Capítulo 7 Esse caos
Capítulo 7: Esse Caos
Reese
Nunca, na minha vida, eu imaginei que ia acabar numa situação dessas. E olha que isso queria dizer muita coisa.
Eu já tinha me metido em um bocado de encrenca antes — brigas em boate que quase viravam troca de soco, situações complicadas que podiam ter acabado de vez com a minha relação com o meu irmão, festas que saíam completamente do controle. O caos, a essa altura, já era quase um velho conhecido.
Mas isso aqui? Não.
Nada no meu longo histórico de decisões ruins tinha me preparado para ficar preso no mesmo carro com duas mulheres que, naquele momento, queriam se destruir.
Lauren e Elizabeth. Ao mesmo tempo.
Se alguém tivesse me dito hoje de manhã que o meu dia ia terminar assim, eu teria rido na cara da pessoa.
E, ainda assim, ali estávamos.
Depois que os policiais chegaram e mandaram a gente dispersar, não tinha muito o que fazer. A multidão só aumentava, os vídeos com certeza já estavam circulando, e a última coisa que qualquer um de nós precisava era piorar tudo.
Então a gente foi embora.
E, assim que nos afastamos do espetáculo das câmeras e dos curiosos encarando, outro problema apareceu na hora.
Elizabeth não tinha para onde ir. Ela definitivamente não podia voltar para casa. Não depois do que tinha acabado de acontecer.
Eu tinha visto o olhar nos olhos da mãe dela. Raiva. Humilhação. Aquele tipo de ódio que cria raiz em famílias que valorizam a reputação acima de qualquer coisa. Se a Elizabeth voltasse para lá hoje à noite, duas coisas provavelmente iam acontecer.
No melhor dos casos, iam arrastá-la direto até o noivo e obrigá-la a pedir desculpas por ter humilhado ele. E eu nunca deixaria isso acontecer.
No pior dos casos...
Iam “arrancar” na porrada o filho imaginário dela. Ou iam bater nela até quase matar por ter envergonhado a família. De um jeito ou de outro, nada nessa possibilidade me descia.
Então, sendo o homem incrivelmente bondoso e infinitamente nobre que eu obviamente era, eu disse a ela que ela vinha comigo.
Tecnicamente… com a gente. E agora eu estava pagando o preço.
Lauren estava dura no banco do passageiro, os braços cruzados com tanta força sobre o peito que os ombros pareciam travados. Os lábios estavam apertados num bico permanente, e a cada poucos segundos ela lançava um olhar assassino para o retrovisor.
Elizabeth, por outro lado, estava esticada no banco de trás, confortável, como se estivesse numa limusine em vez de numa panela de pressão.
As pernas cruzadas. Um par de fones cobrindo as orelhas. A cabeça balançando de leve no ritmo de alguma música que ela ouvia. Totalmente despreocupada.
O contraste entre as duas era quase impressionante. Lauren também percebeu.
Ela ficou encarando pelo espelho por alguns segundos, observando Elizabeth balançar ao som da música como se não tivesse acabado de explodir três vidas diferentes.
Aí ela surtou.
— Reese, isso não é justo! — A voz dela cortou o carro como um alarme de incêndio.
Eu fiz uma careta de leve, me arrependendo das minhas escolhas de vida.
— Por que você trouxe ela junto? — ela exigiu. — Por que você está fazendo isso comigo?
Elizabeth continuou balançando a cabeça no ritmo da música.
Lauren apontou de um jeito exagerado para o banco de trás. — Era pra ser um momento só nosso! E agora ela está aí, grudada, como um gato de rua que você pegou na calçada!
Apertei mais o volante.
— Me diz que você vai arrumar um apartamento pra ela — Lauren continuou, quase sem respirar. — Porque eu me recuso a ter ela no meu espaço. Era pra gente passar um tempo a sós, juntos. Eu não quero ver ela na minha casa!
Eu quase ri alto.
Meu espaço? Minha casa? Essa era nova.
Primeiro: o apartamento era meu.
Segundo: a ideia de que eu e a Lauren tínhamos uma coisa chamada “momento a sós” era quase cômica. Sempre que ficávamos sozinhos, uma de duas coisas invariavelmente acontecia.
Ou ela tentava subir no meu colo como um gato carente e me induzir a transar com ela...
Ou reclamava sem parar que eu não era “romântico o suficiente”.
E, aparentemente, no dicionário da Lauren, romântico o suficiente significava “tarado sob demanda”.
— Lauren — eu disse baixo, entre os dentes —, se controla. — Lancei um olhar rápido para a Elizabeth pelo espelho.
Ela continuava balançando a cabeça. Continuava muito tranquila.
— A gente está com uma visita — eu lembrei.
Lauren jogou as mãos para o alto como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais absurda do mundo.
— Tá vendo?! — ela gritou. — Tá vendo exatamente do que eu estou falando?!
A voz dela subiu uma oitava.
“Já tá acontecendo! Meu Deus, Reese, a gente não consegue mais nem conversar sem se preocupar com os sentimentos da sua amante!”
