Capítulo 4
POV da Sienna
O carro encosta no território dos Rossi. Eu empurro a porta da sala de reuniões e entro.
Vivian está sentada no sofá. Mamãe e papai estão sentados de frente pra ela. Os três levantam o olhar quando eu apareço.
— Ora, ora. Olha só quem finalmente deu as caras. A nossa construtora de império. — a risada da Vivian vem carregada de deboche. — Finalmente entendeu que se matar de trabalhar não te leva a lugar nenhum? Veio me perguntar como é que se faz?
Ela passa a mão pela barriga, convencida pra caramba.
— Olha pra você, correndo por aí, lidando com guerra de gangues o dia inteiro. Tão perigosa. Enquanto isso, eu tenho um marido, um bebê a caminho, a família perfeita. Quando é que você vai—
Eu olho ela de cima a baixo. No meio do verão, e ela continua coberta da cabeça aos pés. Manga comprida, gola alta, nem um pedacinho de pele aparecendo no pescoço ou nos pulsos.
— Ainda tá empacotada desse jeito? — eu corto. — Você não tá com calor, não?
O rosto da Vivian congela. Ela não consegue soltar uma palavra.
Mamãe se apressa em entrar no meio.
— Sienna, que bom que você chegou. A gente estava justamente falando da família. A família nunca esteve tão bem sob o seu comando.
Papai continua, pegando o embalo.
— E eu ouvi dizer que você tem se aproximado dos Castellano. Se você e o senhor Castellano virassem um casal, seria ainda melhor pra família.
O rosto do Vincent passa pela minha cabeça. Aqueles olhos frios, o jeito que a boca dele às vezes se curva, a voz baixa.
Meu coração dá um pulo.
Eu mudo de assunto rápido.
— Não foi por isso que eu vim. — eu olho pro Marco. — Eu vim perguntar que porra você acha que tá fazendo.
Marco se recosta.
— Fazendo o quê?
— Por que você tá segurando as minhas remessas? — eu encaro ele, sem piscar. — A única razão de eu ainda não ter mandado gente atrás dos seus homens é porque a gente tá ligado por família. Mas se você fizer essa merda de novo, vai se arrepender.
Marco levanta as mãos.
— Ei, calma. Eu só queria te trazer aqui pra gente conversar. Fica tranquila, não vai acontecer de novo.
— A gente não tem nada pra conversar.
— Claro que tem. — Marco se levanta e vem na minha direção. — Olha, pra manter as coisas tranquilas entre as nossas famílias, eu tenho uma proposta. Por que as nossas famílias não trabalham juntas? Você é irmã da Vivian. Família trabalhando junto. É óbvio.
Eu dou uma risada curta, amarga.
— Não tá conseguindo mais achar ninguém disposto a trabalhar com você, aí agora veio atrás de mim?
Eu sei exatamente que tipo de homem ele é. Antes, foi assim que ele me secou por completo. Ele me torturou, me obrigou a usar os recursos da minha família pra abrir caminho pra ele, o meu dinheiro pra tapar os buracos dele, as minhas conexões pra fechar os negócios dele. No segundo em que ele não precisou mais de mim, ele me jogou no lixo.
Esse tipo de homem te seca até a última gota.
Marco dá mais um passo, baixa a voz.
— E, pra falar a verdade, eu já tô de saco cheio da sua irmã. Se a gente trabalhar junto... — ele faz uma pausa, os olhos deslizando por mim. — Você podia ser minha amante. Pensa bem. Nós dois trabalhando juntos? A gente seria imparável.A mão dele se estende e roça na minha.
A náusea me atinge como um golpe.
Eu dou um tapa na cara dele.
Marco cai no chão.
— Isso é nojento pra caralho. — Eu olho pra baixo, encarando ele. — Deixa eu deixar isso bem claro. Eu nunca vou trabalhar com você. Você e a sua família podem apodrecer no inferno.
— Mas que porra é essa?! — Vivian grita e corre para ajudar Marco a se levantar. — Esse é o seu cunhado! Você enlouqueceu?!
Ela se vira num movimento brusco. — Desde criança você odeia me ver feliz! Agora eu tô grávida e você ainda tá tentando destruir a minha família?! Você é uma psicopata invejosa!
Meu pai se levanta. — Sienna, por que você bateu nele? Mesmo que tenha havido um mal-entendido, você não sai atacando as pessoas.
Minha mãe franze a testa também. — Exatamente. Impulsiva demais. O Marco é seu cunhado. Você não consegue simplesmente conversar?
— Vocês têm ideia do que ele acabou de dizer? — Eu olho para os dois. — Ele quer que eu seja a amante dele pra gente trabalhar junto. De onde ele tira coragem?
Eu espero que eles fiquem chocados, com raiva, que fiquem do meu lado.
Mas não ficam.
Vivian ajuda Marco a ficar de pé. Ele ri, frio. — Você acha que isso foi só ideia minha?
Eu travo.
Meu pai baixa o olhar, não consegue me encarar.
Minha mãe desvia o rosto.
Um medo gelado sobe pela minha coluna.
— Vocês... — Minha voz treme. — Vocês já sabiam?
— Sienna. — Meu pai finalmente fala, calmo como se não fosse nada. — A família precisa de estabilidade. Os Rossi estão passando por uma fase difícil, mas a base deles é sólida. Se você puder fazer esse sacrifício, a aliança vai ser boa pros Moretti.
Minha mãe completa: — No fim das contas, você ainda é uma mulher. Ter um homem poderoso pra te proteger é melhor do que tentar fazer tudo sozinha. E o Marco tá bem-posicionado. Você não estaria perdendo nada.
Vivian entrelaça o braço no de Marco, com alguma coisa cruel brilhando no olhar. — Eu nem me importo, então por que você tá fazendo esse drama todo? Duas irmãs dividirem um marido é totalmente normal. Isso ajuda a família e você ganha alguém pra cuidar de você. Eu tô fazendo isso pro seu próprio bem.
Eles planejaram isso. Pra manter a aliança com os Rossi, pra garantir a parceria, eles estão dispostos a me entregar.
Pra eles, filhas são só ferramentas. Só moeda de troca. Só peças descartáveis quando convém.
A porta da sala de reuniões se abre. Vários seguranças entram, bloqueando a saída.
Marco passa a mão no sangue no lábio. — Sienna, você tá vendo como é. Sua família inteira tá de acordo. Você é uma garota esperta. Você sabe qual é a escolha certa.
Eu pego meu celular rápido e disco aquele número.
— O que foi?
Eu olho em volta da sala. A indiferença fria do meu pai, o rosto culpado da minha mãe, a fúria da Vivian, o sorriso presunçoso do Marco e os seguranças se aproximando.
— Eu preciso de ajuda.
