Capítulo 8 Focus, Reese
Capítulo 8: Foco, Reese
Reese
Quando entramos na garagem subterrânea do nosso prédio, um daqueles edifícios altos cheios de apartamentos, a tensão dentro do carro já tinha engrossado a um ponto quase insuportável.
Eu tinha chegado ao meu limite — e com toda a razão.
Não era o tipo de irritação comum com que eu estava acostumado a lidar. Não era aquela raivinha administrável que vinha de compromissos forçados, de um pai insuportável ou até dos dramas ocasionais da Lauren.
Não.
Era aquele tipo de cansaço que se infiltra até os ossos — o tipo que surge quando você cai numa situação tão absurda que o seu cérebro ainda não aceitou totalmente que aquilo é real.
Porque, se alguém tivesse me dito hoje de manhã que, ao anoitecer, eu estaria voltando pra casa dirigindo com a minha noiva furiosa no banco da frente e a mulher que tinha acabado de afirmar, em público, que estava grávida do meu filho no banco de trás, eu teria expulsado a pessoa da sala na base da risada.
E, ainda assim, ali estávamos nós — os três presos nessa farsa — e eu sentia as paredes se fechando.
O que tinha começado como um favor simples pra Elizabeth, um fantasma do meu passado que tinha reaparecido com um pedido que eu não consegui ignorar, tinha virado uma catástrofe completa.
Lauren não esperou nem o motor morrer de vez antes de escancarar a porta do passageiro e sair.
Ela bateu a porta com tanta força que o carro inteiro balançou, e o estrondo metálico ecoou pelas colunas de concreto.
Por um instante, eu realmente achei que a porta ia arrebentar nas dobradiças.
Algumas pessoas viraram a cabeça — moradores descarregando sacolas de mercado ou indo pros próprios carros pararam pra olhar, com aquela mistura de curiosidade e julgamento reservada pra espetáculo público.
Maravilha. Era tudo o que eu precisava: mais plateia.
Lauren nem olhou pra trás. Ela marchou em direção à entrada do prédio como uma nuvem carregada, os ombros duros de raiva.
Já a Elizabeth lidou com o caos com uma diversão surpreendente.
Ela soltou uma risadinha baixa, melodiosa, enquanto descia do banco de trás, sem pressa nenhuma — como se estivesse descendo de uma carruagem de outros tempos.
Eu abri o porta-malas e puxei as malas delas — a mala de rodinhas de grife da Lauren e a da Elizabeth, bem mais simples.
Elizabeth se colocou na minha frente, braços cruzados no peito, um sorriso travesso brincando nos lábios. Os olhos dela brilhavam de malícia.
— Não me diga que é isso que você aguenta — ela disse, com um tom de provocação que, de algum jeito, conseguiu atravessar o constrangimento.
Fechei o porta-malas com um baque, um som quase abafado perto da saída dramática da Lauren.
— Quer saber? Você acabou de piorar tudo — minhas palavras saíram mais cortantes do que eu pretendia, carregadas da frustração de quem já estava esgotado.
O sorriso dela se abriu ainda mais quando ela inclinou a cabeça, pensativa, me estudando como se eu fosse um experimento interessante.
— Você não tem medo de que um dia ela te mate enquanto você dorme? — insistiu Elizabeth, meio brincando, meio falando sério, como se estivesse testando até onde ia a nossa intimidade ressuscitada.
Eu balancei a cabeça.
— Não. Pelo menos eu finalmente vou descansar em paz.
Ela riu de novo, um som verdadeiro que ecoou na penumbra da garagem. Aquilo desarmava, me puxando de volta pra lembranças que eu tinha enterrado fazia tempo — nós dois enroscados nos lençóis.
Mas aquele tempo já tinha passado há muito, estilhaçado por traição e pelo tempo. Eu puxei o ar.
— Você oficialmente deixou minha vida muito mais difícil do que já era. Como é que a gente sai dessa?
Começamos a caminhar em direção à entrada do prédio, as rodinhas das malas ressoando no chão irregular.
Elizabeth deu de ombros e acompanhou meu passo, com uma naturalidade despreocupada que ao mesmo tempo me irritava e me intrigava.
— Eu não sei. Mas obrigada por não ter me ignorado naquela época, considerando... tudo o que aconteceu entre a gente no passado. Do fundo do coração, obrigada.
As palavras dela ficaram suspensas no ar, cheias de história não dita. A despedida tinha sido brutal.
Tinha sido uma tempestade de mentiras, lágrimas e arrependimentos que deixou marcas em nós dois. Eu tinha seguido em frente — ou pelo menos era o que eu dizia pra mim mesmo —, mas ver Elizabeth ali, vulnerável e ainda assim desafiadora, mexeu com alguma coisa lá no fundo.
Eu olhei pra ela.
— Mas a gente vai precisar de uma explicação mais rápida, porque “obrigada” não vai resolver — eu disse, baixo, enquanto atravessávamos as portas automáticas e entrávamos no saguão. — Você não vai conseguir fingir uma gravidez pra sempre. Você sabe disso.
Ela deu um tapinha na própria testa.
— Eu sei, eu sei. E eu sinto muito mesmo por te arrastar pra minha bagunça.
Eu balancei a cabeça.
— Já passou um pouco da hora de se arrepender. O estrago já foi feito — meu tom saiu resignado, mas por dentro uma tempestade rugia. — Eu tô fodido de qualquer jeito.
Nós nos aproximamos dos elevadores, e Elizabeth acelerou o passo pra apertar o botão.
