Capítulo 9 Experimente-me

Capítulo 9: Me Provoca

Reese

O olhar de Lauren não saiu da mão de Elizabeth. Nem uma única vez.

Ela descansava sobre a minha com uma calma preguiçosa, os dedos desenhando pequenos círculos distraídos na minha pele, como se estivesse testando a textura de algo que ela já conhecia.

O toque não era acidental; era claramente um show.

Lauren acompanhava cada rotação lenta, cada pressão casual das pontas dos dedos, e quanto mais ela encarava, mais o ar do cômodo parecia apertar.

— Onde é o meu quarto? — perguntou Elizabeth, com a voz leve, inocente. Ela inclinou a cabeça na minha direção, cílios baixos. — Onde eu vou dormir hoje? Eu presumi… do seu lado.

Lauren puxou o ar num susto.

As mãos dela voaram para a cintura, as unhas cravando na própria pele. — Reese? — era metade pergunta, metade ordem.

Só o meu nome. Mas o significado por trás daquilo era cristalino. Eu sabia exatamente o que ela queria.

Coloca ela no lugar. Traça o limite. Diz que ela passou da linha.

Soltei o ar devagar e me virei para Elizabeth. — A Lauren dorme na minha cama — falei, num tom uniforme, já estendendo a mão para a alça da mala dela.

Por uma fração de segundo, eu poderia jurar que vi a máscara dela rachar. Não sei se fazia parte do teatro ou não. Nem deu tempo de pensar, porque Elizabeth se recompôs rápido.

Sumiu como se nunca tivesse estado ali.

As rodinhas sussurraram no piso enquanto eu puxava a mala em direção ao corredor. — Vem. Eu te mostro o seu.

Mas parei o suficiente para olhar de volta para Lauren.

Ela estava rígida no canto, as bochechas vermelhas e os olhos brilhando, úmidos.

— Me espera no quarto — eu disse. — Não vou demorar.

Elizabeth soltou uma risada de repente. Não baixa. Não discreta. Na verdade, o tom cantarolado deixava dolorosamente óbvio que ela não tinha a menor intenção de falar em segredo.

— Não faz promessas que você não pode cumprir, Reese. — Ela se inclinou mais perto, baixando a voz até virar um ronronar. — Você vai partir o coração dela agora.

A cabeça de Lauren virou num estalo na direção dela.

O sorriso de Elizabeth se alargou. — Quem disse que eu vou deixar você escapar tão rápido? Talvez eu precise de ajuda pra esfregar minhas costas.

Lauren explodiu. — Que porra foi que você acabou de dizer? — A voz dela subiu, esgarçando nas bordas.

Ela deu um passo à frente, depois outro, os punhos fechados ao lado do corpo. — Reese — nem pense em levar ela pra lugar nenhum. Só aponta. Aponta pro maldito quarto de hóspedes e pronto!

Eu continuei andando. — Vamos, Elizabeth.

Atrás de mim, a voz de Lauren falhou de novo. — Reese! Eu tô falando com você!

Parei, virando só a cabeça. — Você não manda em mim — eu disse baixo, as palavras carregando mais gelo do que eu pretendia. — Não tenta isso de novo.

Elizabeth riu outra vez, satisfeita. — Ouviu, Lauren? Ele disse que você não pode mandar nele. Só eu posso. Eu tô grávida dele.

A boca de Lauren literalmente ficou aberta.

Apertei mais a alça da mala e murmurei entre dentes: — E você… para de arrumar briga a cada cinco segundos.

O corredor pareceu mais longo do que deveria.

Quando chegamos ao quarto de hóspedes, empurrei a porta e me afastei para ela entrar primeiro.

Elizabeth se moveu devagar, catalogando cada detalhe: os lençóis cinza-ardósia, o vasinho de cerâmica em cima da cômoda.

O quarto não era pequeno. Era espaçoso, limpo, moderno e confortável. Uma cama grande, uma cômoda e uma janela ampla com vista para o horizonte da cidade.

