Capítulo 3

POV da Sienna

Finalmente, as coisas estão começando a dar certo pra mim.

Nos meses seguintes, eu não desperdiço a oportunidade que o Vincent me deu.

Eu corro com a expansão de território. Aquelas áreas em que a gente não podia nem encostar antes? Com o nome Castellano me bancando, agora eu tenho poder de verdade na mesa de negociação. Eu derrubo o esquema antigo e reconstruo. Sai o modelo velho de “proteção”, entra logística e operações de entretenimento. O acordo do porto traz mais do que lucro. Traz respeito.

O Vincent também cumpre a palavra. Ele me apresenta a parceiros sólidos, abre portas em que eu nem podia bater antes. Em troca, eu abro mão de uma parte do lucro, mas o que eu ganho de volta é uma mudança completa do nosso patamar.

Em poucos meses, a gente sai de segunda categoria pra primeira. Ainda não estamos no nível dos Castellano, mas agora a gente consegue sentar à mesma mesa que os Rossi.

Falando nos Rossi, eles estão passando um perrengue.

Depois daquela noite no leilão, o Vincent cortou relações com eles. Perder aquela parceria fez a família desmoronar por dentro. Aquela turma da velha guarda já odiava o fato de o Marco ser um filho bastardo que chegou ao topo na unha. Agora eles estão usando isso pra cair em cima dele de vez. A posição dele está por um fio.

O que corre por aí é que ele está se virando pra fechar acordos novos, tentando tapar o rombo. O problema é que, quando você compra briga com os Castellano, ninguém quer ficar muito grudado em você.

E a Vivian? Dizem que o Marco está fazendo a vida dela virar um inferno.

Não dá pra dizer que eu sinto pena. Ela escolheu esse caminho. Que rasteje por ele.

Hoje à tarde, eu estou analisando contratos quando minha assistente bate na porta. “Senhorita Moretti, o senhor Castellano está aqui.”

Eu pisco. Vincent?

Ele entra com um terno impecável, dá uma olhada pelo meu escritório. “Bonito.”

“Sr. Castellano. O que te trouxe aqui?”

“Passei por perto.” Ele se senta no sofá. “Ouvi dizer que você tem ido bem. Aqueles novos pontos de entretenimento que você pegou estão rodando liso.”

Eu sirvo café pra ele. “Eu te devo essa. Sem aqueles contatos, eu não teria me firmado tão rápido.”

“Você tem talento. Recurso é só ferramenta. O que importa é saber usar.”

Eu sorrio e me sento na cadeira à frente dele.

Aí o escritório fica quieto.

Ele encara o café. Eu encaro os papéis na minha mesa. Nenhum dos dois fala nada.

“Então… tempo bom esse que a gente anda tendo.” Eu forço as palavras a saírem.

“É.”

“Você tem estado ocupado?”

“Nem tanto.”

Silêncio de novo.

Eu respiro fundo e vou direto ao ponto. “Olha, pra te agradecer por tudo… posso te levar pra jantar?”

Vincent levanta os olhos. A boca dele puxa de leve num canto. “Só jantar talvez não seja suficiente.”

Eu travo.

“Mas tudo bem. Quando você estiver livre.”

Meu coração dá um salto. Eu aceno com a cabeça, rápido. “Tá. Sim. Parece bom.”

Ele se levanta, pousa a xícara. “Eu vou indo. Me liga se precisar de alguma coisa.”

Eu o vejo sair e, depois, me afundo na cadeira e cubro o rosto.

O que isso quis dizer? Só jantar não basta? O que ele quer?

Ainda estou em espiral quando a porta se escancara.

“Sienna!”

Vivian entra feito um furacão. Ela está de óculos escuros enormes e um casaco pesado, como se estivesse tentando sumir dentro dele.

“O que você quer?”

“Eu preciso de dinheiro. Quinhentos mil.”

Eu rio. “Por que eu te daria isso?”

“Porque eu sou sua irmã! Porque eu sou a esposa do Marco! Os Rossi precisam de grana agora e você tem que me ajudar!”

“Ah, é?”

Eu me levanto e arranco os óculos do rosto dela.

Tem um roxo enorme em volta do olho. O lábio está rachado, ainda um pouco inchado.

“É isso que ser a senhora Rossi te dá?” Eu encaro Vivian. “Ouvi dizer que a família não anda muito bem. Não parece que o Marco está cuidando tão bem de você.”

A voz dela fica estridente. “Você não entende nada! Ele está estressado! Sob pressão! Eu sou sua irmã e ele precisa de dinheiro pros negócios. Só me dá!”

Eu sorrio. “Primeiro: não.”

Eu abro a gaveta da mesa e jogo algumas fotos nela.

As fotos mostram Marco entrando em hotéis com mulheres diferentes. Três imagens. Três mulheres diferentes.

“Segundo: seu marido parece ter energia de sobra pra outras mulheres.”

Vivian encara as fotos. O rosto dela perde a cor. As mãos tremem e as lágrimas começam a cair.

“Não… isso não… você falsificou…”

“Você sabe se são falsas ou não. Agora sai do meu escritório.”

Ela agarra as fotos e sai correndo, gritando.

A porta bate com força.

Eu esfrego as têmporas. Que bagunça.


Depois daquele dia, Vivian para de me encher.

Eu achei que ela fosse pegar aquelas fotos e explodir em cima do Marco. Em vez disso, algumas semanas depois, a notícia corre: ela está grávida.

Quando eu ouço isso, a única coisa que eu consigo fazer é rir.

Os dois são doentes. Um bate e trai, a outra aguenta e resolve ter um filho dele. Combinação perfeita.

O que eu não espero é o Marco vir atrás de mim depois do pequeno surto da Vivian.

Começa aos poucos. Minhas remessas são paradas pelos homens dele pra “inspeção”. No fim, eles liberam a mercadoria, mas os atrasos vão se acumulando.

Uma vez, duas vezes, eu deixo passar.

Mas continua acontecendo. Eu mando gente pra conversar. Eles são ignorados.

Na última vez, uma das minhas remessas fica parada por dois dias inteiros. Meus parceiros ficam uma fera.

Já deu.

“Deixa o carro pronto. Vamos pro território dos Rossi.”

Meu assistente me encara. “Senhorita Moretti, a senhora vai pessoalmente?”

“Ele quer me ver, não quer?” Eu pego meu casaco. “Então eu vou dar a ele o que ele quer.”

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