Mantive os olhos na estrada. “Ela não é minha amante”, eu disse, calmo. Depois acrescentei, de propósito: “E não esquece — tecnicamente, a gente ainda nem é casado.”
Lauren me encarou como se eu tivesse acabado de dar um tapa nela.
“Além disso”, continuei, no mesmo tom, “você nem pode dizer que eu não avisei.”
Ela piscou.
“Antes de tudo isso, eu te falei que tinha outra pessoa na minha vida. Eu deixei isso bem claro.”
A boca dela se abriu.
“Mesmo assim, você insistiu em seguir em frente.” Eu disse. “Então não dá pra culpar ninguém além de você pelo que tá acontecendo agora”, concluí.
O carro ficou em silêncio por um instante.
Então olhei de novo para o banco de trás. “Então, por favor, para de gritar com ela.” Fiz uma pausa rápida. “Ela tá grávida. Você não devia estressar ela.”
Lauren pareceu alguém em quem jogaram um balde de água gelada. Aí, devagar, ela cruzou os braços de novo. Virou o rosto para a janela. E começou a chorar. Alto.
“Você sempre faz isso comigo”, ela soluçou. “Você sempre me machuca e me humilha.”
Suspirei.
“E você faz isso porque sabe que eu nunca vou te deixar!” ela continuou, dramática. “Porque você sabe que eu te amo!”
Revirei os olhos. “Lauren”, eu disse, seco, “para de chorar.”
Ela sacudiu os ombros, com raiva. “Não fala comigo!” ela estalou. “Por que você tá se importando, afinal?!”
Soltei o ar bem devagar. “Lauren… para de agir como uma criança.”
Ela não respondeu. Claro que não. O tratamento do silêncio era a arma favorita dela.
Sempre que Lauren não conseguia o que queria, ela se fechava completamente — esperando que a culpa, em algum momento, me empurrasse a fazer exatamente o que ela queria.
Dessa vez? Ela queria Elizabeth fora. De preferência, imediatamente.
Infelizmente pra ela, isso não ia acontecer. Não hoje. Não até eu descobrir como sair dessa situação complicada.
O carro seguiu em um silêncio tenso por alguns segundos. Então, de repente, Elizabeth caiu na risada.
Eu e Lauren viramos ao mesmo tempo. Eu só olhei por um instante antes de voltar a atenção para a estrada.
Elizabeth tirou os fones de ouvido, ainda sorrindo. “Não vai rolar, querida”, ela disse, animada.
Lauren encarou Elizabeth como se ela tivesse acabado de sair do porta-malas.
“E qual é a desses ataques de pelanca?” Elizabeth continuou. “Você tem o quê, cinco anos?” Ela bufou, rindo pelo nariz.
A cabeça de Lauren virou num tranco. “Reese, você ouviu isso?!” ela guinchou.
“Eu não sou surdo”, murmurei.
“Eu não vou aceitar esse desrespeito!” Lauren continuou, furiosa. “Meu pai vai ficar sabendo disso!”
Elizabeth se inclinou um pouco pra frente, divertida.
“E não pense que eu não vou contar pro General também!” Lauren acrescentou, venenosa. A voz dela escorreu em ameaça. “Essa miserável vai se arrepender muito quando eu terminar com ela.”
Eu gemi.
“Lauren”, eu disse, esfregando a têmpora com uma mão enquanto dirigia com a outra, “você pode pegar mais leve comigo? Pra mim também não tá sendo fácil.”
Ela bufou e voltou a encarar a janela. “Isso é tudo culpa sua. Eu fico me perguntando o que foi que te atraiu nela.”
“Aiinn”, Elizabeth cantarolou com deboche do banco de trás. “O nenenzinho tá bravinho?”
Lauren congelou.
“Quer uma balinha?” Elizabeth continuou, docinha.
Mordi o lábio pra segurar a risada que queria escapar. “Elizabeth”, eu avisei, “para. Você tá piorando as coisas.”
Ela revirou os olhos. “Então controla a sua namoradinha”, ela devolveu. “Não espera que eu fuja de briga.”
Lauren virou de novo. “E não pense que eu não vou brigar pelo meu homem!” ela disparou.
Elizabeth deu uma risadinha de desdém. “Seu homem?” ela disse, incrédula. Ela se recostou no banco com um sorriso presunçoso. “Você queria.”
O rosto de Lauren ficou vermelho.
“Ele me assumiu”, Elizabeth acrescentou, confiante.
“Ele vai casar comigo!” Lauren sibilou.
Elizabeth inclinou a cabeça. Então sorriu devagar. “Ah, é?” Ela bateu de leve no queixo, pensativa. “Cadê o anel, querida?”
Lauren ficou muda.
A vitória no rosto de Elizabeth foi imediata.
Eu gemi e pisei mais no acelerador. Se a primeira hora estava assim… eu tinha medo de imaginar o que vinha pela frente.
Porque alguma coisa bem no fundo do meu estômago me dizia uma coisa com absoluta certeza.
Esse caos? Essa insanidade? Essa guerra entre duas mulheres que se recusavam a recuar?
Tava só começando.
