Capítulo 1
Da última vez, eu fui a primeira a sair do SAT.
Dei à câmera um sorrisinho entediado e uma frase — a prova estava fácil demais, eu preferia estar surfando em Miami. Eu tinha o tipo de rosto que a câmera gostava, e, até meia-noite, o vídeo já tinha dois milhões de curtidas. A minha vida inteira tinha uma etiqueta de preço.
Uma agência apareceu batendo à porta ainda naquela semana, e meus pais assinaram o contrato antes mesmo de eu entender o que estava entregando. Eles me tiraram da escola para que eu pudesse trabalhar em tempo integral, e cada dólar que eu ganhava ia para a conta deles, não para a minha. Quanto maior eu ficava, mais eles pegavam.
E a Mia — minha melhor amiga, a garota que costumava trançar meu cabelo antes das provas — a Mia copiou meus cadernos, usou isso para entrar em Yale e sorriu para uma câmera enquanto dizia para a internet que eu tinha transado para passar pelo ensino médio.
Quando a agência acabou comigo, eu não tinha mais nada. Sem escola. Sem um nome que valesse a pena defender. Nem uma pessoa que acreditasse em uma palavra que saísse da minha boca.
Na noite em que tudo terminou, Mia subiu ao terraço para “conversar”. Disse que nunca me perdoaria por eu ter sido a sortuda. Então colocou as duas mãos no meu peito e empurrou.
A última coisa que vi foi o rosto dela, me olhando lá de cima, por sobre a borda.
Na manhã seguinte, as manchetes chamaram de um suicídio trágico.
Tic. Tac. Tic.
O relógio na parede da sala de prova.
Voltei com um suspiro ofegante, o peito arfando como se eu tivesse realmente batido no chão. Minha folha de respostas estava aberta à minha frente, preenchida pela metade, o lápis ainda na minha mão.
Eu conhecia esse dia. Foi aqui que tudo começou.
“Dez minutos”, disse o fiscal. “Confiram as respostas.”
Meu aperto se fechou até meus nós dos dedos ficarem brancos. Não desta vez. Desta vez eu ia —
A garota duas cadeiras à minha frente se levantou tão rápido que a cadeira arranhou o chão com um guincho.
“Terminei.” A voz dela saiu aguda e trêmula. “Vou entregar.”
A sala inteira encarou como se ela tivesse enlouquecido. Dez minutos antes. Na única prova que decidia tudo.
O fiscal franziu a testa. “Mia. Tem certeza de que não quer revisar?”
“Tá tudo bem. As questões estavam fáceis demais.” Ela ergueu o queixo. “Sinceramente, eu preferia estar surfando em Miami.”
O lápis quebrou na minha mão.
Aquela era a minha frase. Palavra por palavra — a coisa que eu tinha dito para uma câmera do lado de fora deste prédio, numa vida que ainda não tinha acontecido.
Vi ela pegar a mochila e correr para a porta, bochechas coradas, olhos brilhando.
Ela lembrava. Ela também tinha voltado. E tinha voltado pelo único coisa que achou que tinha me feito: o momento do outro lado daquelas portas. A câmera. Os seguidores. A fama.
Algo frio e muito nítido se assentou dentro de mim.
Da última vez, aquele momento tinha parecido um milagre. Era uma maçã envenenada. Me custou a escola, meu nome, minha vida, e terminou com minhas costas passando por cima da borda de um terraço.
Quer tanto assim? Então pega.
Eu deixei ela ir sem dizer nada.
Eu sabia o que esperava por ela lá fora — um celular, um vídeo, um público pronto para coroá-la até a manhã. Ela entraria nisso de cabeça, com aquele sorriso doce e ensaiado.
Voltei para a minha folha de respostas, puxei o ar devagar e comecei a conferir meu trabalho, uma bolinha de cada vez.
Eu tinha uma Ivy para entrar. Do jeito honesto — o único jeito de sair de uma casa que me venderia em pedaços, o único jeito que um dia tinha sido meu.
Pegue a maçã, Mia. Cada mordida envenenada dela.