Eu me encostei no batente e cruzei os braços. — Sabe — eu disse, seco —, a maioria das pessoas diria “obrigada” um pouco mais rápido.

Ela passou a ponta do dedo na borda do criado-mudo, inspecionou o armário como se estivesse avaliando um imóvel e, por fim, virou para mim com um sorrisinho satisfeito.

— É perfeito — disse ela, baixinho. — Obrigada, Reese. De verdade.

Soltei o ar pelo nariz. — Bom. Eu venho ver como você tá mais tarde. — Virei em direção à porta.

— Espera.

Parei, com uma mão já no trinco. — Você precisa de alguma coisa?

Elizabeth entrelaçou as mãos atrás das costas. A autoconfiança brincalhona que ela tinha usado a noite inteira pareceu vacilar um pouco. Agora ela parecia menor, mais insegura.

— Por quanto tempo… eu posso ficar?

Eu franzi a testa, observando ela. — Como assim?

— Quero dizer… — Ela mordeu a parte de dentro da bochecha, os olhos descendo pro chão e voltando pros meus. — Eu tenho que sair tipo amanhã? Ou depois de amanhã? Semana que vem? Ou tudo bem se eu tiver um tempinho — só enquanto eu organizo as coisas? Me estabilizo de novo?

Cruzei os braços. — Define “um tempinho”.

Ela deu um meio sorriso sem graça. — Um mês? Talvez dois?

Ergui uma sobrancelha.

— Tá, tá… três? — O sorriso vacilou. — Eu não tenho pra onde ir agora. O Kenneth… — A voz dela baixou, e a brincadeira se esvaziou. — Ele vai me achar. Mesmo que eu me enfie num buraco e puxe a terra por cima, ele vai me achar.

Aquilo chamou minha atenção. Eu vinha me perguntando sobre isso. Como diabos ela tinha acabado enroscada com alguém daquele tipo.

“O que exatamente está rolando com esse Kenneth e todo esse… clã?” perguntei. “Eles são máfia? Cartel? Algum tipo de exército particular?”

Ela soltou um suspiro longo, cansado, e se sentou na beirada da cama. “É uma história longa e feia. Eu não quero trazer isso pra dentro daqui hoje.” Ela ergueu os olhos pra mim. “Ele é um babaca com quem eu saí uma vez. E eu acabei jogando vinho nele. Essa é a versão curta.”

Eu quase sorri.

Ali estava ela — a Elizabeth de quem eu me lembrava, a que cortava a enrolação com uma única frase direta.

Assenti uma vez. “Descansa um pouco.”

O sorriso dela voltou. “Obrigada, Reese. Por tudo.”

Eu respondi com um aceno seco, abri a porta e saí pro corredor. A coisa estranha era que eu não queria ir embora.

Não de verdade.

Parado ali, com a mão ainda na maçaneta, eu senti a vontade de voltar, de me sentar aos pés daquela cama e simplesmente conversar.

A Elizabeth era fácil de lidar de um jeito que a Lauren nunca conseguiu ser.

A Lauren, por outro lado, quase com certeza estava andando de um lado pro outro no meu quarto agora, com o batom já engatilhado como um míssil, pronta pra atirar no segundo em que eu cruzasse a porta.

Puxei o ar devagar, me preparando, e girei a maçaneta.

O tubo de batom coral acertou o batente da porta a poucos centímetros da minha têmpora e caiu no chão com um barulho seco. Eu me abaixei por puro reflexo — tarde demais, mas o movimento me salvou de algo pior do que um ego machucado.

“Demorou tudo isso só pra levar aquela putinha pro quarto dela?” A voz da Lauren era aguda o bastante pra estourar vidro.

Fechei a porta atrás de mim e me lembrei — pela centésima vez naquela noite — de que violência não era uma resposta aceitável à provocação.

E, mais importante, que ela era uma mulher. Uma mulher profundamente irritante. Mas ainda assim, uma mulher.

