Capítulo 5

Elora

Porque eu sabia exatamente o que a “ajuda” da Sienna implicaria. Ela começaria com preocupação, iria passando para explicações e, antes que eu conseguisse impedi-la, mencionaria casualmente onde eu estive ontem. A pista de patinação. As sessões particulares de treino que eu lutara tanto para manter em segredo.

E então tudo desmoronaria — as perguntas sobre por que eu estava escondendo aquilo, a curiosidade invasiva, alguém inevitavelmente descobrindo o verdadeiro motivo de eu usar mangas compridas e golas altas até no verão. A psoríase viraria conhecimento público, esmiuçada e ridicularizada, e qualquer chance que eu tivesse de treinar em paz evaporaria.

Eu preferia encarar os punhos da Sloane a aguentar a assistência venenosa da Sienna.

“Eu prefiro me trancar numa jaula com lobos famintos do que ficar aqui e ouvir mais um segundo da sua preocupação de merda”, eu disse, cada palavra caindo como uma pedra em água parada.

Várias pessoas na plateia sussurraram variações de “puta merda”, pressentindo o drama de família prestes a se desenrolar.

A máscara da Sienna escorregou, só por um segundo, e eu vi a verdadeira ela por baixo — fria, calculista, cruel. Então a expressão preocupada voltou ao lugar num estalo, e ela se virou para a Sloane com um suspiro teatral.

“Sinto muito que você tenha que ver isso”, ela disse, a voz pingando falsa simpatia. “Eu sei que a Elora pode ser… difícil quando está encurralada.” Ela suspirou, a imagem perfeita de uma irmã que sofre há tempos. “Mas tudo bem. Se ela não quer se explicar sobre ontem, é escolha dela.”

Um instante de silêncio, perfeitamente calculado.

“Acho que vou falar de outra coisa, então.” Sienna se virou para a Sloane com um sorriso solidário, o tom leve e casual. “Sabe, em casa, a Elora comenta bastante sobre você. E, Sloane… eu queria muito poder dizer que é tudo positivo.”

Meu sangue gelou.

“Mas a verdade é que—” A voz da Sienna assumiu aquele tom arrependido que ela tinha aperfeiçoado, como se fosse uma terapeuta dando uma notícia ruim. “—ela tem umas opiniões bem duras. Sobre como você comanda as coisas por aqui, sobre as suas… vamos chamar de ‘estratégias sociais’.” Ela fez uma pausa, lançando um olhar de preocupação fabricada na minha direção antes de voltar para a Sloane. “Estou parafraseando, claro, mas o sentido geral era algo mais ou menos assim: ‘uma fracassada decadente que só continua relevante porque transa com o time de futebol inteiro’.”

A reação da plateia foi imediata — suspiros chocados, cochichos animados, celulares definitivamente gravando agora.

Eu fiquei paralisada, a mente disparada. Eu nunca tinha dito aquelas palavras — disso eu tinha certeza. Mais importante: eu mal falava com a Sienna. Toda conversa com ela era exaustiva — cutucadas constantes embrulhadas em falsa preocupação, ostentação sem fim disfarçada de papo casual. Por que eu confiaria a ela qualquer coisa de verdade?

Mas nada disso importava agora. A mentira era perfeita, verossímil o bastante para se espalhar pela escola como fogo em palha seca.

— Eu… — comecei, mas Sienna já recuava, trabalho feito.

— Boa sorte, irmã — disse ela, com doçura, desaparecendo no meio da multidão. — Te vejo depois da aula.

O círculo de alunos ao nosso redor de repente pareceu menor, mais apertado. Eu via alguns se afastando aos poucos, criando distância entre eles e o desastre iminente. Os que estavam com o celular ergueram mais alto, garantindo bons ângulos.

Sloane ficou completamente imóvel, e foi aí que eu soube que eu estava realmente fodida. Ela não estava gritando, não estava fazendo escândalo. Ela só… estava parada. Aquele tipo de imobilidade que vem antes de uma explosão.

— Olha pra mim. — A voz dela não era alta, mas carregava uma autoridade absoluta, do tipo que fazia o corredor inteiro prender a respiração. — Olha no meu olho, porra, e me diz: você falou isso de mim?

Eu devia ter negado. Devia ter feito o papel de vítima, dito que a Sienna estava mentindo, me jogado na misericórdia da Sloane. Essa era a jogada inteligente, a jogada segura, a jogada que talvez me tirasse dessa com o mínimo de estrago.

Mas eu estava tão cansada.

Cansada das mentiras, cansada dos joguinhos, cansada de me encolher e me tornar pequena e invisível pra sobreviver.

E, vamos ser sinceras — a Sloane não era o tipo que deixaria isso pra lá, não importava o que eu dissesse. Ela ia salvar as aparências fazendo de mim um exemplo de qualquer jeito. Negar, pedir desculpa, implorar — o resultado seria o mesmo. Eu ainda acabaria humilhada, provavelmente roxa, com certeza atrasada pra aula.

Então foda-se. Se eu ia cair de qualquer forma, que pelo menos valesse a pena.

— Eu nunca disse essas palavras exatas — eu me ouvi dizer, a voz firme apesar do coração martelando. — Mas sabe de uma coisa, Sloane? A gente tá jogando esse joguinho patético há três anos. Acho que eu já passei faz tempo da fase de implorar por crimes que eu não cometi só pra poupar o seu ego frágil.

Dei um passo à frente, e ela realmente deu um passo pra trás, uma surpresa genuína rachando a máscara habitual de superioridade.

— E você… Cristo, você já devia ter passado do ponto de precisar aterrorizar gente como eu só pra se sentir relevante. O seu valor como ser humano não é definido por quantas vítimas você consegue juntar, quantas pessoas você faz se encolher quando você passa. — Parei, observando o rosto dela ficar vermelho de raiva. — Isso não é poder, Sloane. Isso é só triste. Então, sim, respondendo à sua pergunta: eu disse exatamente o que a Sienna afirmou?

Senti meus lábios se curvarem num sorriso duro, sem humor.

— Não. Mas eu acho que você é uma valentona decadente, vivendo de uma reputação construída em cima de transformar a vida dos outros num inferno? Eu acho que a única razão de alguém fingir te adorar é porque morre de medo de virar o seu próximo alvo? Eu acho que, por baixo de toda essa roupa de grife e dessa autoconfiança fabricada, você só está desesperadamente apavorada de que, sem medo, você não é nada?

Sustentei o olhar dela, sem vacilar.

— Com toda certeza. Cada palavra. E, sinceramente? Essa provavelmente foi a versão gentil.

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