Capítulo 5 Quem é você?
Capítulo 5: Quem é você?
Lizzie
Reese.
Ele estava bem na minha frente.
Por um instante, meu cérebro simplesmente se recusou a processar. O mundo já vinha girando feito louco nos últimos dez minutos — minha mãe gritando, gente se juntando, os policiais intervindo —, mas isso? Isso parecia irreal.
Como isso era possível?
De todos os lugares do mundo em que a gente poderia ter se esbarrado de novo, tinha que ser aqui. Agora. Exatamente no momento em que eu precisava de uma saída com mais desespero do que já precisei de qualquer coisa na vida.
Foi coincidência? Ou o universo finalmente estava me jogando uma boia?
“Quem é esse?” minha mãe exigiu, ríspida.
Eu percebi que os dedos dela ainda estavam enrolados no meu pulso, cravando como garras, mas Reese os tirou com cuidado. O movimento foi suave e sem esforço — como soltar a mão de uma criança.
“Lizzie”, ela disparou, voltando-se pra mim na mesma hora. “Quem é esse homem?”
Reese soltou o pulso dela e enfiou as mãos no bolso, como se não fosse nada. “E isso importa?” ele perguntou.
A calma na voz dele só pareceu alimentar a raiva dela.
“Sim, importa”, ela rebateu. “Minha filha não fala com estranhos. E eu tenho certeza de que ela não vai embora com um.”
Um riso seco escapou de mim. “Eu também não vou com você.”
Isso calou minha mãe por meio segundo.
Os olhos de Reese passaram devagar pelo pequeno grupo que tinha se formado ao nosso redor. Celulares erguidos por todo lado. Pessoas cochichando. Filmando.
Claro que estavam. Nada entretém estranhos mais do que barraco de família.
O policial que observava a cena pigarreou.
“Senhora”, ele disse com cautela, “a menos que haja indícios de coação, ela está livre para ir aonde quiser.” Então o olhar dele se deslocou para Reese. “E também com quem ela quiser.”
O rosto da minha mãe endureceu na hora.
“Você não entende”, ela disse entre os dentes. “Há consequências.”
Eu sustentei o olhar dela sem vacilar. “Sempre tem. Aguenta.”
Por um momento, nós duas só nos encaramos. Anos de controle, obediência, expectativa — tudo estalava no ar entre nós.
Então Reese se inclinou mais perto de mim e murmurou baixo: “As pessoas estão filmando, Elizabeth. É melhor não fazer escândalo.”
A voz dele era baixa.
E, de algum jeito, aquela observação inofensiva acendeu a ideia mais imprudente que eu já tive na vida.
Se as pessoas estavam filmando… então o Kenneth ia ver isso. A família dele ia ver isso. A dinastia Greene inteira, perfeita e polida, ia ver exatamente o quanto eles tinham pouco controle sobre mim.
Um sorriso lento se abriu no meu rosto.
Meus olhos desceram para o buquê na mão de Reese. “Essas flores são pra mim?” perguntei, animada.
A mudança no meu tom foi tão repentina que Reese piscou, confuso.
Ele olhou para as flores. Depois para mim. Antes que ele abrisse a boca para questionar, eu agarrei a frente da camisa dele e puxei ele pra baixo.
Meus lábios bateram nos dele enquanto o mundo ao nosso redor explodia em suspiros.
Eu amarrei a mão na camisa dele com mais força, puxando-o pra mais perto enquanto eu o beijava como se minha vida dependesse disso. Como se eu tivesse planejado tudo desde o começo.
Como se ele fosse meu.
Nos primeiros segundos, Reese congelou por completo. Eu praticamente senti o choque saindo dele. O corpo dele estava rígido, claramente atônito demais pra reagir. O que significava que eu era a única beijando.
Perfeito.
Justo quando o pânico começou a subir arranhando minha garganta, eu interrompi o beijo por meio segundo e encostei a testa na dele.
“Me beija de volta”, eu sussurrei, desesperada. “Por favor.”
Foi só isso que ele precisou.
A mão dele deslizou de repente e segurou minha mandíbula, firme e quente. Num movimento rápido, ele me puxou mais pra perto e me beijou de volta. Com força.
A reação da plateia dobrou na mesma hora. Alguém, de fato, comemorou.
Mas Reese parecia não se importar mais.
O controle dele encaixou como se alguém tivesse virado uma chave. Os dedos dele apertaram de leve minha mandíbula enquanto ele aprofundava o beijo, a pressão surpreendentemente intensa.
Por um instante, a encenação inteira deixou de parecer encenação.
A boca dele se movia contra a minha com uma certeza chocante, como se a gente tivesse feito aquilo mil vezes antes. Ou talvez ele só estivesse comprometido demais com o teatro.
De qualquer jeito, meu coração estava martelando com força quando, por fim, a gente se afastou. Nós dois precisávamos respirar.
Virei devagar para a minha mãe.
