Capítulo 2
Elora
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, afiadas o bastante para cortar o monólogo do meu pai. Ele e Victoria congelaram, a surpresa cintilando no rosto dos dois. Eu raramente contrariava meu pai diretamente — aprendera anos atrás que a desafiação aberta só piorava as coisas —, mas havia algo na música ainda ecoando nos meus ossos, na adrenalina ainda cantando nas minhas veias, que tornava o silêncio impossível.
— Eu não treino seis dias por semana para virar esposa de alguém — continuei, a voz firme mesmo com o pulso acelerando. — Eu não faço isso para você me exibir em leilões beneficentes nem para usar meus rankings como assunto com seus investidores. Não é sobre—
— Elora. — O tom do meu pai desceu para aquele registro que significava que eu estava testando a paciência dele. — Podemos conversar sobre seus sentimentos em relação a isso depois, em particular. Agora—
— Está tudo bem?
Sienna surgiu das sombras perto dos vestiários, porque, claro, ela estava à espreita ali, esperando o momento perfeito para se enfiar na cena. Minha meia-irmã usava o próprio vestido de treino — rosa-claro, porque nunca encontrou um estereótipo que não abraçasse — e carregava uma bandeja de bebidas fumegantes do café do clube. O sorriso dela era açucarado enquanto distribuía as xícaras aos nossos pais, a imagem perfeita de consideração atenciosa.
— Pai, você parece estressado — disse ela, enlaçando o braço livre no do meu pai com a intimidade casual de quem nunca aprendeu que afeto precisa ser merecido. — Mas eu achei a apresentação da Elora maravilhosa! Eu queria ter podido me juntar a ela no gelo, mas meu joelho voltou a incomodar. — Ela se apertou mais contra ele, baixando a voz num sussurro teatral que todo mundo ainda conseguia ouvir. — O médico diz que eu devo descansar por mais uma semana, mas eu odeio decepcionar você.
A expressão do meu pai amoleceu na hora, a irritação se derretendo em algo que se aproximava de um carinho genuíno.
— Sienna, você é exigente demais consigo mesma. Você sempre foi uma garota tão atenciosa. — Ele fez uma pausa, lançando-me um olhar que fez meu estômago se contrair. — Eu só queria que você tivesse a habilidade técnica da Elora — embora, é claro, neste esporte, a apresentação importe quase tanto quanto a técnica. E certas... considerações físicas...
Ele deixou a frase morrer, mas eu sabia exatamente para onde aquela sentença estava indo. Minhas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo, as unhas cravando nas palmas com força suficiente para marcar meias-luas. Essa era a linha que a gente nunca atravessava, o assunto que transformava toda interação num campo minado.
Meu pai deve ter visto algo perigoso na minha expressão, porque parou no meio do pensamento, mas Victoria — ou alheia, ou deliberadamente cruel — continuou de onde ele tinha parado.
— Ah, não se preocupe, tenho certeza de que a psoríase da Elora não vai ser um problema — ela disse, a voz escorrendo de falsa tranquilidade enquanto os dedos deslizavam em direção às minhas costas, para os lugares que eu tinha passado quarenta minutos cobrindo com maquiagem de palco antes do treino. — Cosméticos modernos são milagrosos hoje em dia. E com esta iluminação, se você não olhar de perto, mal dá para ver as manchas. O prateado e o vermelho são quase... artísticos, à sua maneira.
A unha dela arranhou minha omoplata, bem em cima do maior aglomerado de lesões, e alguma coisa em mim estalou.
O tapa ecoou pelo clube vazio como um tiro.
Victoria cambaleou para trás, a mão voando até a bochecha, os olhos arregalados de choque. Sienna soltou um suspiro ofegante, a máscara cuidadosamente construída de preocupação fraterna rachando para revelar algo mais feio por baixo. O rosto do meu pai passou por várias expressões em rápida sucessão — surpresa, constrangimento, raiva — antes de se fixar numa fúria fria.
— Elora...
— Tem algum problema aqui?
A voz de Marina cortou a tensão como uma lâmina atravessando gelo. Ela estava na borda do nosso pequeno tableau, braços cruzados, expressão neutra, mas olhos afiados. — Porque a Elora tem bastante trabalho técnico para revisar, e eu odiaria impedi-la de melhorar. A menos que vocês tenham algo urgente para discutir?
Meu pai me encarou por um longo momento, e eu o vi fazer o cálculo que eu tinha visto mil vezes — ponderando a satisfação de me repreender em público contra o custo social de armar um escândalo diante de uma testemunha. Análise de investimento, até agora.
— Vamos continuar esta conversa em casa — disse ele, por fim, cada palavra pronunciada com precisão. — Mas quero deixar uma coisa bem clara, Elora: você vai se apresentar impecavelmente em todas as próximas competições. Eu não invisto em ativos que se desvalorizam e certamente não tolero recursos desperdiçados. Entendeu?
Eu não disse nada, e ele tomou aquilo como concordância.
Ele girou sobre o calcanhar, com Victoria indo atrás dele como uma sombra cara, ainda segurando a bochecha avermelhada. Mas Sienna ficou, se aproximando o bastante para que só eu pudesse ouvir quando ela se inclinou, o hálito quente contra a minha orelha.
— Você acha que o gelo é o seu santuário? — A voz dela era veneno embrulhado em seda. — Amanhã, quando você voltar a pisar em Winterbourne Heights, vai lembrar como o inferno realmente é. Isso — ela gesticulou para a pista, para os meus patins, para o espaço que eu tinha aberto para mim mesma com sangue e repetição — isso é só uma fuga temporária. E eu vou garantir que você nunca esqueça.
Ela se afastou com um sorriso afiado o bastante para tirar sangue e então se virou e seguiu nossos pais até a saída, os patins cor-de-rosa pendendo de uma mão como uma ameaça.
Fiquei ali, no silêncio repentino, com a palma ainda ardendo do impacto, o coração martelando contra as costelas como se tentasse se libertar. Marina surgiu ao meu lado, a mão suave no meu ombro.
— Vem — disse ela, em voz baixa. — Vamos rever aquela gravação. E, Elora? — Ela esperou até eu encará-la. — Eles veem uma garota com um problema de pele. Eu vejo uma campeã. E logo o mundo inteiro também vai ver — enquanto eles continuam presos às vidas pequenas e feias deles.