“Não chama ela assim”, eu disse. “A Elizabeth não é puta. Para de falar como se tivesse sido criada no meio de briga de boteco.”

Lauren avançou até ficarmos cara a cara, os olhos em chamas. “Então o que ela é?!”

Eu me desviei dela e fui até o armário, pegando uma camiseta limpa e uma calça de moletom.

“Reese.” Ela bateu o pé uma vez, com força. “Eu tô falando com você.”

“Quando você conseguir falar como uma adulta, em vez de uma criança fazendo birra, eu escuto.” Eu desabotoei a camisa e a joguei em direção ao cesto de roupa suja.

Lauren me encarou como se eu tivesse enlouquecido.

“Você é inacreditável. Você deixou ela entrar aqui toda toda. Você deu um quarto pra ela. Ela ficou ali — na minha frente — e disse que você ia ajudar a esfregar as costas dela. Você tá mesmo pensando em fazer isso? É isso que você vai fazer agora?”

Minha paciência finalmente estourou.

Virei devagar, com os braços cruzados no peito. “Se você não estivesse se afogando em ciúmes, talvez tivesse percebido que eu estou prestes a tomar banho. Sozinho. Porque eu estou cansado, Lauren.”

A boca dela abriu, fechou, abriu de novo. No começo, nenhum som saiu. “Você está escolhendo ela.”

“Eu estou escolhendo paz”, eu sibilei. “E, agora, você é o oposto de paz.”

Ela se encolheu como se eu tivesse dado um tapa nela.

“E se é só isso que você vai fazer — reclamar, gritar e arrumar briga — então cai fora da minha casa.”

Lauren parou, imóvel.

“Para de se enfiar onde você não pertence”, continuei, duro. “Ela não vai a lugar nenhum. E quanto mais cedo você entender isso, Lauren, melhor pra você.”

Ela parecia ter levado uma pancada. Mas as palavras continuaram saindo.

“Para de sugar a minha vida”, eu disse. “O que você está tentando fazer? Me matar?”

Eu continuei, a represa dentro de mim finalmente cedendo.

“Quer saber do que eu estou cansado? Eu estou cansado de a minha casa virar uma zona de guerra sempre que você aparece. Eu estou cansado de ver você procurando motivos pra se sentir ameaçada e maltratada.”

Lágrimas se acumularam nos olhos dela. O lábio inferior tremeu, mas ela não enxugou. Deixou as lágrimas ali, brilhando, transformadas em arma.

Apontei para a porta. “Arruma suas coisas. Liga pro seu pai. Volta pra sua casa no morro, onde ninguém nunca faz você se sentir insegura. Some daqui.”

Uma lágrima finalmente escorreu. Mas ela ainda não se mexeu.

Eu esperei.

Então — baixinho, quase num sussurro — “Você não quer dizer isso…”

“Duvida de mim.”

Ela procurou no meu rosto por um bom tempo, buscando uma brecha. Dessa vez, não tinha nenhuma. Devagar, ela se virou em direção à porta.

Soltei o ar, aliviado. Finalmente.

Quando chegou à porta, ela parou, com a mão na maçaneta, de costas pra mim. “Se eu sair agora”, ela disse sem se virar, “eu não vou voltar.”

“Então não volta”, eu disse. “Vai.”

Ela esperou mais um instante — dois — três — me dando uma última chance de voltar atrás. Eu não voltei.

Lauren abriu a porta e entrou no corredor.

E, pouco antes de a porta se fechar atrás dela, ela falou de novo. “Você vai se arrepender disso, Reese. Você diz que quer paz. Mas eu estou te avisando: aquela garota só vai te trazer problema.”

A porta se fechou. Eu soltei o ar e caminhei até o banheiro. Mas não abri a água.

Em vez disso, encostei a testa na parede de azulejos fria e me perguntei — só por um segundo — se a Lauren tinha razão.

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