Capítulo 1
Ponto de vista de Lina
Dez anos atrás
A carruagem chacoalhou e parou do lado de fora do nosso apartamento apertado na Rua Ashveil e, por um instante sem fôlego, achei que minhas preces finalmente tinham sido atendidas. Meu pai — lorde Horace Valerian, duque das Marcas Orientais e nobre elfo de sangue puro — estava à nossa porta pela primeira vez em meses, o cabelo dourado-prateado captando a luz moribunda do crepúsculo, e o pânico nos olhos verdes dele já deveria ter me avisado que havia algo terrível, irreversível, muito errado.
— Arrumem as suas coisas — disse ele, a voz tensa, engasgada. — Vocês duas. Agora.
Eu tinha doze anos e acreditava em contos de fadas.
As mãos de mamãe pararam sobre o remendo no colo. — Vossa Graça? — A voz dela tremeu com algo que podia ser esperança ou podia ser medo. — O que aconteceu?
— Não faça perguntas, Marian. — Ele entrou, as botas finas de couro trazendo lama para cima do nosso tapete gasto, e de repente nosso apartamento minúsculo pareceu ainda menor, sufocante sob o peso da presença dele e do desespero dele.
Eu me lembro de pular do banquinho perto da lareira, o coração martelando de uma alegria selvagem, estúpida. “Ele veio buscar a gente”, pensei. “Ele finalmente vai nos levar para casa. Vai me apresentar à família, me deixar dormir num quarto de verdade em vez deste canto cheio de correntes de ar atrás da cozinha. Vai contar para todo mundo que eu sou a filha dele.”
O brasão da família reluzia na lateral da carruagem — uma árvore prateada sob duas luas gêmeas — e eu o tracei com os dedos trêmulos enquanto ele nos apressava para dentro, convencida de que aquele símbolo logo seria meu também, de que eu finalmente pertenceria a algum lugar além dessas ruas cinzentas e estreitas.
A propriedade dos Valerian se ergueu diante de nós como algo saído de um sonho, toda de pedra branca e torres altíssimas, jardins que se estendiam por hectares de perfeição meticulosamente cuidada. Mas a carruagem não parou na entrada principal. Passou pelas grandes escadarias de mármore, passou pelas janelas ardendo de luz quente e risadas, e nos deixou num portão lateral que dava para os alojamentos dos criados.
— Vocês vão ficar aqui esta noite — disse meu pai, apontando para um quartinho pequeno e esparso nos fundos da ala de hóspedes. Ele conduziu mamãe a um aposento separado no fim do corredor, sem explicação. — Amanhã... amanhã tem uma coisa que precisamos fazer.
— Pai? — Segurei a manga dele quando ele se virou para sair, a voz pequena e hesitante. — A gente não vai conhecer… quer dizer, eu vou ver—
— Não hoje à noite, Lina. — Ele se soltou com delicadeza. — Só… descanse. E amanhã, vista o vestido que deixei na cama. O branco.
Eu não entendia, na época, que branco era a cor do sacrifício.
Na manhã seguinte, meu pai me vestiu com aquele vestido branco simples e me colocou de volta na carruagem, sozinha. Viajamos por horas, ao que pareceu, por estradas de montanha sinuosas, o ar ficando mais frio e rarefeito conforme subíamos, até que a paisagem se transformou de colinas verdes ondulantes em penhascos escarpados envoltos numa névoa perpétua.
A Cidadela de Wyrmspire se ergueu dos picos como um monumento ao próprio domínio, toda de pedra negra e ameias elevadas que pareciam arranhar o céu cinzento de tempestade. A fortaleza foi crescendo e crescendo à medida que nos aproximávamos, a sombra engolindo a carruagem inteira, e, quando passamos pelos portões externos — ladeados por guardas com armaduras de escamas de dragão que nos observavam com indiferença reptiliana — minhas mãos já estavam dormentes de frio e pavor.
Meu pai me conduziu por corredores que pareciam feitos para fazer mortais se sentirem insignificantes, até chegarmos a um par de portas maciças de obsidiana que pareciam engolir toda a luz e o calor do ar.
