Capítulo 2 O que você fez?

Capítulo 2: O que você fez?

Lizzie

—O que foi que você fez?!

A voz da minha mãe cortou o corredor antes mesmo de eu entrar com os dois pés em casa. A porta mal tinha feito clique atrás de mim quando ela já estava na minha frente, os olhos em brasa, a respiração curta de tanta raiva.

—O que você fez com o Kenneth?!

Eu não respondi. Em vez disso, passei por ela, tirei os saltos com uma calma deliberada e os deixei bem alinhados ao lado da sapateira.

Se eu me movesse devagar o suficiente, talvez a noite voltasse no tempo. Talvez isso virasse só mais uma noite qualquer nessa casa sufocante, onde o silêncio era mais seguro do que a verdade.

—Eu estou falando com você, Elizabeth Marie Foster! —ela berrou. —A mãe do Kenneth acabou de me ligar.

Eu parei no pé da escada. —Então imagino que ela já saiba que agora ele toma banho de vinho.

Meu pai apareceu na sala, o jornal ainda dobrado na mão, os óculos de leitura apoiados baixo no nariz. Ele avaliou a cena —minha mãe tremendo de raiva, eu dura, claramente exausta.

—Carol —ele disse, com suavidade—, por que você não deixa ela subir e se lavar primeiro? Eu não acho que a Lizzie teria feito algo desrespeitoso se o Kenneth não tivesse feito alguma coisa para ofendê-la antes.

Era sempre o mesmo roteiro. Pai calmo. Mãe explosiva. Eu no meio do fogo cruzado.

Mas hoje à noite, o roteiro não estava funcionando.

—Para de arrumar desculpa pra ela! —minha mãe disparou, virando-se para ele. —É por isso que ela ficou assim! —Ela apontou um dedo na minha direção como se eu fosse alguma coisa estragada que ela tivesse encontrado no armário. —Você fica passando pano pro comportamento dela até o dia em que vai perceber que fez mais mal do que bem quando ela fizer trinta anos daqui a pouco, sem marido, e ninguém quiser ela!

As palavras bateram como pedrinhas —pequenas, mas doloridas.

—É só isso que importa pra você? —perguntei, baixinho.

Minha mãe piscou, desconcertada com a minha calma.

—É só isso que eu sou pra você? —minha voz firmou. —Uma vaca numa banca de feira?

Meu pai fez uma careta de incômodo. —Lizzie, por favor. Sobe. Troca de roupa. Sua mãe e eu vamos conversar sobre isso como adultos. Os vizinhos não precisam ouvir—

—Por quê? —eu perguntei, virando-me de vez para ele. —Por que eu não deveria falar? Eu sou adulta. Eu tenho vinte e três anos, porra, pai. Não sou uma adolescente.

—Tá vendo? —minha mãe gritou. —Tá vendo isso, Eric? Agora ela responde pra você também! Meu Deus. Onde foi que eu errei?

Eu ri, sem som. —O que tem de tão errado em fazer trinta anos e estar solteira, mãe? Só porque você casou com vinte e um não quer dizer que eu vou casar. Só porque o pai foi demitido e a gente tá mal dando conta das contas não quer dizer que eu tenho que ser vendida pra um porco como o Kenneth Greene.

Meu pai puxou o ar, tenso. —Lizzie—

—Ele te contou o que ele me disse? —eu insisti.

Os olhos da minha mãe ficaram gelados. —E quem se importa com o que ele disse? Ele é homem. Homem fala essas coisas o tempo todo.

O silêncio caiu.

—É seu dever entender o seu marido e agir de acordo —ela continuou, a voz subindo. —Você jogou vinho nele! Você armou um escândalo quando sabe que ele vai concorrer a prefeito no ano que vem! Como é que você consegue ser tão burra?

A humilhação da noite voltou com tudo. Talvez eu tivesse exagerado. Mas o vinho tinha sido tão bom.

“Eu não tô nem aí”, eu disse, e dessa vez nem me dei ao trabalho de falar baixo. “Não tô nem aí pra campanha dele, nem pra reputação dele, nem pro futuro dele. Não tô nem aí pra aquele homem nem pras ambições políticas dele, e eu com certeza absoluta nunca vou ser esposa dele. Essa decisão é minha.”

Meu pai passou a mão pelo rosto. “Minha Nossa Senhora…”

“Decisão sua?”, minha mãe repetiu, com a voz ficando perigosamente calma.

“Sim.” Eu sustentei o olhar dela sem piscar. “E nada do que você fizer vai mudar a minha ideia. Eu não vou me casar com o Kenneth. Eu não vou aceitar mais um encontro. Hoje foi a última vez que eu deixei vocês me exibirem por aí como se eu fosse uma égua premiada.”

Os lábios dela tremeram. Não de mágoa — de raiva.

“E já que a gente chegou até aqui”, eu continuei, agora que a represa tinha estourado de vez, “para de comentar a minha vida pessoal com a senhora Greene e com qualquer outra madame rica pra quem você puxa o saco. Eu não sou sua escada social, mãe.”

O tapa veio do nada.

Num segundo eu estava de cabeça erguida. No outro, minha bochecha explodiu de calor e minha cabeça virou de lado com o impacto. Um gosto de ferro tomou minha boca.

Meu pai avançou um passo. “Carol!”

“Sua ingrata!”, minha mãe cuspiu. “Depois de tudo que a gente fez por você? Depois dos sacrifícios que eu e seu pai fizemos? É assim que você paga a gente, na única vez que pedimos sua ajuda?”

Eu me endireitei devagar. Minha bochecha latejava, mas eu me recusei a tocar nela.

“Você fala como se estivesse me pedindo pra te passar o saleiro”, eu disse, com a voz tremendo de raiva contida. “Para com isso, mãe. Chantagem emocional não funciona comigo. Nunca funcionou. E nunca vai funcionar.”

As narinas dela se abriram, tensas. Por um longo momento, a gente só se encarou.

Então ela disse, bem baixo: “Eu nunca devia ter deixado você ficar com a Savannah. Nunca.”

Eu pisquei. “O que a Savannah tem a ver com isso?”

“Ela encheu sua cabeça de bobagem. Independência. Liberdade. Carreira antes de casamento.” Minha mãe deu uma risada amarga. “Olha ela agora. Casada e feliz com um bilionário. Quem é a trouxa agora, Lizzie?”

“Deixa ela fora disso”, eu rosnei. “A culpa não é dela. É sua!”

“Você quer envergonhar a nossa família?”

“Não”, eu disse, dando um passo mais perto apesar da ardência ainda queimando no meu rosto. “A vergonha é uma mãe rotular a própria filha como noivinha virgem pra impressionar vizinhos ricos. Eu tenho vergonha de você, mãe.”

Se aquelas palavras cortaram, ela não mostrou.

Em vez disso, ela endireitou os ombros e deu o veredito como uma juíza lendo uma sentença.

“Amanhã de manhã, o Kenneth Greene e a família dele estarão aqui. Você vai pedir desculpas a ele e aos pais dele pelo seu comportamento vergonhoso hoje.”

Meu pulso falhou.

“Depois”, ela continuou, “você vai embora com eles. Seu casamento vai ser daqui a uma semana. Essas foram as exigências dos Greenes. E nós aceitamos por você.”

O quarto pareceu inclinar.

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