Capítulo 3

Deixei Mia no corredor e fui para a biblioteca.

O barulho lá fora não tinha nada a ver comigo. Abri meu notebook e puxei minha inscrição para Harvard — Restrictive Early Action, quase pronta, a entrevista com um ex-aluno marcada para a semana seguinte. Uma aprovação de verdade, uma bolsa integral, e um país inteiro entre mim e aquele parque de trailers.

Naquela noite, trabalhei na escrivaninha bamba do meu depósito até o trailer ficar em silêncio.

Eu conhecia a Mia. O boato no corredor tinha sido só um aquecimento. Da última vez, quando os sussurros deixaram de ser suficientes, ela passou a forjar provas — e nada mata uma aprovação numa faculdade mais rápido do que a escola acreditar que você colou. Mais cedo ou mais tarde ela viria atrás de alguma coisa que pudesse mandar para Harvard.

Então eu dei a ela alguma coisa para encontrar.

Por dois dias eu deixei “escapar” pela casa, alto o bastante para o Ryan ouvir, que existia uma pasta que eu não podia me dar ao luxo de perder — que aquilo acabaria comigo se algum dia viesse à tona. Aí eu fiz a pasta: um gabarito falso, um monte de “colas” rabiscadas, tudo montado para parecer o segredo sujo de uma garota que tinha fingido até chegar ao topo.

Deixei em cima da mesa, apaguei o abajur e deitei a cabeça como se tivesse adormecido sobre os livros.

Um tempo depois, a porta se abriu devagar. À luz do corredor, vi meu próprio irmão entrar na ponta dos pés, pegar a pasta da mesa e escapar de volta para fora.

Quase sorri.

Na manhã seguinte, eu estava numa cabine do banheiro quando a Mia entrou com duas das suas seguidoras.

“É verdade que você vai fazer uma transmissão ao vivo quando saírem as notas do SAT? Você já tem patrocinadores?”

“Óbvio.” A Mia parecia encantada consigo mesma. “Eu sou um gênio e sou linda. Não que nem a Chloe — ela se ferrou dessa vez.”

“Por que ela se ferrou?”

“O irmão idiota dela me vendeu o segredinho dela por umas centenas de dólares.” Ela riu. “Colas. Anos delas. No dia em que ela receber aquela carta de Harvard, eu mando tudo para a admissão e eles tiram de volta na hora.”

Deslizei o celular para fora e apertei para gravar.

Aí estava, na voz dela. A Mia achava que me tinha pela garganta. Não sabia que a pasta estava cheia de papel que eu tinha feito para ela, nem que, enquanto se gabava, ela estava me entregando cada palavra.

E ela não abria um livro havia semanas. Estava ocupada demais filmando, postando, respondendo patrocinador — só presumiu que as notas cairiam no colo dela, do jeito que sempre tinham caído no meu.

Não cairiam. Não dessa vez.

Esperei até elas terminarem, então dei descarga e saí para a pia.

A Mia se virou, pega por meio segundo. Depois, o deboche voltou ao rosto. “Então você ouviu. E daí?” Ela cruzou os braços. “Você não tem nada, Chloe.”

“Tenho uma entrevista na sexta.” Sequei as mãos devagar, observando-a pelo espelho. “Harvard. Assim que eu fizer isso, nada disso me alcança.”

Alguma coisa se moveu por trás dos olhos dela. Não pânico — algo mais frio, como uma peça se encaixando no lugar.

Ela sorriu.

“Sexta”, ela disse, baixa, quase doce. Ela chegou ao meu lado na pia, perto, onde as outras não podiam ouvir. “Você realmente acha que vai conseguir chegar lá?”

“Por que eu não conseguiria?”

Ela não respondeu. Pegou a bolsa, reuniu o grupinho e foi em direção à porta; e, no último segundo, olhou de volta para mim.

“Vista alguma coisa que você não se importe de sujar.”

E então ela se foi, os saltos estalando pelo corredor.

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