A sala do trono se estendia diante de nós como uma catedral erguida para adorar o próprio poder. O piso de mármore negro refletia o sol frio da manhã que entrava por janelas estreitas, abertas bem no alto do teto abobadado. O trono — entalhado de um único bloco de vidro vulcânico — dominava o extremo oposto do salão, e sentado nele estava o mais jovem Rei Dragão da história asgaliana.
Augustus Ashenwing, que havia massacrado o velho Rei Dragão e trancado o próprio irmão gêmeo no Abismo Glacial apenas uma semana antes. Ele tinha vinte e dois anos, cabelos negros e olhos reptilianos dourados que acompanhavam nossa aproximação com um foco predatório, e uma aura de violência mal contida que fazia o próprio ar parecer difícil de respirar.
A mão do meu pai se fechou no meu ombro, e ele me empurrou de joelhos no mármore congelante.
— Pai? — Tentei me virar, a confusão e as primeiras pontas afiadas do medo cortando meu peito. — O que o senhor está...
— Ajoelhe-se — ele sibilou, pressionando com mais força. — Fique aí e cale a boca.
Fiquei ajoelhada, meu vestido branco se espalhando ao redor de mim como um sudário, e vi meu pai se prostrar diante do Rei Dragão com uma deferência servil.
— Vossa Majestade. — A voz dele falhou ao pronunciar o título, e eu vi as mãos tremendo onde ele as mantinha espalmadas no mármore. — Eu sei que o ofendi. Nós... nós escolhemos mal e, por essa transgressão, eu me lanço à sua misericórdia.
— Eu lhe trouxe minha outra filha. — A voz do meu pai desceu para algo cru, suplicante, e senti os primeiros fios reais de pânico começarem a se enroscar nos meus pulmões. — Ela é... de sangue misto, sim, nascida de uma mãe humana, mas ainda assim carrega o meu sangue. Eu a ofereço a Vossa Majestade, para fazer com ela o que julgar adequado. Como serva, escrava, o que quer que o senhor exija. Peço apenas que tenha misericórdia da minha casa, que permita que minha família continue servindo à coroa.
As palavras me atingiram como golpes físicos. Aquilo não era um retorno para casa. Não era meu pai finalmente me reconhecendo como filha.
Era uma transação. Uma tentativa desesperada de salvar a própria pele oferecendo a filha que ele mantivera escondida nas favelas — o segredinho sujo que podia sacrificar sem consequência.
A sala do trono girou ao meu redor, todo aquele mármore frio e aquela grandiosidade opressiva se borrando numa coisa só. Eu tinha doze anos, ajoelhada sobre pedra que sugava todo o calor do meu corpo, e enfim entendi quanto eu valia para o homem cujo nome eu carregava.
— Deixe-a — disse o Rei Dragão, a voz desprovida de qualquer emoção que eu conseguisse identificar — nem crueldade, nem bondade; apenas autoridade fria, absoluta.
— Obrigado, Vossa Majestade! Obrigado! — Meu pai se atrapalhou para se pôr de pé, curvando-se tão profundamente que a testa quase tocou o chão, e então se virou e foi embora. Não olhou para trás. Não me deu uma palavra de conforto ou explicação. Nem sequer hesitou.
Eu permaneci imóvel no mármore, os joelhos latejando, as mãos cerradas com tanta força que as unhas chegaram a rasgar a pele. Lágrimas escorreram pelas minhas bochechas em trilhas silenciosas, mas eu não fiz som algum. Algum instinto me alertava que demonstrar fraqueza ali, naquele salão de predadores, seria fatal.
Observei as costas do meu pai se afastando até as portas se fecharem.
Não uma filha. Nem sequer uma pessoa. Só uma moeda de troca para quitar uma dívida cuja existência eu nem conhecia.
Sangue misto. Bastarda. Ferramenta.
Essas eram as únicas palavras que me definiam.
Eu não sabia que aquilo era só o começo — que os dez anos à frente seriam uma descida ao inferno além dos meus piores pesadelos, arrancando de mim tudo o que eu era até restar apenas a vontade de suportar.
