Capítulo 1 Filhote de cachorro Charl
CAPÍTULO 001
CHARLOTTE
O motor do ônibus vibrava sob mim, um som ao qual eu tinha me acostumado nas últimas quatro horas.
A estrada se estendia à frente, interminável e cinzenta, engolida por uma floresta densa dos dois lados.
"Charlotte", a voz da mamãe ecoou na minha cabeça pela centésima vez. "Precisamos conversar sobre com quem você vai ficar."
Eu estava em pé na cozinha quando ela disse isso, vendo-a girar a aliança de casamento — aquela que ela logo estaria tirando.
Papai já tinha ido embora naquela altura, e nem se deu ao trabalho de se despedir direito. Só arrumou as coisas enquanto eu estava na escola e deixou um bilhete na mesa da cozinha.
Um bilhete. Vinte e sete anos de casamento, vinte anos sendo meu pai, e tudo o que eu recebi foi a porra de um bilhete.
"Eu vou para a casa do Zade", eu disse a ela, com a voz mais ríspida do que eu pretendia.
O rosto da mamãe se desfez. "Charlotte, querida, ele mora tão longe. Você mal viu seu irmão nos últimos anos—"
"Exatamente. Ele saiu daqui e construiu a própria vida, e agora eu estou fazendo a mesma coisa."
Isso tinha sido três dias atrás. Três dias enfiando minha vida em caixas, ignorando as tentativas da mamãe de me fazer desistir, fingindo que eu não a via chorando no corredor. Três dias dizendo a mim mesma que eu estava fazendo a escolha certa.
Eu ainda repetia isso para mim mesma quando o ônibus entrou na estação de Hartwick.
Não era lá grande coisa como estação. Uma única plataforma, uma cobertura estreita com o teto rachado e um estacionamento que parecia não receber asfalto novo desde os anos noventa.
Desci os degraus com minhas duas malas e fiquei na calçada, piscando sob a luz da tarde.
Hartwick também não parecia grande coisa. Prédios baixos, ruas largas, floresta densa avançando de todas as direções, como se a cidade tivesse sido largada bem no meio dela e as árvores ainda não tivessem perdoado a intrusão.
Puxei o celular. Zade tinha mandado mensagem vinte minutos atrás: Procure a placa com seu nome. Você não tem como não ver.
Abri caminho pela pequena multidão saindo do ônibus atrás de mim e examinei as pessoas esperando do outro lado da barreira.
A maioria era comum — casais, algumas famílias, alguém segurando flores. Então eu vi as placas.
Três delas, erguidas por motoristas de uniforme escuro.
E uma segurada por um homem muito alto, de jaqueta de couro, com um sorriso tão largo que praticamente era um anúncio por si só.
Na placa estava escrito: CACHORRINHA CHARL.
Soltei um gemido em voz alta.
O braço dele se ergueu num disparo e ele acenou como se estivesse tentando sinalizar para um avião. Balancei a cabeça, mas já estava andando, abrindo caminho pela multidão, com as malas batendo nas minhas pernas.
Zade veio correndo na minha direção. Ele estava exatamente como nas chamadas de vídeo, mas de algum jeito mais real.
Estava mais alto do que eu lembrava, mais largo nos ombros, o cabelo escuro preso num rabo de cavalo. Vestia jeans pretos e uma jaqueta de couro com patches costurados nela.
—Charlie! —ele gritou, o rosto se abrindo num sorriso.
Zade me pegou com facilidade, erguendo-me do chão e me girando como se eu não pesasse absolutamente nada.
—Zade! —eu ri, e foi bom rir depois de tudo. Bom me sentir segura.
Ele me pôs no chão, mas imediatamente me puxou para outro abraço, este mais apertado e mais demorado.
Então beijou minha bochecha e bagunçou meu cabelo com os nós dos dedos, deixando tudo completamente despenteado.
—Charl filhotinha agora é uma moça —ele cantarolou, com aquela voz idiota e cantada que costumava usar quando eu era pequena.
Eu me afastei, franzindo a testa.
—Não me chama assim.
—Por que não? Você sempre vai ser a Charl filhotinha pra mim.
—Eu tenho vinte anos, não sete. É constrangedor.
—Não tô nem aí —ele disse, alegremente, me puxando para mais um abraço. Esse durou ainda mais, e eu senti os braços dele se apertarem ao meu redor.
—Meu Deus, senti tanto a sua falta, Charlie. Faltou pra caralho.
Minha garganta se fechou.
—Eu também senti sua falta —sussurrei no ombro dele.
Quando ele finalmente me soltou, os olhos dele estavam brilhando de um jeito suspeito.
Ele pigarreou, pegou as duas minhas malas antes que eu pudesse protestar e apontou para um carro estacionado bem do lado de fora da entrada da estação.
O trajeto não demorou. Hartwick não era grande o bastante para que qualquer coisa demorasse.
Zade falou o caminho inteiro sobre a cidade, o trabalho dele, um bar que, segundo ele, era o melhor num raio de quilômetros.
Eu ouvi e observei as ruas pela janela. O lugar era meio acabadinho, bruto nas bordas. Calçadas rachadas, fachadas desbotadas, ruas que estreitavam sem aviso.
Mas havia algo vivo ali também. Motos barulhentas passando, roncando.
Eu ainda estava absorvendo tudo quando Zade saiu da via principal e parou em frente a uma casinha bem na beirada da cidade.
Era modesta, térrea, paredes claras, uma porta de madeira que em algum momento tinha sido pintada de verde-escuro e começava a descascar nos cantos.
