Capítulo 6 Seus companheiros
Capítulo 6: Seus Companheiros
Reese
Quem quer que tenha inventado a expressão “uma situação pegajosa” devia ter dado uma espiada no meu futuro e decidido eternizar exatamente este momento.
Porque lá estava eu — parado no meio de uma multidão que só aumentava, celulares apontados na minha direção como se eu fosse a estrela de algum espetáculo público — enquanto minha verdadeira noiva estava bem na minha frente… e a mulher ao meu lado acabara de anunciar para o mundo que estava grávida do meu filho.
Um filho que não existia.
Meu Deus do céu.
Os olhos da Lauren queimavam nos meus, arregalados de incredulidade e fúria.
A mão da Elizabeth ainda estava presa no meu braço como se fosse uma boia de salvação. E as pessoas estavam filmando. Claro que estavam.
“Eu tô falando com você, Reese!” Lauren bateu o salto no chão com tanta força que várias pessoas viraram os celulares para ela.
“Quem diabos é essa garota?”, ela exigiu. “E ela tá mesmo grávida do seu filho? Me responde!”
Por um breve segundo, o único som ao nosso redor foi o murmúrio baixo da multidão e os avisos no alto-falante.
Eu me obriguei a respirar devagar. Pensa. Se eu lidasse com isso do jeito errado, as consequências não cairiam só em cima de mim. Meu pai ia ver isso. O nome Blackwood ia ser arrastado pra lama.
E, pelo olhar horrorizado no rosto da mãe da Elizabeth, o noivo dela e a família inteira dele provavelmente também iam ver. O que significava que a mentirinha da Elizabeth tinha acabado de virar uma granada bem pública.
E, no momento, quem estava com o pino na mão era eu.
Elizabeth finalmente pareceu sair do choque. Ela se inclinou mais perto, a voz baixa o bastante para só eu ouvir.
“Você tá noivo?”, ela sussurrou, cortante. “Por que não falou isso antes?”
Eu nem olhei para ela.
“É complicado”, murmurei de volta.
Aí, sem conseguir me segurar, acrescentei baixinho: “Além do mais, você não me deu exatamente muito tempo pra conversar quando sua boca tava grudada na minha.”
O aperto dela no meu braço ficou um pouco mais firme.
Voltei a atenção para Lauren e levantei uma mão. “Lauren”, eu disse com cuidado. “Calma.”
Aparentemente, essa foi a coisa errada a dizer.
Os olhos dela faiscaram. “Calma?”, ela repetiu, incrédula. “Você pode pelo menos me dizer quem é essa mulher antes que eu arranque o cabelo dela pela raiz?”
Uma onda de risadinhas passou pela multidão.
Maravilha. Como se o circo já não estivesse divertido o suficiente.
Infelizmente, a Elizabeth também não tinha a menor intenção de ficar calada.
“Olha aqui”, ela retrucou. “Eu não faço ideia de quem você é. Mas agora é a hora errada pra começar a ameaçar os outros. E nem pense em vir pra cima de mim.”
Lauren piscou. Quase como se não acreditasse que alguém tinha falado com ela daquele jeito.
A mãe da Elizabeth olhou de um para o outro, cada vez mais confusa. “Lizzie”, ela disse devagar, “isso é algum tipo de pegadinha? Quem é essa mulher? E quem é esse homem pra você?”
Elizabeth não hesitou.
“Ele é o pai do meu bebê.” A voz dela saiu firme. Clara. E assustadoramente convincente.
Os dedos dela se encaixaram ainda mais no meu braço, como se estivesse marcando território. “E ele é o homem que eu amo.”
Lauren soltou uma risada curta, desacreditada. “Ah, conta outra.”
Ela deu um passo à frente e agarrou a manga do meu paletó como se também estivesse reivindicando.
“Ele é meu noivo”, ela disparou. “Ele veio aqui pra me buscar.” Então ela fuzilou Elizabeth com o olhar, como se tivesse encontrado alguma coisa nojenta grudada no sapato. “Que porra você tá usando?”, ela gritou. “Você tá maluca?”
A outra mão dela mergulhou na bolsa.
“Eu vou chamar a polícia pra sua louca de merda.” Ela já tinha puxado o celular quando eu dei um passo à frente.
“Ela não tá mentindo.”
Lauren congelou. A multidão inteira pareceu se inclinar para mais perto. Até o aperto da Elizabeth ficou mais firme, de surpresa.
Eu senti o peso de cada câmera apontada pro meu rosto enquanto as palavras ficavam suspensas no ar.
Engoli em seco, devagar. “Ela… tá grávida do meu filho.”
A frase arranhou a minha garganta, como cascalho.
“Lauren”, eu continuei, forçando as próximas palavras a saírem. “Eu amo a Elizabeth. A gente se ama.”
Algumas pessoas suspiraram, chocadas. Alguém murmurou: “Caramba.”
Lauren me encarou como se eu tivesse acabado de dar um tapa nela. Então ela deu um passo para trás, trêmula. “Não.”
Os olhos dela se encheram de lágrimas quase na hora.
“Não, você tá mentindo.” A voz dela falhou. “Você tá mentindo.”
A reação foi dramática o suficiente para que várias pessoas na multidão murmurassem, com pena.
Elizabeth afrouxou o aperto no meu braço. E, contra o meu bom senso, eu fui até Lauren.
Eu sabia qual era o papel que eu tinha que fazer. Então estendi a mão devagar. “Me desculpa”, eu disse baixo. “Eu não queria te machucar.”
Ela começou a chorar na hora. E não era um choro discreto. Eram soluços fortes, tremidos, que faziam os ombros dela sacudirem enquanto ela enterrava o rosto no meu peito.
