Capítulo 1 A feminista condicional

Capítulo 1: A Feminista Condicional

Lizzie

Meu nome é Lizzie e, se eu fiz alguma coisa errada, eu preferia prisão. Não isso.

Dez encontros às cegas em um mês. Dez homens diferentes escolhidos a dedo pela minha mãe, como se eu fosse uma fruta passada que ela está desesperada para vender antes que eu apodreça.

Meu único crime?

Eu fiz vinte e três anos e não vinha com um marido de brinde.

~~~

— Quando eu recebo colegas — disse o homem sentado à minha frente, enquanto dobrava o guardanapo com uma precisão cerimonial —, eu espero que minha esposa fique fora de vista, a menos que esteja servindo alguma coisa.

Kenneth Greene. O décimo e o pior deste mês. E, por tudo que eu via, o favorito da minha mãe.

Eu pisquei.

Não porque eu não tivesse ouvido. Mas porque eu queria confirmar que aquela frase tinha mesmo existido fora de um manual vitoriano de etiqueta e dentro da minha realidade atual.

Kenneth sorriu do outro lado da mesa com a paciência benevolente de um homem que, em toda a vida, nunca tinha sido contradito.

— Você me parece alguém que entende o seu lugar. Tenho certeza de que não vamos ter dificuldades nesse sentido.

— Ah… entendi.

Dez homens. Dez restaurantes. Dez variações da mesma conversa, ditas com sotaques diferentes, relógios diferentes, contas bancárias diferentes — mas expectativas idênticas.

Dez lembretes de que minha mãe amava muito mais a ideia de me ver casada do que me ver feliz. Ela idolatrava a ideia de um genro rico e de um sobrenome poderoso.

De algum jeito, meus pensamentos voltaram para Reese Blackwood, como quase sempre acontecia ultimamente. O cunhado do meu primo. O último homem decente que eu tinha encontrado.

E o homem a quem eu entreguei minha virgindade numa noite de sexo sem compromisso, quase dois anos atrás.

O homem de ombros largos e firmes, que tinha me prensado nos lençóis e destruído todos os livros safados que eu já li.

O homem cujos olhos eram mais verdes do que o anel no dedo indicador do Kenneth.

Foi uma noite imprudente que eu disse a mim mesma para esquecer mil vezes. E, ainda assim, cada homem que a minha mãe desfilava na minha frente, eu comparava com ele.

O sorriso do Kenneth era arrogante demais. A mandíbula, mole demais. A voz, satisfeita demais consigo mesma. Os ombros, desleixados demais.

Nenhum deles era o Reese. Nenhum deles jamais seria.

Como minha mãe reagiria se eu aparecesse em casa com o filho do ex-presidente como marido? Blackwood era um sobrenome muito mais forte do que Greene. Então eu aposto que ela ficaria feliz.

Pelo menos eu não precisaria ficar presa no inferno com o Kenneth. Mas, infelizmente, as coisas com o Reese terminaram bem mal.

À minha frente, Kenneth voltou a falar. Na verdade, ele não tinha parado de falar em momento nenhum. Eu suspeitava que ele continuaria falando mesmo que tirassem o oxigênio do ambiente.

— Sua mãe comentou que você gosta de escrever — disse ele, claramente encorajado pelo que interpretou como um silêncio receptivo. — Um hobby encantador. Mas, naturalmente, depois do casamento, minha esposa não precisaria se preocupar com ambições de carreira. A minha renda é mais do que suficiente. Focar no lar cria harmonia.

Minha mãe tinha descrito ele como tradicional. Pelo visto, isso significava que ele pretendia casar comigo, me calar e me guardar direitinho ao lado das panelas.

Eu me imaginei colocando a cabeça dele com cuidado dentro do cesto de pães e fechando a tampa. Harmonia, de fato.

Sorria. Tome um gole. Respira. Só mais um pouco, Lizzie.

Eu sorri com educação.

— Você não parece gostar muito de mulheres inteligentes, Kenneth — observei.

Ele nem piscou.

— Eu admiro mulheres inteligentes, Lizzie. Desde que elas saibam quando não usar isso.

Ah. Um exemplar raro. A Feminista Condicional.

Ele se endireitou um pouco, como se estivesse prestes a entregar uma revelação particularmente impressionante.

— Nossas mães voltaram a conversar hoje de manhã.

Eu apoiei meu copo na mesa com cuidado.

— Sim?

— Ela mencionou algo admirável sobre você.

Minha coluna enrijeceu. Eu tinha aprendido, com muita experiência, que nada que a minha mãe chamava de admirável era bom para mim.

A expressão do Kenneth suavizou, no que ele claramente considerava reverência.

— Ela disse que você se preservou para mim. Que você é virgem.

As palavras pousaram na mesa como alguma coisa desagradável e grudenta.

Ele me observou, esperando a minha reação, os olhos brilhando de satisfação — o olhar de um colecionador que acaba de confirmar a autenticidade de uma aquisição valiosa.

— Eu sempre tive a intenção de me casar com uma mulher casta — disse ele, orgulhoso. — A ideia de uma esposa que já esteve com outros homens é… revoltante, francamente. Espera-se pureza, porque experiência numa esposa sugere falta de bom senso. Eu tenho dificuldade em respeitar mulheres que chegam com passado.

