Capítulo 2

Voltei do exame para o pior lote do pior parque de trailers da cidade.

— Onde é que você estava? Entra aqui e faz o jantar.

Meu pai, John, estava afundado no sofá, com uma corrida de cavalos berrando na TV. Ele nem se virou.

Minha mãe, Susan, saiu da cozinha com um prato de frango frito e passou direto por mim, levando para o meu irmão, Ryan, largado no outro sofá com um controle de videogame.

— Come, meu bebê, enquanto tá quentinho. — A voz dela ficou melosa com ele. Aí se virou para mim e ficou seca. — Não fica aí parada. O Ryan vai fazer dezoito anos — ele quer aquele Mustang usado. Cadê todo o dinheiro do restaurante que você anda escondendo? Passa pra cá.

Alguma coisa gelada revirou no meu estômago.

Da última vez, eles fizeram exatamente a mesma coisa. Aluguel, foi como chamaram, enquanto levavam cada centavo que eu tinha juntado para inscrições na faculdade e uma passagem de ônibus para ir embora. Quando eu reagi, John me deixou de cama por duas semanas com o cinto dele.

Dessa vez, eu sabia melhor do que esperar qualquer coisa deles.

Então baixei a cabeça e me fiz de pequena. Antes mesmo de eu decidir, meu polegar achou o celular no bolso e tocou em gravar.

— Mãe, esse dinheiro é pras minhas inscrições — eu disse, deixando a minha voz tremer. — Sem ele eu nem consigo pagar as taxas.

— Faculdade? — John se empurrou para fora do sofá e pegou o cinto no encosto de uma cadeira. — Uma menina como você é dinheiro jogado fora. Seu irmão quer um carro, você paga. O que é que toda essa leitura vai te dar? Você vai acabar casada ou grávida por acidente que nem toda garota daqui.

— Pai, eu lavei prato por isso, toda noite...

O cinto desceu no meu ombro.

A ardência rasgou por dentro. Deixei as pernas cederem e caí com um grito.

— Vou arrancar isso de você na porrada! Cadê? — O rosto dele estava vermelho, e o cinto descia de novo e de novo, nas minhas costas, nos meus braços.

Susan assistia da porta. — Não no rosto — ela disse. — Ela tem turno amanhã.

Ryan riu com a boca cheia de frango. — Só dá o dinheiro pra eles, mana. Você é burra demais pra passar em algum lugar que preste mesmo.

Eu mordi com força até sentir gosto de sangue. Doía. Claro que doía. Mas eu já tinha morrido uma vez. Um cinto não me assustava mais.

No fim, eu “cedi” e entreguei os cinquenta dólares no meu bolso — tudo o que eles iam encontrar. O resto, tudo o que eu tinha realmente economizado, estava enrolado no forro de uma jaqueta velha no meu quarto.

John cuspiu no chão e enfiou os cinquenta no bolso. — Coisinha mesquinha. Vai pegar mais emprestado amanhã.

Eu me levantei e manquei de volta para o depósito sem janela que eles chamavam de meu quarto. Fechei a porta, limpei o sangue do meu lábio e puxei o celular. Ainda gravando.


Na segunda-feira, a Mia estava em todo lugar.

Eu mal tinha atravessado as portas quando ouvi o nome dela em todas as rodinhas pelo corredor.

— Você viu o vídeo da Mia? Três milhões de curtidas.

— “Moleza demais, prefiro estar surfando” — já virou meme.

Pelo visto, a mesma coisa que tinha me deixado famosa da última vez funcionava tão bem para ela.

Atravessei o corredor com meu livro de História dos EUA AP apertado contra o peito e mantive o rosto impassível.

Então a Mia veio na minha direção, com um bando de garotas grudado atrás. Maquiagem completa, um casaco Chanel novinho, queixo erguido como se o chão fosse dela.

Ela parou quando me viu. Algo satisfeito e cruel tremeluzou no rosto dela.

— Ora, ora, se não é a nossa aluninha exemplar. — Ela falou alto o bastante para o corredor inteiro ouvir. — Ainda tá com o nariz enfiado num livro? O SAT já acabou, Chloe. Você não acha mesmo que vai entrar em algum lugar decente, acha?

— Eu não te devo nada — eu disse.

Isso a pegou por meio segundo. Aí o sorriso doce e falso voltou ao lugar. Ela puxou da bolsa um frasco de perfume barato e estendeu para mim como se fosse caridade.

— Eu sei que sua família é quebrada, então toma. — Ela deixou a frase ecoar. — Acabei de assinar com a maior agência do país… dá pra eu “sobrar” com isso. Borrifa um pouco pra parar de feder a parque de trailers.

As meninas atrás dela caíram na gargalhada.

— Meu Deus, que cara de pau. Achando que tá no nível da Mia.

— Eu ouvi que ela deu pra um professor pra ganhar nota. Que nojo.

A risada continuou, e eu senti o impacto.

Da última vez, foi exatamente esse boato que me pregou na parede. Sem prova, sem fonte — só uma frase que me seguia por todos os corredores até a escola inteira olhar pra mim como se eu fosse alguma coisa grudada no sapato. E a garota que tinha começado aquilo estava bem na minha frente, sorrindo como se nunca tivesse tido um pensamento maldoso na vida.

Eu não tinha uma resposta limpa. Não existia. Um professor diminuiu o passo ao passar, o olhar dele demorando em mim um tempo longo demais, e eu soube que aquilo já estava se espalhando.

Então eu deixei o perfume cair. Ele se espatifou no chão, e a doçura química e barata inundou o corredor.

— Você acha que é melhor do que eu? — a voz da Mia subiu, agora estridente. — Você vai apodrecer naquele parque de trailers, Chloe. Eu vou ter dez milhões de seguidores e uma aprovação numa Ivy League, e você ainda vai estar exatamente onde começou.

Eu me afastei com a risada nas minhas costas. Eu não confiava no meu rosto pra aguentar se eu ficasse.

Mas, quando cheguei às escadas, o calor no meu peito já tinha arrefecido.

Eu conhecia aquela agência. A Mia chamou de a maior do país, e ela estava certa — era a mesma que tinha me contratado da última vez. Todo mundo no meio sabia o que ela realmente era: um sugador de sangue que laçava gente nova com promessas enormes e depois prendia em contratos e multas que nunca dariam conta de pagar.

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