Chapter 4
Na segunda-feira, Livia chegou a clinica as sete e meia e encontrou Joana esperando do lado de fora, com duas sacolas de amostras e os olhos acesos.
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Eu sei que voce esta trabalhando, mas eu precisava ver sua cara.
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Isso nunca e frase tranquila.
Joana abriu uma das sacolas e mostrou uma pequena peca de ceramica esmaltada em verde profundo, com tampa de madeira clara. O cheiro que escapou era de capim-limao, cafe torrado e uma docura quase de broa.
- A rede de hoteis respondeu.
Livia ficou imovel.
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Qual rede?
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A grande. A que tem unidade em Ouro Preto, Tiradentes, Inhotim e agora Sao Paulo. Eles querem lote piloto para cem suites e opcao de compra para o ano inteiro.
A recepcao da clinica ainda estava vazia. O faxineiro passava pano no corredor. Mesmo assim, Livia baixou a voz.
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Joana.
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Eu sei. Eu sei. Nao vou gritar. Mas por dentro eu estou derrubando cadeira.
Livia riu. A Casa Nascente tinha nascido na garagem da mae de Joana, entre prateleiras tortas e um forno usado. Agora empregava seis mulheres, vendia para lojas de decoracao e estava prestes a entrar numa rede nacional sem que ninguem da familia de Bruno soubesse que Livia era a investidora que segurara a empresa nos meses ruins.
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Preciso que a parte societaria esteja impecavel antes de assinarmos - Livia disse.
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Ja falei com a Dra. Renata. Ela pediu os documentos da limitada e os pedidos de compra.
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Otimo.
Joana apoiou as sacolas no balcao.
- E tem outra coisa. Fomos chamadas para a Feira de Design Mineiro no fim de semana.
Livia piscou.
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Chamadas por quem?
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Organizacao. Quer dizer, mais ou menos. A Patricia esta ajudando uma das coordenadoras com lista de expositores.
O ar mudou de temperatura.
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Patricia?
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Eu tambem fiz essa cara. Ela descobriu que a Casa Nascente ia participar porque a feira publicou os nomes. Mandou mensagem para mim ontem. Disse que podia nos conseguir um espaco, mas so sobrou area de fundo, perto da carga e descarga.
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Que generosa.
Joana sorriu sem humor.
- Ela tambem perguntou se voce ainda trabalhava na recepcao ou se agora era minha ajudante de vela.
Livia olhou para o corredor. O primeiro paciente entrava mancando, apoiado na filha. Ela vestiu o sorriso profissional, fez o cadastro, entregou senha, desejou bom dia. O trabalho comum a mantinha ancorada; era impossivel se sentir rainha quando se explicava convenio para alguem irritado as oito da manha.
Quando ficaram sozinhas de novo, Joana sussurrou:
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Nao precisamos ir. Da trabalho, e se ela esta envolvida, vai ter veneno.
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Quem mais vai?
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Lojas de decoracao, arquitetos, alguns compradores. Talvez a equipe da rede de hoteis passe la para ver a montagem.
Livia tocou a peca verde.
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Entao vamos.
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Mesmo com pior estande?
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Principalmente com pior estande.
Joana estreitou os olhos.
- Esse seu tom me assusta e me conforta.
Durante o dia, Livia dividiu a mente entre autorizacoes de consulta e planilhas de custos. No intervalo, falou com Renata.
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Patricia tem acesso a alguma informacao da Casa Nascente? - a advogada perguntou.
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Nao. Mas pode tentar constranger publicamente.
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Publico e bom quando estamos preparadas. Leve comprovantes de MEI antigo, contrato da limitada, notas fiscais, pedido da rede, tudo em copia. E nada de revelar sua estrutura se nao for necessario.
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Ela acha que somos pequenas.
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Deixe. Subestimacao tambem e ativo.
A frase ficou com Livia ate a noite.
Quando chegou em casa, Bruno estava sentado no chao da sala, desmontando um liquidificador de uma vizinha. Havia parafusos alinhados sobre um pano, cada um no lugar. Ele tinha uma delicadeza com maquinas quebradas que Livia desejava que tivesse consigo mesmo.
- A Joana vai expor na feira - ela disse, tirando o sapato. - Vou ajudar no fim de semana.
Ele levantou os olhos.
-
Aquela marca das ceramicas bonitas?
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Essa.
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Que bom. Ela merece.
Nenhuma pergunta sobre dinheiro. Nenhuma piada sobre gastar sabado carregando caixa. Bruno apenas sorriu, orgulhoso por uma amiga dela. Era por isso que mentir para ele doia. Porque ele era o tipo de homem que receberia uma verdade grande com cuidado, nao com gula. Mas a familia dele nao.
O celular de Bruno vibrou no chao. Ele olhou e fechou a tela.
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Patricia?
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Disse que sabado vamos ver quem trabalha de verdade e quem brinca de artesanato.
Livia sentiu um calor subir pelo pescoco.
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Ela escreveu isso?
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No grupo. Depois apagou. Mas eu vi.
Ele parecia envergonhado por ter uma familia capaz daquela frase.
Livia se sentou ao lado dele.
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Bruno, voce nao precisa se desculpar pelo que eles fazem.
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Eu sei. So ainda parece que preciso impedir.
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Talvez voce precise parar de impedir que eles se mostrem.
Ele segurou um parafuso entre os dedos.
- Voce vai ficar bem la?
Livia pensou no estande de fundo, na risada de Patricia, nos compradores nacionais, nas copias dentro de uma pasta discreta. Pensou no dinheiro que todos achavam que ela nao tinha, movendo-se silenciosamente por tras de uma marca que Patricia chamava de brincadeira.
- Vou.
Naquela noite, antes de dormir, ela mandou mensagem a Joana: Aceite o espaco. Pague a taxa no dia, em dinheiro, se exigirem. Eu levo.
Joana respondeu: Voce quer guerra?
Livia olhou para Bruno, que dormia com uma mao aberta sobre o travesseiro.
Nao, digitou. Quero palco.
