encarou em branco o teto desconhecido acima dela, incapaz de se lembrar de onde estava.
Então flashes da noite voltaram com força — a festa, as bebidas, o calor, mãos — e a respiração dela travou quando se sentou rápido demais. Puxou os lençóis e viu uma mancha carmesim na cama, o pânico inundando-a.
O quarto estava silencioso, o espaço ao lado dela estava vazio; as roupas dela estavam espalhadas, e ela estava sozinha e, ainda assim, havia a marca dela nos lençóis.
E ela estava sozinha, o coração disparado enquanto olhava ao redor. Não havia ninguém, e isso significava nenhuma explicação, nenhum sinal de quem estivera ali, além da lembrança queimando na pele. A cabeça dela era um caos; ela não conseguia pensar em nada.
A mão tremia quando puxou o cobertor ao redor do corpo, apertando os olhos, tentando respirar apesar do choque.
Damon... Tinha que ser o Damon. Não tinha como alguém ter chegado perto dela por causa de quem ela era. Só Damon já esteve tão próximo dela.
Ela se lembrou de como tinha se sentido, da segurança no toque dele, do jeito como tinha dito o nome dele.
Uma mistura estranha de medo e felicidade se retorceu dentro do peito. Medo porque ela tinha se entregado tão de repente.
Felicidade porque, se fosse Damon... então talvez a coisa impossível que ela queria finalmente tivesse acontecido.
Talvez Damon também a quisesse. Mas por que ele iria embora?
Esse pensamento a atingiu como água gelada: por que ele iria embora sem dizer nada?
O peito dela se apertou, pensando em todos os cenários possíveis para ter acordado sozinha naquela cama. Talvez ele tenha entrado em pânico, alguém viu? Talvez ele planejasse procurá-la depois. Ela quis acreditar nisso e, engolindo em seco, Lyra se obrigou a sair da cama.
Ela juntou as roupas depressa e se vestiu com as mãos trêmulas.
Cada movimento a deixava mais consciente do que tinha acontecido. O rosto dela queimava de humilhação e confusão.
Ela olhou ao redor uma última vez, esperando encontrar alguma pista, mas ainda não havia nada. Não havia bilhetes, casacos, nem prova alguma de que alguém tivesse estado no quarto com ela, exceto a mancha nos lençóis.
Ela saiu do quarto e foi para o corredor pouco iluminado, com as pernas fracas sob o corpo. A música lá embaixo ainda pulsava, as pessoas ainda riam, como se o mundo não tivesse mudado.
Mas o dela tinha.
Ela atravessou a multidão como num transe até encontrar Selene perto do bar. Selene se virou, os olhos se arregalando na hora.
— Lyra? Meu Deus, onde você estava?
Lyra agarrou o braço dela.
— A gente pode ir pra casa?
Selene franziu a testa.
— O que aconteceu?
Lyra balançou a cabeça depressa.
— Por favor.
Vendo o pânico no rosto dela, Selene não discutiu. Pegou as coisas e levou Lyra para fora.
O ar frio da noite bateu na pele de Lyra, mas não fez nada para acalmar a tempestade dentro dela.
A volta foi silenciosa. Selene ficou lançando olhares para ela, mas não disse nada até chegarem ao quarto dela.
No instante em que a porta se fechou atrás delas, Selene se virou.
— Me conta o que aconteceu.
Lyra encarou o chão.
— Eu... eu acho que eu dormi com alguém.