— Ainda está aqui, mãe?
A expressão no rosto dela era puro choque. Os olhos dela correram pelas pessoas nos filmando, antes de voltarem para mim.
— Você tem noção do que acabou de fazer?
— Eu te disse que não ia com você, não disse?
— Os Greene vão chegar até as oito! — ela gritou, esganiçada. — Como você pode fazer isso com o Kenneth? Com a gente?!
Ela ainda bateu o pé no chão, como uma criança birrenta de raiva.
Eu não recuei. Não dessa vez.
A mão do Reese escorregou para dentro da minha. O aperto dele era firme e quente.
— Apresento meu namorado, mãe — anunciei em voz alta. — Reese Blackwood.
Reese enrijeceu ao meu lado. Ele virou a cabeça num estalo para me encarar.
— Eu não posso me casar com o Kenneth — continuei, com a voz tranquila — porque eu já amo outro homem.
Apertei os dedos em volta da mão do Reese antes que ele pudesse se soltar. Ele me olhou como se eu tivesse acabado de colocar a vida inteira dele em chamas.
O que, pensando bem… talvez eu tivesse mesmo.
— O quê?! — minha mãe explodiu.
A voz dela falhou de incredulidade.
— Eu nunca vi esse homem na minha vida! Como você pode conhecer esse estranho?! Para com essa palhaçada agora e vem pra casa! Você vai pedir desculpas ao seu noivo por essa vergonha, e tenho certeza de que ele vai te perdoar.
Eu bufei, debochada.
— Já terminou?
Algumas pessoas na multidão soltaram suspiros chocados.
— Você não está entendendo o que eu estou dizendo? — continuei, fria. — Eu não posso me casar com o Kenneth porque eu já pertenço a outra pessoa.
Então eu encarei minha mãe diretamente. E soltei a bomba final.
— E eu estou grávida do filho dele. Sim. Eu e o Reese vamos ter um bebê.
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Aí suspiros e murmúrios explodiram por todos os lados. O aperto do Reese na minha mão se fechou de repente, dolorido.
A maior mentira da minha vida tinha acabado de sair da minha boca.
Minha mãe me encarou como se tivesse sido esfaqueada.
— Você está mentindo — ela sussurrou. — Isso não é verdade. Você não pode estar…
As palavras morreram no meio da frase. Ela levou a mão à boca.
— Meu Deus.
— Eu te disse que não podia me casar com o Kenneth — falei baixo. — Agora você sabe por quê.
Ela virou a cabeça num golpe na direção do Reese. A fúria queimava nos olhos dela.
— E você — ela sibilou. — Como se atreve?! Como se atreve a fazer uma coisa dessas com a minha filha sem que eu saiba?!
Meu pulso disparou.
Agora a atenção tinha virado para o Reese. Tudo dependia de ele não estragar isso.
Reese pigarreou. Meu coração quase saltou pela boca. Se ele negasse… Se ele me desmascarasse…
— Minhas desculpas, senhora — ele disse, calmo. — Se eu soubesse que a senhora queria um lugar na primeira fila do espetáculo, eu teria providenciado.
Minhas sobrancelhas subiram num impulso.
Minha mãe arfou.
E eu não consegui segurar a risada que escapou.
— Mãe, a senhora está passando vergonha — falei, doce. — É melhor ir pra casa. E dizer ao Kenneth que não vai ter casamento.
Inclinei a cabeça de leve.
— A não ser que ele tenha interesse numa noiva grávida… e experiente.
Reese tossiu ao meu lado, claramente se segurando para não rir. Por um instante glorioso, a vitória cresceu no meu peito. Eu tinha conseguido. Eu estava livre.
Então uma voz cortante rasgou o ar.
— Reese!
O som atravessou a multidão.
Todas as cabeças se viraram.
Uma mulher estava a poucos passos da gente, braços cruzados com força contra o peito.
O cabelo dela caía em ondas negras dramáticas sobre os ombros, e o salto dela batia seco no chão enquanto ela se aproximava.
Ela parecia furiosa. Furiosa de verdade.
Reese murmurou um palavrão entre os dentes. E, na mesma hora, um pavor se enrolou no meu estômago.
— Lauren — ele disse baixo. — Não diga uma palavra.
Minha mãe se virou para ela imediatamente.
— E você é quem? Você conhece esse homem?
Os olhos da mulher passaram pela minha mãe com desprezo escancarado.
— Eu é que devia perguntar isso — ela rebateu, ríspida. — Quem diabos são vocês?
— Lauren, já chega — Reese alertou.
Mas ela não parou. Marchou direto até nós, a raiva saindo dela em ondas.
O olhar dela caiu em mim. E ficou. O ódio nos olhos dela fez meu estômago despencar.
Ela parou a poucos passos. Então disse as palavras que gelaram o meu sangue.
— Quem é você — ela exigiu — e por que acabou de beijar o meu noivo?