Alguma coisa dentro do meu peito ficou completamente imóvel.

Ergui minha taça de novo, examinando o vinho como se estivesse avaliando um espécime científico.

“Que interessante”, eu disse, com calma. “Você é virgem, Kenneth?”

Ele piscou. Depois riu — não de nervoso, mas com confiança. O riso de um homem que nunca, nem por um segundo, imaginou que os próprios padrões pudessem se aplicar a ele.

“Claro que não”, ele zombou. “Eu sou homem.”

Assenti uma vez enquanto dava um gole, como se ele tivesse acabado de confirmar um detalhe irrelevante num formulário.

Então eu cuspi o vinho direto na cara dele.

“Que porra é essa, Lizzie!”, ele gritou, meio se levantando da cadeira. “Você enlouqueceu?!”

Antes que ele conseguisse se recompor, ergui a taça de novo e despejei o resto do vinho na cabeça dele. Gotinhas vermelhas grudaram nos cílios. Uma linha fina de Cabernet escorreu pela ponte do nariz dele com uma dignidade trágica.

O restaurante emudeceu. As conversas morreram no meio das frases. Um garfo tilintou em algum lugar ao longe.

Kenneth me encarou, atônito, piscando através do vinho.

Coloquei a taça vazia com cuidado sobre a mesa. “Você”, eu disse, num tom controlado, “é um porco. Um porco incrivelmente confiante e espetacularmente cheio de razão própria.”

A boca dele abriu e fechou, sem som.

“Pra alguém tão preocupado com pureza”, continuei, me levantando e alisando o vestido, “é impressionante como você se sente à vontade com a hipocrisia. Você quer posse, não parceria. Você quer obediência, não respeito. E quer padrões que se aplicam às mulheres, mas evaporam no instante em que ficam inconvenientes pra você.”

Minha voz conseguiu permanecer calma o tempo todo, e isso me surpreendeu de verdade.

“Eu preferia casar com uma planta de sala”, acrescentei, pensativa. “Pelo menos uma samambaia produz oxigênio.”

Peguei minha bolsa.

“Ah, e pra constar daqui pra frente”, eu disse, encontrando o olhar dele, “minha vida pessoal não é mercadoria pra você aprovar. Nem é moeda de troca da minha mãe.”

Inclinei um pouco o corpo pra mais perto, oferecendo a ele a cortesia da clareza.

“Mas, se você faz questão de saber”, sussurrei, “eu não sou virgem. Então, sim — pelos seus padrões, eu sou revoltante. E, sendo assim, isso aqui não vai dar certo.”

A cor subiu no rosto dele por baixo do vinho. As mãos se fecharam na mesa, os nós dos dedos ficando brancos.

“Minha mãe fala de uma mulher tradicional pro filho dela”, acrescentei, baixinho, “mas ela também é a mulher que usa blusa de gola alta no verão pra esconder o que seu pai faz com ela.”

“Cala a boca”, ele sibilou, a voz baixa e tremendo de ódio. “Eu vou te pegar por causa disso.”

Eu sorri, agradável. “Tenha uma ótima noite, Sr. Greene.”

Então me virei e caminhei em direção à saída.

Atrás de mim, a voz dele subiu, indignada. Um garçom se apressou. Alguém arfou. Taças e copos tremeram.

Eu ri.

Lá fora, o ar da noite bateu no meu rosto e eu respirei fundo, sentindo a tensão se desfazer dos meus ombros.

Nove encontros terríveis tinham sido resistência. O décimo tinha sido aprendizado.

“Eu nunca mais vou fazer isso.” Eu resmunguei pra mim mesma.

Tirei o celular e abri as mensagens pra minha mãe. Meus polegares pairaram sobre a tela, prontos pra entregar uma obra-prima de fúria justa.

Aí eu parei. Apaguei o rascunho. Desliguei o celular.

Pra que avisar, se ela logo seria avisada por uma rede revoltada de mães que achavam que casamento era esporte competitivo?

Em algum lugar desta cidade, eu decidi, tinha que existir pelo menos um homem que não precisasse que explicassem o básico da humanidade como se fosse manual de eletrodoméstico.

Minha mente voltou pra Reese. Vai saber o que ele está fazendo agora. Ele tem namorada? Ainda está solteiro? Ainda está com raiva de mim pelo que eu fiz?

Suspirei. “Fecha esse capítulo logo, Lizzie. O Reese provavelmente já seguiu em frente.” Eu murmurei pra mim mesma.

Comecei a caminhar pra casa e não olhei pra trás. Cada passo em direção de casa parecia um passo em direção ao que estava me esperando. O silêncio se esticou, como se a cidade prendesse a respiração comigo.

Quando cheguei à minha rua, a casa estava lá no fim, como uma sentença. Todas as luzes estavam acesas. Até do portão, eu conseguia ver a silhueta dela através das cortinas — imóvel, ereta, claramente me esperando.

Meu pulso acelerou.

Isso não tinha acabado. Isso era o começo. Estendi a mão pro trinco da porta. Mas alguma coisa se mexeu dentro de mim...

E então... a porta se abriu antes mesmo de eu conseguir tocar nela.

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