Capítulo 3 Você está me vendendo
Capítulo 3: Vocês Estão Me Vendendo
Lizzie
— O quê? — a palavra saiu como um sopro, não como um grito.
Os olhos do meu pai estavam grudados no chão. Culpado.
Eu olhei dele para ela, esperando que alguém risse. Que admitisse que aquilo era um drama emocional que tinha passado do limite.
Ninguém riu.
— Você não pode estar falando sério — sussurrei.
— Ah, eu estou falando muito sério — ela respondeu. — Você faz ideia de quanto o pai do Kenneth prometeu investir na nova ideia de negócio do seu pai? Milhões, Lizzie! Você entende o que vai acontecer se eles desistirem agora? Você por acaso se importa com a gente?!
A peça óbvia que faltava se encaixou.
Era dívida. Meu pai estava endividado. E casar com a família Greene era a escada para sair daquele buraco.
O bico que meu pai fazia por fora vinha sangrando dinheiro desde a demissão. Quando ele disse que finalmente tinha se reerguido, tinha sido com apoio — dos Greenes.
Meu estômago embrulhou.
— Você me prometeu — eu disse ao meu pai, com a voz falhando. — Você prometeu que nunca ia me usar como garantia, pai. Eu confiei em você. Eu acreditei em você.
Ele levantou o olhar então, com os olhos vermelhos, marejados. — Lizzie, não é assim.
— Então é como? — eu exigi.
— É segurança — minha mãe cortou. — Pra todos nós. O Kenneth te adora. Ele vai te encher de ouro.
— Você acredita mesmo nisso? — eu soltei uma risada sem humor. — Ele me disse hoje à noite que, depois do casamento, eu ia parar de escrever. Que seria melhor eu guardar minhas opiniões dentro de casa. Que uma boa esposa sabe a hora de ficar calada.
Minha mãe fez um gesto de desprezo com a mão. — Homem fala essas coisas.
— E mulher só aguenta? — eu rebati.
— Sim! — ela gritou, como se fosse óbvio. — É assim que os casamentos duram!
— Ele se achou no direito sobre o meu corpo! Você não sente nojo, não?! — eu berrei. — Você é uma mulher, mãe!
— E qual é o problema disso, Lizzie?! — ela puxou o próprio cabelo, frustrada. — Se é isso que precisa pra você ser esposa dele, então sim. Ele pode “ter direito” ao que quiser, por mim! Não fica pensando demais nessas coisas.
Minha visão ficou turva. — É mesmo?
— É. — Ela sustentou o olhar.
— Nesse caso, espero que você tenha uma boa desculpa pra ele quando ele me devolver pra casa — eu dei um passo à frente. — Eu não sou virgem, mãe. Eu perdi. Eu já transei com um homem.
Ela parou. Na verdade, ela congelou.
Aí, por fim, falou num tom gelado: — O quê? O que foi que você disse?
Ainda bem que meu pai entrou no meio. — Calma. Vocês duas. Carol, para com isso.
Mas minha mãe continuava me fuzilando com os olhos.
Meu pai deu um passo hesitante na minha direção. — Não vai ser tão ruim quanto você pensa. O Kenneth vem de uma família respeitável. Você vai viver bem. Não vai precisar se preocupar com contas.
— Eu não quero conforto, pai — eu disse. — Eu quero escolha. Eu quero liberdade.
— E você tem — minha mãe disse, lisa. — Você pode escolher apoiar a sua família ou pode escolher destruir a gente.
Aí estava.
Eu senti alguma coisa dentro de mim endurecer.
— Então é isso? — eu perguntei. — Se eu recusar, o que acontece? Eles tiram o investimento? A gente perde a casa? Eu vou presa por ter jogado vinho no Kenneth em público?
O silêncio respondeu.
Meu pai engoliu em seco. — É complicado.
— Não — eu disse, baixinho. — É simples. Vocês estão me vendendo.
— Não use essa palavra de novo — sibilou minha mãe.
— Mas é isso que é. Uma negociação.
O maxilar dela se contraiu. — Amanhã de manhã. Oito em ponto. Esteja pronta.
— E se eu não estiver?
Ela sorriu. — Você vai estar, Lizzie.
Procurei no rosto do meu pai algum sinal de resistência. De revolta. De qualquer coisa. Mas não havia nada. Ele parecia cansado. Derrotado. Menor.
E, naquele instante, eu entendi que estava sozinha.
— Eu não vou fazer isso — eu disse, embora minha voz soasse distante, até para mim.
— Vai, sim — respondeu minha mãe, calma. — Porque você nos ama.
Soltei o ar. — Amor não devia parecer uma prisão.
Ela não respondeu. A conversa tinha acabado.
Eu me virei e subi a escada devagar, cada degrau mais pesado do que o anterior. Minhas pernas tremeram quando cheguei ao meu quarto. Fechei a porta com cuidado atrás de mim e me encostei nela, ouvindo a discussão abafada que recomeçou lá embaixo — o murmúrio baixo do meu pai, o tom mais cortante da minha mãe.
Minha bochecha ainda ardia.
Atravessei o quarto até o espelho e encarei a marca vermelha suave que começava a se espalhar pela pele.
Uma semana. Eles planejavam me casar em uma semana.
Meu olhar foi até a escrivaninha, até a pilha de currículos que eu vinha adiando enviar. Até o potinho de economias escondido atrás dos meus livros. Até a foto emoldurada de mim e do meu pai na praia no verão passado.
“Eu nunca devia ter deixado você ficar com a Savannah.” As palavras ecoaram de novo.
Meu coração começou a disparar.
Amanhã, às oito, os Greene estariam aqui. Amanhã, às oito, eu não podia estar.
A ideia se assentou em mim com uma clareza assustadora.
Se eu quisesse sair desta casa com a minha vida intacta — a minha vida de verdade, não a versão polida de esposa de político que eles estavam montando para mim… eu precisava ir embora. Hoje. Ainda esta noite.
Me afastei da porta e fui até o armário, puxando uma mala pequena debaixo da cama. Minhas mãos tremiam, mas minha cabeça estava estranhamente calma. Focada.
Dois jeans. Três blusas. Roupa íntima. Itens de higiene. Meu passaporte. O envelope com o dinheiro que eu vinha guardando sem um motivo específico além de instinto.
Hesitei diante da estante, os dedos passando pelas lombadas. Eu não podia levar tudo.
Só um.
Escolhi o livro de bolso surrado que minha melhor amiga, Kira, tinha me dado anos atrás — aquele sobre uma mulher que fugiu de um casamento arranjado e construiu uma vida do nada. Coloquei-o dentro da mala.
Eu ia fugir para a Filadélfia.
Por pior que as coisas tivessem sido da última vez que falei com a Savannah, eu tinha certeza de que ela e o marido dela, Roman, não iam se importar de me deixar ficar na casa deles por um tempo, até eu descobrir o que fazer depois.
Lá embaixo, uma porta bateu. As vozes se calaram. Meu coração foi parar na garganta.
Apaguei a luz do quarto e fui até a janela, abrindo-a devagar. O ar da noite entrou de uma vez.
Liberdade tinha esse cheiro. Mas medo também.
Olhei de volta para o meu quarto — a cama em que eu dormia desde criança, as cortinas desbotadas, as paredes familiares.
Mas, naquela noite, parecia uma cela. Não haveria amanhã de manhã para Elizabeth Marie Foster nesta casa.
Só fuga.
E o que quer que me esperasse do outro lado.