Enquanto ela fazia isso, senti meu olhar escorregar para baixo, atraído pela curva do quadril dela, pelo balanço do jeito de andar — ao mesmo tempo familiar e proibido. As lembranças voltaram com força na mesma hora.
A pele dela exposta, o calor do corpo dela contra o meu, o jeito como ela se arqueava sob o meu toque. Arranquei meus olhos dali, um gemido preso por dentro enquanto eu implorava a mim mesmo para manter o foco.
Foco, Reese. Não vai por esse caminho.
Não era hora de me distrair. A Lauren provavelmente já estava lá em cima, fervendo de raiva e planejando o próximo passo.
O elevador chegou com um ding suave, e nós entramos. O espaço era íntimo; as paredes espelhadas devolviam nossas imagens — e a tensão só aumentou naquele aperto.
Eu conseguia até sentir o perfume dela, uma nota floral discreta que puxava meus sentidos e deixava ainda mais difícil me concentrar.
— Então... — Elizabeth começou, a voz dela quebrando o silêncio quando se virou para mim. — Você... falou com a Sav e o Roman? Ultimamente?
A pergunta me pegou desprevenido.
— Sim — respondi, ajeitando o peso das sacolas. — A gente se fala com frequência. — Observei o rosto dela, reparando na leve queda dos lábios. — Você não?
Ela balançou a cabeça, o cabelo acompanhando o movimento de leve.
— Não muito. A gente não se fala desde... aquela vez. — A voz dela foi sumindo.
Eu pigarreei, o som ficando deslocado no silêncio do elevador.
Eu sabia exatamente do que ela estava falando: o dia em que tudo desmoronou.
— Ah, entendi. — Ansioso para mudar o foco, emendei rápido: — Então você ainda não conheceu os gêmeos.
O rosto dela clareou um pouco; um sorriso pequeno puxou os cantos da boca. Era um sorriso de verdade, suavizando as feições e me lembrando da garota que um dia chamou a minha atenção.
— Ainda não. Mas a Alyssa mandou fotos. Eles são uma gracinha — ela disse.
Havia uma nota saudosa na voz dela, um traço de desejo que fez meu peito apertar.
O elevador deu um tranco leve enquanto subia e, naquele momento, só nós dois ali dentro, o desconforto se intensificou.
Pensamentos sujos entraram sem serem convidados. Eu mudei de posição, tentando criar distância naquela caixa estreita, mas isso só me deixou mais consciente da proximidade dela.
Sem a Lauren para servir de barreira, sem distrações — só nós, e as memórias do que a gente tinha feito.
— Então... — ela arriscou de novo, num tom mais leve, mas investigativo. — Você vai casar. Por que ela não tem anel? — Elizabeth inclinou a cabeça, a curiosidade brilhando nos olhos. — Desculpa se eu estiver me metendo demais.
Hesitei.
— É um pouco complicado. — As palavras pareceram insuficientes, mas era o que eu tinha. — A gente não... não se ama. Meu pai e o dela combinaram. Tudo.
Ela me analisou com cuidado.
— E você vai simplesmente aceitar? — a voz de Elizabeth subiu um pouco, carregada de incredulidade. — Assim, do nada?
Dei de ombros.
— Como eu disse antes, é complicado, Elizabeth. Não tenta entender.
As portas do elevador se abriram com um sinal, revelando o corredor polido do meu andar.
Elizabeth estreitou os olhos com malícia, uma faísca de desafio acendendo ali.
— Bom — disse ela, saindo —, é melhor você avisar ela para não entrar no meu caminho.
Eu segui Elizabeth pelo corredor.
— Eu não tô nem aí pra quem é o pai dela.
Fui atrás, suspirando quando as portas se fecharam às nossas costas.
— Você sabe que acabou de piorar tudo — eu disse, minha voz ecoando um pouco. — Pelo menos eu podia ter lidado com a Lauren e... com as coisas um pouco melhor. Agora saiu tudo do controle.
Ela soltou uma risadinha pelo nariz e olhou por cima do ombro, sorrindo.
— Lidado? Tá bom. Pra mim você tava com uma granada na mão sem a menor ideia de como sobreviver à explosão.
O tom era provocador, mas havia uma sinceridade por baixo, como se ela realmente acreditasse que estava do meu lado nessa confusão.
— Você tem sorte de ter eu do seu lado — ela declarou.
Fiquei olhando para ela por um instante.
Tinha mesmo? A pergunta ecoou na minha cabeça quando nos aproximamos da porta do apartamento.
Ou eu tinha acabado de cometer o pior erro da minha vida?
Porque a verdade era que eu vinha “administrando” a Lauren muito bem antes de hoje.
Sim, ela era dramática. Sim, ela era exaustiva.
Mas ela era previsível.
A Elizabeth, por outro lado... era caos.
Do tipo que entrava na sua vida sorrindo e deixava a estrutura inteira pegando fogo atrás de si.
Tateei o cartão, o coração batendo forte numa mistura de expectativa e medo.
Quando a porta rangeu ao abrir, uma sombra se mexeu na sala logo adiante — Lauren.
Os olhos dela grudaram nos meus e depois foram para Elizabeth, se estreitando com um veneno que prometia vingança.
— A gente precisa conversar. No nosso quarto — ela sibilou, a voz como gelo estalando sob pressão. — Agora.
Antes que eu pudesse responder, Elizabeth deu um passo à frente, a mão roçando na minha num gesto que pareceu ao mesmo tempo provocante e possessivo.
O ar ficou pesado.
E, naquele instante, eu percebi que a verdadeira explosão estava só começando.
