Chapter 3
No sabado seguinte, Bruno levou o contrato a uma copiadora e voltou com tres vias marcadas de amarelo. Livia nao pediu que ele fizesse isso. Talvez por isso tenha importado tanto.
Ele colocou as folhas na mesa do apartamento deles, entre o pote de cafe e uma chave de fenda que esquecera ali.
- Eu li de novo - disse. - Li devagar.
Livia desligou o fogao. O cheiro de alho no oleo encheu a cozinha apertada.
- E o que voce entendeu?
Bruno passou a mao pelo cabelo.
-
Que se eu assinasse, a divida dele virava minha antes mesmo de virar dele.
-
Sim.
-
Que eu podia ter meu salario bloqueado.
-
Sim.
-
Que eu ia colocar voce junto nisso, mesmo sem seu nome no papel.
Livia se apoiou na pia. Aquela era a parte que ele precisava enxergar sozinho. Nao porque ela nao pudesse explicar, mas porque, se a conclusao viesse apenas dela, a familia arrancaria dele depois.
-
O aluguel, nossa reserva, seus equipamentos - ele continuou. - Tudo ficava vulneravel.
-
E o Mauro sabia.
Bruno fechou os olhos.
A campainha tocou antes que ele respondesse. Tres toques curtos, irritados. Patricia nao esperava elevador abrir para anunciar sua presenca; ela chegava como cobranca.
Bruno abriu a porta. Patricia entrou sem pedir licenca, com Mauro atras e Dona Celeste por ultimo, segurando uma sacola com pao de queijo como se aquilo transformasse invasao em visita.
- Viemos conversar como gente adulta - Patricia disse.
Livia olhou para Mauro.
-
Entao comecem explicando por que esconderam a segunda pagina.
-
Ninguem escondeu nada - Mauro retrucou. - Estava tudo ali.
-
Preso atras do anexo, com clipe.
Patricia jogou a bolsa no sofa.
- Voce fala como se a gente tivesse armado um golpe. E familia, Livia. Voce chegou depois.
A frase bateu no apartamento pequeno e ficou. Bruno se moveu antes dela.
- Ela e minha esposa.
Dona Celeste apertou a sacola.
-
Ninguem esta dizendo que nao e.
-
Esta sim, mae. Toda vez que dizem que ela chegou depois.
Livia sentiu o peito apertar. Bruno raramente levantava a voz. Quando fazia, parecia pedir desculpa ao ar.
Patricia apontou para as folhas marcadas.
-
Entao pronto. Ja que virou reuniao juridica, qual e a proposta de voces? Deixar o Mauro perder tudo?
-
Perder o que? - Livia perguntou. - Ele ainda nem abriu o negocio.
Mauro desviou o olhar.
Bruno percebeu.
-
Mauro.
-
O que?
-
Esse dinheiro era para negocio mesmo?
O irmao estalou a lingua.
-
Tinha umas pendencias antes. Normal. Quem abre empresa precisa limpar nome.
-
Quanto de pendencia?
Patricia deu um passo.
-
Isso nao interessa.
-
Interessa se querem minha assinatura.
Dona Celeste se sentou devagar, como se os joelhos tivessem cedido.
Mauro encarou a janela.
- Uns quarenta.
Livia sabia que era mentira. Quem admitia quarenta devia o dobro. Talvez mais.
Bruno riu uma vez, sem alegria.
-
Voce queria pegar cento e vinte para cobrir quarenta e me deixar com o risco todo.
-
Eu ia pagar! - Mauro gritou. - Voce sempre acha que eu sou incapaz.
-
Eu sempre paguei para voce fingir que nao era.
A cozinha ficou muda.
Foi a primeira frase verdadeiramente cruel que Bruno disse ao irmao, e justamente por ser verdade nao pareceu crueldade. Pareceu uma porta abrindo depois de anos emperrada.
Dona Celeste chorou sem som.
- Seu pai nao ia gostar disso.
Bruno se virou para ela, e Livia viu a dor atravessar o rosto dele. Por um segundo, achou que ele cairia de volta no velho lugar. O filho bom. O irmao util. O homem que confundia luto com obediencia.
Mas ele pegou a segunda pagina do contrato e colocou diante da mae.
- Pai tambem nao ia gostar de me ver perder tudo por uma mentira.
Patricia levantou a mao, tremendo de raiva.
-
Essa mulher fez sua cabeca.
-
Nao - Bruno disse. - Ela me fez ler.
Livia respirou pela primeira vez em minutos.
Mauro amassou uma das copias.
-
Voce vai se arrepender. Quando a familia vira as costas, a vida cobra.
-
A vida ja esta cobrando - Bruno respondeu. - So que agora cada um vai pagar o proprio boleto.
Patricia puxou o marido pelo braco. Dona Celeste deixou a sacola de pao de queijo na mesa, talvez por habito, talvez por vergonha. Na porta, a sogra olhou para Livia.
- Voce nao entende o que e criar filhos sozinha.
Livia segurou a frase que queria dizer. Que entendia contas, medo e sacrificio. Que entendia tambem quando uma mae protegia um filho destruindo o outro. Mas aquela resposta nao pertencia a ela.
Bruno respondeu baixo:
- Mae, eu sou seu filho tambem.
Dona Celeste saiu sem olhar para tras.
Quando a porta fechou, o apartamento pareceu maior e mais vazio. Bruno ficou parado no meio da sala, segurando a copia marcada. A coragem dele tinha custo; Livia podia ver a fatura chegando no rosto dele.
Ela foi ate ele.
- Voce esta bem?
Ele soltou uma risada cansada.
- Nao. Mas acho que estou melhor do que ontem.
Ela encostou a testa no ombro dele.
- Isso ja e alguma coisa.
Bruno passou os bracos ao redor dela.
- Sabe o que e louco? Enquanto ele falava de negocio, eu pensei na oficina que eu queria abrir.
Livia levantou a cabeca.
-
Oficina?
-
Uma loja pequena. Conserto de geladeira, maquina, fogao. Atendimento honesto. Sem empurrar peca que nao precisa. Eu penso nisso faz anos.
-
Por que nunca me contou?
Ele olhou para as maos.
- Porque todo dinheiro extra ia para apagar incendio dos outros. Parecia egoismo sonhar com uma porta minha.
Livia olhou para o homem que ela amava, para a chave de fenda na mesa, para a segunda pagina que quase roubara ate os sonhos que ele nunca tinha dito em voz alta.
E pela primeira vez desde o premio, teve vontade de contar tudo.
Mas ainda nao. Ainda havia muita gente escutando pelas paredes daquela familia.
