Capítulo 1

POV da Sienna

Nascer filha dos Moretti significa uma coisa: a família é dona de você.

Na minha vida passada, a Vivian achou que tinha o que era preciso. Prometeu pro papai que dava conta, jurou de pés juntos que ia deixar ele orgulhoso. Seis meses depois, tinha torrado o trabalho de três gerações e deixou a gente sem nada — só uma carcaça vazia. Nossos inimigos acabaram encontrando ela. Quebraram as duas pernas dela.

E eu? Eu me casei com Marco Rossi.

Todo mundo me invejava por ter entrado numa das famílias mais poderosas da cidade. O que ninguém sabia era que eu era prisioneira dele. Ele me usou, transformou as conexões da minha família em degraus pra ele mesmo, gastou meu dinheiro com as amantes, usou meu corpo como moeda de troca nas negociações.

No fim, foi a Vivian que me matou. Com inveja da minha “vida perfeita”, ela se arrastou naquelas pernas quebradas e meteu uma bala em mim.

Quando eu abro os olhos de novo, estou sentada no escritório do papai.

A porta se escancara. Vivian entra feito um furacão, me cortando antes que eu consiga falar. — Pai! Eu vou casar com o Marco Rossi! Passa a família pra Sienna!

Eu olho pra ela e sorrio.

Dessa vez, eu vou sobreviver. E vou fazer muito mais do que só sobreviver.


Eu me sento no sofá, girando uma arma nas mãos. Dois documentos estão sobre a mesa: os papéis da herança da família e o contrato de casamento com a família Rossi.

Eu estou prestes a responder quando Vivian empurra a porta, a voz estridente. — Pai! Eu não quero comandar nada! Eu quero casar com o Marco Rossi!

O velho conselheiro pisca. — Senhorita Moretti, a senhorita não estava dizendo, só na semana passada, que queria assumir?

Vivian faz um gesto de desdém. — Aquilo era só conversa. Tocar a família? Ah, por favor. Fácil demais. Nenhum desafio. — Ela lança um olhar pra mim. — Essas coisas chatas são perfeitas pra Sienna. Ela sempre foi CDF com livro-caixa e regras mesmo.

Ela se vira pro papai. — Eu quero fazer algo que realmente importe. Tipo fisgar um homem com poder de verdade. Marco Rossi saiu de filho bastardo pra herdeiro na unha. Esse é o tipo de cara que vale meu tempo. Essas mulheres que casam com eles e são tratadas como lixo? A culpa é delas. Ficam brincando de princesinha e chorando por tudo. Óbvio que passam por cima delas.

— Uma mulher inteligente sabe como conduzir um homem. Eu vou fazer ele precisar de mim. Vou botar as mãos em tudo que os Rossi têm. Quando Moretti e Rossi estiverem unidos, quem é que vai ter coragem de encostar na gente?

Ela me encara. — Sienna, você fica aí com a administração da família. Quando você estiver se afogando em política e guerra por território, você vem implorar. Quem sabe, se eu estiver generosa, eu deixo você servir bebidas numa das minhas festas.

Eu sorrio. — Claro. Mal posso esperar.

Meu pai fica em silêncio por um instante e então desliza o contrato de casamento na direção da Vivian. — Se é isso que você quer.

Vivian agarra os papéis e praticamente flutua para fora da sala.

O conselheiro olha para mim. — Senhorita Sienna, você...

— Eu vou assumir a família. — Eu guardo a arma no bolso e me levanto. — A partir de hoje.

Três dias depois, Vivian se casa e entra para a família Rossi. E eu estou do lado de fora de um cassino caindo aos pedaços no Distrito Sul.

Esse é o primeiro teste do meu pai. “Você dá conta desse lugar, e a família é sua.”

Passei três dias e três noites estudando tudo. Esse cassino fica longe demais do nosso território principal, a administração é um desastre há anos, e meu pai basicamente tinha riscado o lugar do mapa. Agora, uns bandidinhos locais tomaram conta e não respondem a ninguém.

Eu empurro a porta e entro. Alguns caras ficam largados em volta de uma mesa de cartas.

Um deles ergue o olhar. — Quem diabos é você? Tá perdida?

— Eu sou uma Moretti. A segunda filha. — Eu caminho para dentro. — Vou assumir este cassino.

Silêncio. Aí, risadas.

— Ha! O senhor Moretti mandou uma garotinha? — O cara se levanta, estendendo a mão na direção do meu rosto. — Quer saber, princesa? Fica fazendo companhia pra gente um tempinho, e talvez a gente converse.

Eu agarro o pulso dele e torço. O estalo é seco. Ele grita. Eu chuto o joelho dele e ele desaba.

Eu encaro cada rosto na sala.

— Nova administração — eu digo. — A partir de agora.

Eu arranco as regras antigas e reconstruo tudo do zero. Duas semanas depois, os lucros triplicam.

Meu pai não consegue parar de sorrir. Na reunião da família, ele anuncia que eu vou assumir oficialmente todas as operações dos Moretti.

Mas eu sei que isso é só o começo.

Hora de pensar maior. Como o leilão de hoje à noite. Todas as famílias grandes da cidade vão estar lá. As pessoas com poder de verdade. As mesmas que nos despedaçaram na minha vida passada. Todas no mesmo lugar.

O leilão é numa mansão ao norte da cidade.

Mal pego minha taça de champanhe quando avisto Vivian e Marco.

Ela está agarrada ao braço dele, exibindo-o para os convidados. Quando me vê, vem direto na minha direção.

— Sienna! — A voz melosa, doce demais. — Meu Deus, fazia séculos! E essa coisa de “assumir a família”, como tá indo? Ouvi dizer que você tá atolada até o pescoço. Guerra de gangues, drama interno, lidando com todos aqueles dinossauros... — Ela suspira. — Pra quê se torturar assim? Não seria mais fácil arrumar um homem bom pra cuidar de você? Mas enfim... nem todo mundo tem essa sorte.

Marco assente com educação. Mas, enquanto Vivian fala, eu pego ele franzindo a testa.

Marco é um filho bastardo. Ele odeia qualquer coisa que ameace o que ele construiu.

E a Vivian? Ela fala demais. Numa família daquelas, ela é boa demais em fazer inimigos.

Quero ver por quanto tempo ela vai conseguir manter isso.

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