Capítulo 4
Elora
Permaneci em silêncio, mas meu maxilar se contraiu.
— Não bastou você não aparecer — continuou Sloane, erguendo um pouco a voz para o benefício da multidão que crescia —, você nem teve a cortesia básica de responder à minha mensagem. Nem um “foi mal, não vou conseguir”. Nem um “feliz aniversário”. Nada. Silêncio total. Como se eu nem valesse trinta segundos do seu tempo.
A plateia estava completamente envolvida agora; provavelmente já estavam gravando com os celulares, prontos para registrar o que quer que acontecesse em seguida para a posteridade das redes sociais. Eu sentia os olhos deles em mim, famintos por drama, torcendo por humilhação.
— Eu tinha outra coisa para fazer — falei, seca, mantendo a voz neutra. — Desculpa.
A palavra “desculpa” caiu com toda a sinceridade de um telemarketing lendo script.
As sobrancelhas perfeitamente micropigmentadas de Sloane se ergueram.
— Outra coisa para fazer? Sério? E o que poderia ser mais importante do que—
— Isso importa? — As palavras saíram mais cortantes do que eu pretendia, a frustração vazando pela compostura que eu vinha mantendo a duras penas. — Eu tinha outra coisa para fazer. É só isso que você precisa saber.
Um suspiro coletivo percorreu a multidão. Ao que parecia, responder à altura para Sloane Harrington não fazia parte do roteiro aprovado.
A expressão de Sloane mudou, o sorriso ganhando uma ponta perigosa.
— Ah, importa sim. Olha só, Elora… — Ela se inclinou, perto o bastante para eu sentir o hálito de menta. — Gente como você? Quase ninguém, na beirinha do aceitável socialmente, vivendo à margem? Você devia ser grata por alguém como eu sequer reconhecer que você existe. A gente não transformou sua vida num inferno por meses. Meses. E é assim que você retribui a nossa generosidade? Me dando um bolo sem explicação?
A sensação de queimação nas minhas costas se intensificou; o estresse disparava a resposta inflamatória que eu tentava controlar desde cedo. Eu sentia o suor começando a se formar sob as camadas pesadas, e a ideia daquelas manchas ficarem mais irritadas, mais visíveis, fez um pico de pânico atravessar meu peito.
— Olha, eu não quero confusão com vocês. — Forcei a voz a permanecer estável, recuando um passo pequeno. — Eu tinha uma coisa que eu precisava fazer ontem. Só isso. Agora, se me dá licença, eu tenho aula—
— Que se foda. — A mão de Sloane disparou e bateu com força no armário ao lado da minha cabeça, bloqueando meu caminho. — Você não vai simplesmente ir embora. Não até se explicar direito. Você acha que agora é boa demais pra gente? É isso?
A multidão se apertou mais, celulares erguidos, famintos por confronto.
Senti meu maxilar endurecer, a dor familiar de tentar engolir palavras que queriam arranhar para sair. As manchas nas minhas costas gritavam agora, cada uma um ponto quente de agonia, e a cada segundo que passava ficava mais difícil pensar com racionalidade.
Eu tinha passado três anos aperfeiçoando a arte da invisibilidade, de ceder só o suficiente para não quebrar, mas havia algo no jeito como Sloane me olhava — como se eu fosse sujeira raspada das botas de grife dela — que fez aquele instinto velho de sobrevivência rachar.
—Eu não sou boa demais pra ninguém —eu disse, e minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, afiada o suficiente para fazer várias pessoas no fundo da multidão realmente se encolherem. —Eu só não entendo por que eu tenho que explicar a porra da minha agenda inteira pra você como se você fosse meu agente de condicional. Eu disse que tinha uma coisa pra resolver. Eu não fui nada além de civilizada com vocês há meses. Então que tal você tirar a mão e me deixar ir pra aula antes que a gente diga alguma coisa de que vai se arrepender?
O corredor ficou em silêncio absoluto.
O rosto de Sloane ficou vermelho, a maquiagem perfeitamente aplicada incapaz de esconder a fúria crescendo por baixo. —O que foi que você acabou de…
—Ai, meu Deus, o que está acontecendo aqui?
A voz de Sienna cortou a tensão como se ela estivesse esperando nos bastidores pela deixa, a expressão montada em perfeita preocupação ao se materializar no meio da multidão.
Sienna surgiu da multidão como se estivesse esperando a sua deixa, com a expressão montada em perfeita preocupação. —Ai, meu Deus, o que está acontecendo aqui? —Ela olhou de Sloane para mim, bancando a mediadora confusa. —Sloane, oi! Está tudo bem? Por que você está pegando tão pesado com a minha irmã?
“Irmã” era tecnicamente correto, mas soava como mentira toda vez que ela dizia.
A expressão de Sloane suavizou um pouco com a aparição de Sienna. —Ah, oi, Sienna. Desculpa, eu não queria fazer cena. Eu só estava tentando conseguir uma explicação da sua… irmã… sobre umas coisas. Nada demais.
—Nada demais? —a voz de Sienna era só doçura e luz, mas eu via o cálculo por trás dos olhos dela. —Sloane, você é tão compreensiva. Sério. Mas, olha, eu provavelmente devia explicar—
—Não. —A palavra saiu mais cortante do que eu pretendia, o pânico espetando meu peito como água gelada.
Atrás de Sloane, uma das capangas dela da torcida —uma loira cujo nome eu nunca me dei ao trabalho de aprender— se inclinou na direção de uma amiga, com a voz alta o bastante para carregar. —Ué, elas não deviam ter o mesmo pai? Por que a Sloane trata as duas tão diferente?
—Você é nova aqui ou só burra? —outra garota sussurrou de volta, sem nem se dar ao trabalho de baixar a voz. —Mesmo pai, tratamento completamente diferente. Olha o que elas estão vestindo, pelo amor de Deus. A Sienna tá de Louboutin e a Elora tá usando… o quê é isso, liquidação do Target?
Uma terceira voz entrou, com um prazer mal disfarçado. —Ouvi dizer que o Sr. Frost acabou de comprar outro carro pra Sienna de aniversário. Enquanto isso, a Elora ainda pega a porra do ônibus toda manhã.
—Jesus, você acha que ela é tipo… a ilegítima? A vergonha da família que eles têm que manter por perto?
As palavras bateram como golpes físicos, mas eu mantive o rosto impassível, me recusando a dar a elas a satisfação de uma reação.
Sienna se virou para mim com a mesma expressão preocupada, e eu quis arrancá-la da cara dela com as unhas. —Elora, qual é. Deixa eu ajudar. Você claramente está estressada e—
—Eu não quero a sua ajuda. —As palavras saíram por entre os dentes cerrados.