“Você me traiu”, ela chorou. “Você me enganou, Reese. Como você pôde fazer isso comigo? Como você pôde me trair desse jeito?” As lágrimas dela encharcaram minha camisa. “Isso é tão injusto.”
Envolvi os ombros dela com um braço e dei tapinhas lentos nas costas.
Por fora, provavelmente parecia um noivo devastado consolando a mulher que acabara de destruir.
Por dentro, porém, eu só estava calculando quantos milhões de visualizações esse vídeo teria assim que caísse na internet.
— Eu sinto muito — murmurei.
Lauren se agarrou mais forte em mim. — Como você pôde fazer isso com a gente? — ela soluçou de novo, com o rosto enterrado na minha camisa.
Não existe “a gente”, Lauren. O pensamento atravessou minha mente antes que eu conseguisse impedir. Mas eu fiquei calado.
A gente estava noivo havia um ano, sim — mas era o tipo de noivado construído em jantares de negócios, sorrisos educados e duas famílias poderosas juntando interesses.
Amor nunca tinha entrado na conta. E Lauren sabia disso perfeitamente.
O que significava que aquelas lágrimas eram mais para o público.
Eu a conhecia bem o bastante para reconhecer a encenação. O surto. O tremor. O coração partido dramático.
Ela não estava só com raiva. Ela estava construindo simpatia. Fazendo a vítima. Assim que as câmeras sumissem, eu não tinha dúvida de que ela me despedaçaria em particular.
A mãe de Elizabeth pigarreou alto. — Então o que acontece agora? — exigiu.
Lauren e eu olhamos para ela.
— Você se mostrou um homem de princípios questionáveis — ela continuou, cortante. — Você engravidou minha filha enquanto estava noivo de outra pessoa. — Os olhos dela se estreitaram. — Você destruiu as chances de ela um dia se casar com um homem decente.
Elizabeth revirou os olhos atrás dela.
Então a mãe dela se virou para Lauren. — E está bem claro que você não está disposta a deixar ele ir. — Cruzou os braços. — Então o que acontece com a minha filha agora?
Lauren ergueu do meu peito o rosto manchado de lágrimas. A expressão dela endureceu na hora.
— Como a senhora ousa fazer uma pergunta tão insensível e idiota? — ela rebateu, ríspida.
As lágrimas sumiram como se alguém tivesse apertado um interruptor.
— Sua filha arruinou a minha vida! — Ela apontou para Elizabeth com hostilidade aberta. — Se alguém tem que ser expulsa dessa história, é ela!
— Lauren — eu sibilei. — Chega. — Minha paciência estava por um fio. — Para de fazer cena.
Elizabeth soltou um risinho de desprezo. — Com um temperamento desses — disse ela, fria — por que ele não viria até mim?
O queixo de Lauren caiu.
— É uma pena — Elizabeth continuou, com doçura — que o mínimo de decência não dê pra comprar com dinheiro.
Lauren engasgou.
— Vocês ouviram isso? — ela gritou, virando para a multidão como se eles fossem um júri. — Vocês ouviram o que ela acabou de me dizer?!
Eu passei a mão no rosto. — Lauren — eu disse, exausto. — Eu falei: chega.
Aquilo estava saindo do controle.
Duas mulheres furiosas. Uma mãe cada vez mais hostil. Uma plateia que parecia delirando com o drama. E câmeras ainda gravando tudo.
Se eu sobrevivesse a esse dia, seria nada menos que um milagre.
Então, como se tivesse sido convocado pelo próprio caos, vários policiais abriram caminho no meio da multidão.
Ótimo. Era só o que faltava.
Um deles deu um passo à frente, a voz firme. — Por favor, desocupem o local — anunciou. — Recebemos reclamações de tumulto em via pública.
Ele olhou de propósito para o aglomerado de celulares ao nosso redor.
— Vocês estão causando transtorno. Por favor, saiam imediatamente. — O policial olhou direto para mim. — Senhor, leve suas acompanhantes e vá embora.
Acompanhantes.
Olhei para a esquerda: Elizabeth, ainda agarrada ao meu braço. Depois para a direita: Lauren, ainda se segurando na minha camisa.
A multidão resmungou, decepcionada. Pelo visto, nosso show tinha sido interrompido. Minha mente correu.
Perfeito.
Agora eu tinha que tirar dali duas mulheres que, naquele momento, queriam arrancar os olhos uma da outra… sem piorar a situação.
Lauren ainda fulminava Elizabeth com o olhar. Elizabeth devolvia na mesma moeda. A mãe de Elizabeth parecia pronta para avançar em mim. E, de algum jeito, todas elas me encaravam como se eu tivesse que resolver aquilo.
Fantástico.
Isso queria dizer que eu teria que levar as duas pra casa? Continuar esse circo em algum lugar mais privado? Só de pensar, minha cabeça latejou.
Soltei o ar devagar. Ah, droga.
Se a gente saísse separado, a história desmoronava na hora. A mentira de Elizabeth cairia por terra e Lauren explodiria. A plateia sentiria o cheiro de sangue.
O que significava… que eu tinha que levar as duas comigo.
Ah. Ah, não. Eu soltei o ar de novo, devagar. — Bom — eu murmurei, quase inaudível.
Elizabeth levantou os olhos para mim. — O quê?
Olhei para ela… para Lauren… e então de volta para os policiais.
— Acho — eu disse, sombrio — que é aqui que a minha sanidade morre oficialmente.
Elizabeth franziu a testa. Lauren estreitou os olhos. Nenhuma das duas tinha entendido ainda. Mas iam entender… em breve.
Porque, em cerca de trinta segundos, eu ia dizer a frase mais perigosa da minha vida.
E, quando eu dissesse… as duas viriam para casa comigo.
