Capítulo 2
POV da Sienna
Eu não respondo. A Vivian percebe que eu estou ignorando, solta mais algumas ofensas e arrasta o Marco para longe.
Pouso minha taça de espumante e circulo pelo salão. Depois de passar pelo papo furado de sempre com alguns chefes de família, os funcionários conduzem todo mundo aos seus lugares. As luzes diminuem. O leilão começa.
A maior parte do que está exposto é inútil para as famílias daqui. Vasos antigos, joias de edição limitada, obras de arte. Tudo só para aparência.
A Vivian claramente não vê assim.
Ela dá lance em qualquer coisa que chama a atenção. Colar de diamantes. Brincos de jade. Um atrás do outro. Mesmo quando outra pessoa está disputando, ela não recua até o outro desistir.
Ela está se divertindo como nunca. Mas eu vejo a expressão do Marco ficando mais sombria a cada minuto.
A mão dele aperta o apoio da poltrona, o maxilar travado. A qualquer momento ele vai cortar isso.
Entra mais uma peça. A Vivian está prestes a dar um lance quando alguém num canto levanta a plaquinha.
Mesmo assim, ela insiste. Marco segura a mão dela com força.
— Chega — ele murmura.
A peça fica com o desconhecido.
A Vivian fica possessa. Ela não pode descontar no Marco, então vira contra o vencedor. Ela se levanta num pulo e, antes que o Marco consiga impedir, já está gritando:
— Quem você pensa que é pra dar lance contra mim? Você sabe quem eu sou? Eu casei na família Rossi! Nesta cidade, ninguém me enfrenta! Tá querendo morrer?
Silêncio absoluto.
Eu fecho os olhos. Idiota.
— Que bela atitude.
A voz vem de um camarote no segundo andar. Baixa, fria, pesada.
— Ameaçando pessoas no meu leilão?
A porta do camarote se abre. Um homem sai, com algumas pessoas atrás. Sussurros se espalham pelo salão. “Vincent Castellano.” “O herdeiro dos Castellano.”
Meus olhos se fixam nele.
Os Castellano. Uma das famílias mais poderosas desta cidade. Controlam os portos, o transporte marítimo, metade do submundo. Ninguém mexe com eles sem pensar duas vezes. E Vincent Castellano é o herdeiro de tudo isso.
Ele para diante da Vivian e do Marco. A voz dele corta como gelo.
— E você é?
O Marco está suando. Ele se levanta num salto, quase tropeçando nas próprias pernas.
— Sr. Castellano! Marco Rossi. Esta é minha esposa. A culpa foi minha, eu devia ter parado ela. A gente acabou de começar aquele negócio no Porto Sul—
— Cancelado. — Vincent o interrompe.
O Marco empalidece.
Vincent se volta para a Vivian.
— Qual é o seu nome? Por que você está causando confusão no meu evento?
É aí que a Vivian percebe a besteira que fez. Ela está tremendo, mal consegue falar.
— Eu sinto muito… eu não… desculpa…
Vincent lança um olhar gelado para o Marco.
— Se você não consegue controlar sua esposa, não traga ela para fora.
Eu suspiro. Se eu não me meter agora, ela vai afundar a família inteira junto.
Eu me levanto e caminho à frente.
— Sr. Castellano. Eu peço desculpas.
A atenção dele se volta para mim.
— O nome dela é Vivian Moretti. Ela é minha irmã. Acabou de se casar com a família Rossi há poucos dias. — Eu mantenho a voz firme. — Nossos pais mimaram ela a vida toda. Ela não conhece as regras. A culpa é da nossa família. A gente devia ter ensinado melhor.
Vincent me observa por alguns segundos.
— Eu ouvi falar disso. — O tom continua neutro.
— Para reparar, eu pago o valor daquela peça. E, se o comprador foi prejudicado, eu peço desculpas pessoalmente.
— Esperto. — Vincent faz um gesto com a mão. — O leilão acabou.
As pessoas começam a sair. O Marco parece que quer matar alguém. Ele agarra o braço da Vivian e praticamente a arrasta para fora.
Eu solto o ar. Deve acabar por aqui.
Estou prestes a ir embora quando Vincent fala:
— Qual é o seu nome?
Eu me viro.
— Sienna Moretti.
Uma jovem ao lado dele se anima.
— Eu conheço ela! Você é a que arrumou aquele cassino no Distrito Sul, né? Eu ouvi que estava um caos e você virou o jogo em tipo duas semanas!
Vincent me encara.
— É verdade?
Eu hesito, depois faço que sim com a cabeça.
— Bom trabalho. — Ele faz uma pausa. — Tem interesse em trabalhar com a gente?
Eu travo. Levo um segundo para entender.
A garota se mete, empolgada:
— Meu irmão nunca elogia ninguém! Se ele tá perguntando, é porque ele acha que você é de verdade. Diz que sim!
Eu saio do transe e balanço a cabeça rápido.
— Claro. Seria uma honra.
Vincent tira um cartão do paletó e me entrega. A garota pega o celular e nós trocamos números.
— Eu sou a Aria! — ela diz, baixinho. — Vamos nos falar!
Eles se viram e vão embora.
Eu observo as costas do Vincent enquanto ele sai.
Os Castellano. Na minha última vida, quando nossa família desmoronou, eles assistiram. Depois se apropriaram do que sobrou. Desta vez, eu fiz a conexão primeiro.
E a Vivian? Ela acabou de custar ao Marco uma parceria e o orgulho. Hoje à noite, quando chegar em casa, ela vai pagar por isso.
Eu aperto o cartão na mão. Não consigo evitar um sorriso.
A balança finalmente está virando.
