Capítulo 4 Lauren

Capítulo 4: Lauren

Reese

—Onde diabos você está, Reese? Eu tô esperando aqui há uma eternidade!

A voz da Lauren atravessou o telefone feito uma sirene, perfurando meu crânio com aquela urgência aguda registrada dela. Afastei o aparelho da orelha, sentindo a mandíbula travar enquanto minha mão se firmava no volante.

Eu odiava vozes finas. Era broxante. Muito.

Só existe uma voz de que eu realmente gostei. A única que nunca saiu da minha cabeça, nem depois de todo esse tempo. Contida. Madura. Nada a ver com esse chilique de criança de oito anos berrando na linha agora. Aquela era a voz da Elizabeth.

É claro que eu ainda lembrava da voz dela.

Se meu pai não tivesse arranjado esse casamento entre essa mimada e eu—e se eu não tivesse aceitado por vingança—eu não estaria aqui, no meio da madrugada, dirigindo pra buscar a Lauren.

A estrada à frente se embaralhava em luzes vermelhas de freio e faróis distantes enquanto eu apertava o volante e soltava o ar devagar pelo nariz.

—Se você parasse de ligar a cada três segundos, Lauren —eu disse de propósito, num tom calmo, embora a tensão no meu peito fervesse—, eu talvez conseguisse prestar atenção em dirigir e chegar aí inteiro.

Mas parece que minhas palavras só pioraram tudo.

—A gente fez um pouso de emergência na Flórida faz uma hora, Reese! Uma hora! Você tinha que estar lá esperando quando meu avião aterrissasse! Por que eu tô presa aqui sozinha? Por que você me deixou aqui?!

Eu inspirei devagar pelo nariz, deixando o ar encher os pulmões como se isso pudesse me impedir de perder totalmente o controle.

—Eu. Tô. Indo.

—Então anda logo! —A voz dela subiu ainda mais, já beirando o teatro—. Eu tô com medo.

Medo do quê? De oxigênio?

—Tem tanta gente aqui —ela continuou, ofegante—. Alguém me olhou estranho. Quebrei uma unha. E meu cabelo tá literalmente caindo por causa da pressão da cabine. E eu acho que engordei uns cinco quilos por causa do bolo que serviram—

—Eu tô indo te buscar —eu cortei, sem paciência. Eu não precisava de um catálogo de desgraças. Não hoje.

A voz dela amaciou na hora.

—Tá bom. Eu mal posso esperar pra te ver—

Desliguei antes que ela conseguisse emendar mais uma reclamação.

O carro parecia pequeno demais pra caber minha irritação.

Apoiei a cabeça no encosto por um instante, só o suficiente pra soltar um longo suspiro controlado.

A Lauren tinha sorte de ser mulher. Se não fosse, eu teria dado a ela um motivo pra investir em equipamento ortopédico e num estoque vitalício de bolsas de gelo.

Desde que eu aceitei esse acordo—essa sentença de prisão absurda, estratégica e “vantajosa” pros dois—minha vida virou uma sequência interminável de interrupções, ligações e crises fabricadas.

Eu achei que ia dar conta, que ia conseguir lidar com tudo. Mas eu estava errado. Eu sentia falta da minha vida de antes. Sentia falta do silêncio. Da paz. Da liberdade.

Lauren White é um pesadelo.

Agora nada importava, a não ser como uma âncora que eu não conseguia cortar. Parecia que eu nunca ia me livrar dela, não importa o quanto eu tentasse.

Seis meses atrás, eu saí da mansão.

Tecnicamente, eu ainda tinha obrigações com a minha família, ainda tinha aparências a manter. Mas eu aluguei uma cobertura na Flórida.

Algumas horas de distância não são muita coisa no mapa. Mas, psicologicamente, é tudo.

Longe da sombra do meu pai controlador. Não longe demais, mas o bastante. O bastante pra respirar. O bastante pra pensar.

Mesmo assim, a Lauren trata minha cobertura como se fosse um anexo particular dela.

Eu apostaria cada centavo que eu tenho que não houve pouso de emergência nenhum na Flórida. Nada de problema mecânico. Nada de anúncio dramático do piloto.

Ela só queria atenção. Ou pior—ainda queria estar perto de mim.

Entrei no estacionamento do aeroporto e desliguei o motor. Depois fiquei sentado mais um pouco do que o necessário, olhando pro nada, sentindo tudo. Pensando em tudo.

Meu celular vibrava sem parar. Lauren. Eu recusei a chamada. Outra vibração. E outra. Eu só continuei recusando.

Quando eu saí do carro, o celular marcava trinta e sete chamadas perdidas. Trinta e sete.

—Pelo amor de Deus, Lauren. Você não para nunca?

Como as aparências eram necessárias, eu peguei o buquê de rosas vermelhas que eu tinha comprado no caminho—caríssimo, dramático, absurdo.

Ela tinha exigido.

—Leva flores pra todo mundo ver que você se importa —ela tinha dito.

Eu obedeci porque, às vezes, era mais fácil entrar no jogo do que brigar.

Saí do carro e entrei no terminal, levando na cara o jato do ar-condicionado em contraste brutal com a umidade da Flórida.

