Chapter 5

A Feira de Design Mineiro ocupava um pavilhao amplo no bairro Funcionarios, com vidro, concreto e gente bem vestida segurando copos de cafe caro. Logo na entrada, estandes iluminados exibiam moveis de madeira, joias autorais, tecidos naturais e ceramicas com placas que pareciam convites para outro mundo.

A Casa Nascente ficou no fundo.

Nao era uma metafora. Era literalmente o ultimo corredor antes da porta de carga e descarga, ao lado de caixas empilhadas e de um ventilador barulhento que empurrava ar quente contra as prateleiras. Patricia apareceu usando cracha de apoio, blazer branco e o sorriso de quem tinha escolhido pessoalmente cada centimetro daquela humilhacao.

  • Gente, que pena - disse ela, olhando as caixas de Joana. - A organizacao esta lotada. Mas para quem esta comecando, qualquer cantinho ajuda, ne?

Joana respirou pelo nariz. Livia colocou a mao nas costas da amiga, um toque pequeno.

  • Ajuda sim - Livia respondeu. - Obrigada pelo cantinho.

Patricia olhou para a calca jeans simples de Livia, para a camiseta preta sem marca, para o cabelo preso num coque pratico.

  • Voce veio carregar caixa ou vender vela?

  • Hoje posso fazer os dois.

  • Mulher guerreira - Patricia disse, alto o bastante para duas expositoras ouvirem. - Bruno deve ter orgulho. Mesmo com pouco, voces nao desistem.

Livia sorriu. Aprendera que nao reagir no primeiro golpe fazia o agressor gastar mais energia no segundo.

Montaram o estande em uma hora. Joana ajeitou pecas em niveis, panos de linho, pequenos cartoes com nomes de aromas: Cafe no Quintal, Chuva em Ouro Preto, Janela de Manha. Livia conferiu etiquetas, maquininhas, notas fiscais. Tudo simples, bonito, certo.

As primeiras visitas foram poucas. Algumas pessoas passavam, elogiavam o cheiro e voltavam para os corredores principais. Patricia apareceu duas vezes para perguntar se precisavam de ajuda, sempre quando havia alguem por perto para testemunhar sua falsa generosidade.

Ao meio-dia, um homem da organizacao chegou com uma prancheta.

  • Casa Nascente? Falta liquidar a taxa complementar de expositor. O sistema registrou apenas a reserva.

Joana franziu a testa.

  • Que taxa complementar? O e-mail dizia que pagamento seria apos confirmacao do espaco.

  • Exato. Confirmado ontem. Sao oito mil e quatrocentos reais. Cartao ou transferencia.

Patricia surgiu como se tivesse sido chamada por cheiro de sangue.

  • Nossa, Joana. Voce nao sabia? A feira e profissional. Nao e bazar de igreja.

O rosto de Joana perdeu cor. O valor nao quebraria a empresa, mas a exposicao publica do susto era a verdadeira faca. Duas pessoas pararam perto. Uma coordenadora cochichou com outra.

Livia abriu a bolsa.

Bruno, que tinha ido ajudar a descarregar antes de atender um chamado no centro, estava ao lado do estande. Ele deu um passo discreto.

  • Livia...

Ela olhou para ele com calma.

  • Esta tudo bem.

Da bolsa, tirou um envelope pardo. Dentro, havia dinheiro separado para emergencia de feira, porque Dra. Renata sempre dizia que humilhacao planejada gostava de depender de Wi-Fi, sistema fora do ar e prazos confusos. Livia contou as notas sobre a mesa, sem pressa, uma pilha limpa de duzentos, cem, cinquenta.

O corredor ficou quieto.

Patricia parou de sorrir.

  • Onde voce arrumou isso?

Livia continuou contando.

  • Oitocentos, mil, dois mil...

O homem da prancheta pigarreou.

  • Senhora, pode ser por Pix tambem.

  • Dinheiro resolve?

  • Resolve.

  • Entao emita recibo no CNPJ correto, por favor.

Joana encarou Livia como se quisesse rir e chorar ao mesmo tempo. Bruno nao perguntou nada. Apenas ficou um pouco mais perto, bloqueando com o corpo a curiosidade dos outros.

Quando a ultima nota tocou a mesa, Livia alinhou as pontas com dois dedos.

  • Oito mil e quatrocentos.

Patricia olhava para o envelope vazio. A boca dela abriu, fechou, abriu de novo.

  • Livia, isso e muito dinheiro para alguem que vive dizendo que nao tem.

  • Eu nunca disse que nao tinha oito mil e quatrocentos reais.

  • Mas voces...

  • Moram num apartamento simples? Usam roupa comum? Leem contrato antes de assinar? Sim.

Um riso baixo escapou de alguem no corredor. Patricia ouviu e ficou rigida.

O homem entregou o recibo. Livia conferiu o CNPJ da Casa Nascente, guardou a via na pasta e devolveu a prancheta. Antes que Patricia encontrasse outra frase, uma mulher de vestido azul-marinho parou diante das prateleiras.

  • Quem e Joana Ribeiro?

Joana levantou a mao.

  • Sou eu.

  • Sou Helena Duarte, da Rede Aurora. Conversamos por e-mail. Vim ver a linha para suites.

O ar saiu do corpo de Joana. Livia sorriu, pequeno.

Helena pegou uma peca verde, cheirou, examinou o acabamento.

  • Melhor ao vivo. Muito melhor. Trouxe meu diretor de compras. Ele esta estacionando.

Patricia piscou.

  • Rede Aurora? Aquela dos hoteis?

Helena virou para ela com educacao fria.

  • Sim.

Nos vinte minutos seguintes, o pior estande da feira virou ponto de parada. Helena fez perguntas sobre escala, embalagem, prazo, exclusividade. Joana respondeu com seguranca crescente. Livia completou numeros quando necessario, sempre como se fosse apenas uma pessoa organizada, nao a investidora invisivel por tras da capacidade de producao.

Bruno observava em silencio. Seu olhar nao era de suspeita. Era de orgulho misturado a uma pergunta que ele ainda nao faria em publico.

Quando Helena pediu uma sala reservada para discutir carta de intencao, Patricia deu um passo para tras. Mauro, que Livia nem tinha visto chegar, estava perto da entrada do corredor, olhando para ela como se tivesse encontrado uma rachadura numa parede.

Os olhos dele desceram para a pasta na mao de Livia.

A aba estava entreaberta. Por um segundo, apareceu a folha de recibo, o CNPJ, e atras dela uma copia de documento com o nome de uma empresa que Patricia nao conhecia.

Mauro nao entendeu tudo.

Mas viu numeros suficientes para entender a coisa errada.

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