Capítulo 3

Elora

O alarme estilhaçou o silêncio das cinco da manhã, arrancando-me de sonhos de gelo e queda. Fiquei ali por exatos trinta segundos — minha cota diária de fraqueza — antes de me obrigar a sentar. O ritual matinal me aguardava, tão implacável quanto as expectativas do meu pai.

O espelho do banheiro refletia uma estranha, o rosto ainda macio de sono, o cabelo emaranhado. Essa era a única versão de Elora Frost que existia sem armadura. Permiti a mim mesma um único fôlego de autenticidade antes de estender a mão para o creme receitado, que já tinha se tornado tão necessário quanto oxigênio.

A psoríase tinha piorado durante a noite. Claro que tinha. O estresse sempre se manifestava na minha pele como algum barômetro emocional cruel, e o confronto de ontem com Victoria tinha desencadeado uma rebelião completa. O maior foco se espalhava pelas minhas escápulas — lesões vermelhas e irritadas, contornadas por aquela descamação prateada tão característica. Bonito, Victoria tinha dito uma vez, naquele tom que fazia bonito soar como doente.

Espremei o creme na palma da mão; a consistência espessa capturou a luz fluorescente. Aplicar tinha virado uma meditação pela repetição — alisar sobre cada mancha com precisão metódica, esfregando no tecido inflamado até o vermelho raivoso se apagar para algo administrável. O medicamento ardia, uma mordida aguda que me fez sibilar entre os dentes, mas dor era só informação. Você reconhecia e continuava.

Vinte minutos depois, minhas costas eram uma tela de creme branco, absorvendo devagar na pele danificada. Vesti a camiseta de algodão pesado — grossa o bastante para absorver o suor, macia o bastante para não irritar as lesões, cara o bastante para eu ter gastado três meses de mesada numa semana de estoque. Por cima, veio o suéter de cashmere regulamentar de Winterbourne Heights, cinza-chumbo e sufocante, feito para esconder qualquer curva que pudesse sugerir que eu tinha um corpo ali embaixo.

Então veio o armário.

Fiquei diante dele como uma soldado encarando território inimigo, olhando a coleção de roupas ultrapassadas e mal ajustadas que Victoria considerava “apropriadas para uma jovem da sua posição”. Tradução: sobras da Sienna, coisas que minha meia-irmã tinha usado uma vez antes de decidir que não eram tão fashion quanto deveriam. As saias pendiam como acusações, suas bainhas comportadas e cortes datados a um universo de distância das roupas esportivas enxutas que me faziam sentir que eu podia voar.

Meus dedos encontraram a saia preta — até o joelho, evasê, segura — e eu a vesti com o entusiasmo de alguém se arrumando para um funeral.

O que, de certa forma, era. Todas as manhãs, eu matava a versão de mim que existia no gelo e ressuscitava essa casca oca que conseguia sobreviver a Winterbourne Heights.

Prendi o cabelo num coque severo na nuca, puxando com força suficiente para me dar dor de cabeça, garantindo que cada fio estivesse contido e controlado. A garota que me encarava no espelho não parecia em nada com a atleta que tinha acertado um triple Lutz ontem. Essa garota era esquecível, deliberadamente sem graça, feita para se misturar aos cenários e atrair o mínimo de atenção possível.

Forcei os lábios num esboço de sorriso. A expressão parecia estrangeira, os músculos reclamando.

— Mais um ano — sussurrei para o meu reflexo. — Delaware. Liberdade. Aí você nunca mais vê essa gente.

A garota no espelho não pareceu convencida.


O ônibus escolar deu um tranco e parou em frente à Winterbourne Heights Academy, a hidráulica sibilando quando as portas rangeram ao se abrir. Desci para a manhã fria de novembro, minha mochila barata — mantida inteira mais por teimosia do que por qualquer outra coisa — pesando nos ombros.

Foi quando eu vi.

O Mercedes-Maybach Classe S encostou na entrada principal como se fosse dono da rotatória. Preto obsidiana, cromados reluzentes, o tipo de carro que custava mais do que a maioria das casas. O motorista deu a volta para abrir a porta de trás com uma eficiência treinada.