O aeroporto estava vivo, barulhento, um som constante de malas com rodinhas, crianças gritando e avisos repetidos nos alto-falantes.

Passei os olhos pela área de desembarque enquanto ligava para Lauren de novo. Não via sinal dela em lugar nenhum.

Nada de escovação exagerada de filme. Nada de malas de grife espalhafatosas. Nada de grito agudo anunciando o meu fracasso como noivo.

Chamou. Sem resposta.

Tinha alguma coisa errada. Lauren nunca ignorava minhas ligações quando sabia que eu estava por perto.

Virei, varrendo com o olhar a área de embarque. Nada. Liguei de novo. Caiu direto na caixa postal.

A irritação no meu peito se apertou. Se aquilo fosse mais uma das cenas dela, um teste pra ver se eu entraria em pânico, eu tinha terminado.

Eu mesmo faria questão de devolvê-la ao pai dela ainda hoje à noite e encarar o desgaste de dizer a ele que esse acordo tinha acabado. Que se dane tudo.

E então eu ouvi.

A voz de uma mulher, aguda e tensa, cortando o barulho abafado do aeroporto. “Solta meu braço! Eu não vou com você!”

Meu corpo congelou na hora. Aquela voz era familiar. Familiar demais.

Um pequeno grupo se juntava perto dos portões de embarque. Seguranças se aproximavam do tumulto, cautelosos, mas atentos. Meu primeiro instinto: é a Lauren. Combina com ela. Mas não. O ritmo, o tom — era diferente. Mais firme. Mais controlado.

Aquilo… soava demais como a voz da Elizabeth. Eu estava imaginando?

A curiosidade e o instinto me puxaram adiante. Com o buquê na mão, fui me enfiando mais perto, procurando uma brecha na multidão. E então eu vi.

Elizabeth. A garota que eu achei que nunca mais veria. Lizzie. A prima da minha cunhada.

Ela estava no meio do caos, o cabelo um pouco desgrenhado, as bochechas vermelhas de raiva. Um segurança segurava o braço dela — não com brutalidade, mas firme o bastante para contê-la.

E agarrando o mesmo braço com autoridade, os nós dos dedos brancos de força, estava uma mulher mais velha, com o rosto duro de fúria.

“Lizzie, para com essa palhaçada”, a mulher sibilou. “Você vai pra casa comigo. Agora!”

Elizabeth se soltou, desafio em cada linha do corpo. “Eu disse que não vou com você.”

A voz dela tremeu — tensa, mas não quebrada.

Alguma coisa no meu peito mudou. Não era adrenalina, nem surpresa; era algo mais pesado. Eu não esperava ver ela de novo. Não agora. Não ali. Não assim.

“Ela é minha filha”, a mulher disparou para os seguranças. “Está confusa. Emocional. Não sabe o que está fazendo.”

“Eu sei muito bem o que eu estou fazendo”, Elizabeth retrucou. “Você está tentando me vender! E eu me recuso!”

Os seguranças trocaram olhares, incertos.

“Senhora”, um deles começou, num tom calmo, “se ela é maior de idade, nós não podemos obrigá-la a ir embora a menos que exista um motivo—”

“Ela é minha filha!”, a mulher cortou, agressiva.

O maxilar de Elizabeth se contraiu. “Ser minha mãe não significa que você manda em mim nem que pode me vender pra quem pagar mais!”

“Lizzie!”, a mulher cuspiu. “Pega suas coisas e vamos embora pra casa!”

Elizabeth puxou o braço de novo. “Eu disse que não vou com você!”

O olhar da mãe dela endureceu. “Você não vai envergonhar mais essa família. Entra no carro.”

“Eu prefiro morrer.”

A mão da mãe dela se ergueu outra vez, e dessa vez não era só pra agarrar. Era pra bater.

Eu não pensei. Só me mexi. Em dois passos, eu estava entre as duas, segurando o pulso da mulher no ar.

Os olhos dela cravaram nos meus. Indignação, choque, incredulidade, tudo misturado. O contato a sobressaltou. Ela me encarou, de cima a baixo. “E você é…?”, exigiu.

Sustentei o olhar, firme. “Alguém que não acha aceitável agredir outra pessoa em público, senhora. Principalmente quando a pessoa que a senhora quer bater é alguém de quem eu gosto bastante.”

Devagar, eu me virei por completo. E lá estava Elizabeth.

Aqueles olhos grandes, furiosos. O desafio. O tremor que ela tentava esconder. O choque atravessou o rosto dela, depois a incredulidade, e então um lampejo de alguma coisa que eu não consegui nomear.

Medo? Alívio? Reconhecimento?

“Reese?”, ela soprou.

Ela estava ali. Elizabeth.

A garota em quem eu não tinha parado de pensar desde que ela me enganou para eu tirar a virgindade dela, mais de um ano atrás.

A garota que invadiu meus pensamentos e tomou conta de mim.

A última mulher com quem eu dormi.

…E alguma coisa me dizia que nossos caminhos se cruzaram de novo porque, talvez, a nossa história ainda não tivesse acabado.

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