Sienna surgiu como se estivesse pisando num tapete vermelho, um pé de salto de grife de cada vez. O look dela provavelmente custava mais do que o meu guarda-roupa inteiro — saia de lã sob medida de alguma boutique do SoHo, suéter de cashmere em rosa-claro (porque, claro), e aquelas botinhas de cano curto da Louboutin ridículas sobre as quais ela vinha postando no Instagram a semana toda. O cabelo caía em ondas perfeitas que, muito provavelmente, tinham exigido uma hora com um cabeleireiro profissional.

O contraste entre nós duas não poderia ter sido mais deliberado, nem se a gente tivesse planejado.

Eu estava na calçada, com a minha mochila barata e a saia fora de moda me marcando com a clareza de uma letra escarlate, vendo minha meia-irmã receber o serviço de entrega diário com uma naturalidade cheia de direito. O pensamento surgiu, indesejado: qualquer um que estivesse olhando presumiria que Sienna era a filha preciosa do papai, e eu era o caso de caridade que ele acolhera por obrigação.

O que não estava muito longe da verdade.

Sienna me viu do outro lado do pátio, o rosto se transformando naquele sorriso melado que ela tinha aperfeiçoado — o que parecia verdadeiro em fotos, mas nunca chegava de fato aos olhos. Ela acenou, os dedos tremelicando num gesto que poderia parecer amigável para observadores casuais.

Então, quando passou perto o bastante para que só eu percebesse, a expressão mudou. O sorriso continuou, mas algo cruel cintilou por trás dele. Ela fez um gesto sutil — os dedos roçando a própria pele impecável e, depois, apontando discretamente para as minhas costas bem cobertas — e articulou duas palavras: “Ainda coça?”

Minhas mãos se fecharam em punhos, as unhas cravando nas palmas. As manchas cobertas de pomada de repente pareceram estar queimando, uma sensação fantasma que não tinha nada a ver com dor de verdade e tudo a ver com humilhação.

Virei o rosto sem responder, seguindo em direção à entrada principal com passos medidos que não denunciavam a fúria crescendo no meu peito. Entrar no jogo das provocações da Sienna só dava munição a ela. Eu tinha aprendido essa lição da pior maneira, repetidas vezes, ao longo de três anos.

O corredor já estava lotado, alunos aglomerados em torno dos armários em grupinhos sociais cuidadosamente montados. Mantive a cabeça baixa, indo até o meu armário no automático. O cadeado de combinação abriu na primeira tentativa — pequenas misericórdias — e comecei o processo mecânico de trocar os livros.

Foi aí que eu senti.

A mudança na pressão do ar quando a multidão se abre, o silêncio repentino que significava que alguma coisa interessante estava prestes a acontecer. Eu nem precisava me virar para saber quem estava se aproximando. O perfume caro me alcançou primeiro — Tom Ford Noir, marcante e sufocante — seguido pelo clique de saltos de grife no linóleo.

Fechei o armário com cuidado deliberado, me preparando para ir embora, quando uma mão se esticou e agarrou a alça da minha mochila. A resistência súbita me puxou para trás, e eu me virei, a irritação explodindo quente e imediata.

Sloane Harrington estava ali, ladeada pelo séquito de sempre de líderes de torcida e bajuladores. Quase um metro e oitenta com as botas de salto, com traços convencionalmente bonitos que vinham de bons genes e de cirurgias plásticas ainda melhores. A posição de capitã das líderes de torcida lhe dava capital social em Winterbourne Heights, embora eu nunca tivesse entendido por que alguém aceitaria ser governado por alguém cujo talento principal era gritar e dar mortais.

— Ora, ora. — A voz de Sloane tinha aquele tom específico de quem sabe que tem plateia. — Olha só quem resolveu nos agraciar com a sua presença. Elora Frost, em carne e osso. — Ela fez uma pausa, os olhos me varrendo da cabeça aos pés com desdém evidente. — Se é que dá pra chamar assim.

As seguidoras dela deram risadinhas obedientes, um som de vidro quebrando.

Eu não disse nada; apenas encarei com a expressão vazia que eu tinha aperfeiçoado ao longo dos anos. Era exatamente isso que ela queria, e eu que não ia dar esse prazer.

Mas Sloane não se deixou desanimar.

— Sabe o que eu acho interessante? Eu dei uma festa ontem. A minha festa de aniversário. Mandei convites pra todo mundo que importa nessa escola. — Os dedos dela tamborilaram no braço cruzado. — Todo mundo recebeu uma mensagem. Todo mundo. E sabe qual é a parte realmente fascinante? —

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