Mas o jardim na frente era outra história. Canteiros pequenos e bem cuidados, uma trepadeira subindo pela lateral esquerda da parede, manchas de cor por toda parte.
Uma moto estava estacionada à direita, preta e com aspecto pesado, ocupando quase toda a passagem.
—Bem-vinda ao meu humilde lar. —Zade abriu os braços ao descer do carro.
—Você tem um jardim —eu disse, surpresa.
—Não fala como se fosse um choque.
—Você já conseguiu matar um cacto, Zade.
—Eu evoluí como pessoa. —Ele pegou minhas malas de novo e empurrou o portão da frente com o joelho. —Vamos.
Por dentro era acolhedor e simples. Uma salinha, uma cozinha estreita logo adiante, um corredor levando ao que eu supus serem os quartos.
Ele tinha se esforçado — as almofadas do sofá estavam arrumadas, havia uma vela no parapeito da janela que cheirava a cedro, e a cozinha estava em ordem.
Ele encheu um copo na torneira e o estendeu para mim. — Senta. Bebe. Você parece que não dorme direito há dias.
— Não dormi.
— Eu sei. — Ele se sentou no sofá e bateu com a mão no espaço ao lado dele. — Vem aqui, Charlie. Fala comigo. Como você está se sentindo de verdade?
Afundei ao lado dele e, de repente, toda a energia foi embora. Meus ombros caíram, e fiquei olhando para as mãos no colo.
— Estou sobrecarregada — admiti. — Com tudo o que aconteceu e ainda está acontecendo.
— O divórcio?
Assenti.
— Eu tentei, Zade. Eu realmente tentei. Implorei para a mamãe não levar isso adiante. Disse que ela podia punir o papai, obrigar ele a ficar longe fisicamente, mas ainda nos sustentar financeiramente. Qualquer coisa, menos o divórcio, mas ela não quis me ouvir. Só ficava repetindo que não podia continuar casada com alguém que a tinha traído daquele jeito.
— Foi o seu pai que traiu ela, Charlie, não você.
— Eu sei. Mas parece que tudo está desmoronando, e eu não consigo impedir. — Minha voz falhou. — Ele dormiu com a melhor amiga dela, Zade. A melhor amiga da mamãe. A Jessica, que vinha almoçar com a gente aos domingos, que viajou de férias conosco no verão passado. Como ele pôde fazer isso? Como ele pôde jogar fora vinte e sete anos de casamento, jogar fora a nossa família, por causa dela?
— Porque ele é um filho da puta egoísta — disse Zade, em voz baixa.
— E ele nem parecia arrependido. Quando confrontei ele antes de sair de casa, ele só disse que às vezes essas coisas acontecem.
Então as lágrimas vieram, rápidas e impossíveis de conter. Eu estava segurando o choro havia dias, talvez semanas, mas agora ele transbordou e eu não conseguia fazer parar.
Levei as mãos ao rosto, mas não adiantou. Meu corpo inteiro tremia com os soluços, e eu odiava aquilo, odiava me sentir tão fraca, tão destruída.
Zade me puxou contra o peito e me envolveu nos braços.
— Está tudo bem — murmurou. — Põe tudo para fora, Charlie. Simplesmente põe tudo para fora.
— Eu odeio ele — consegui dizer entre os soluços. — Odeio tanto ele, Zade. E odeio a mamãe também por desistir, por não lutar mais. Odeio os dois por fazerem isso com a gente.
— Eu sei. Eu sei que odeia.
— Como eles puderam simplesmente deixar de se amar? Deixar de ser uma família?
Zade não respondeu. Só me apertou mais forte, uma das mãos acariciando meu cabelo do jeito que fazia quando eu era pequena e tinha pesadelos.
Eu chorei até minha garganta ficar em carne viva e meus olhos arderem, até não restar mais nenhuma lágrima.
Mesmo assim, continuei encostada no peito dele, ouvindo a batida constante do coração.
— Você está segura agora — ele sussurrou por fim. — Eu cuido de você, Charlie. Vou cuidar de você. Eu prometo.
Eu queria acreditar nele.
Uma hora depois, eu ainda estava sentada naquele sofá, mas as lágrimas tinham ido embora e eu me sentia vazia, daquele jeito que a gente fica depois de chorar demais. Zade tinha feito chá. Eu segurava a caneca com as duas mãos só para ter algo quente para segurar.
"Acho que preciso de um pouco de ar", eu disse por fim.
Zade ergueu os olhos do celular. "É?"
"Só uma caminhada curta pra clarear um pouco a cabeça."
Ele assentiu devagar. "Fica perto da casa. Não vai longe demais, tá? A floresta não é exatamente um parque."
"Eu não vou entrar na floresta." Pousei a caneca e me levantei, me espreguiçando. "Só vou dar a volta pela casa. Cinco minutos."
"Charlie."
"Cinco minutos, Zade."
Ele me olhou por um instante mais longo do que pareceu necessário. "Tudo bem. Mas fica onde eu possa te ouvir."
Peguei minha jaqueta do braço do sofá e fui em direção à porta dos fundos.
O ar lá fora estava fresco, carregando o cheiro de pinho e terra úmida. Os fundos da casa davam para uma faixa de grama que se estendia por talvez vinte metros antes de começar a linha das árvores.
As árvores eram enormes, antigas e densas, seus galhos entrelaçados lá no alto com tanta força que, mesmo à luz do dia, a floresta além parecia escura.
Fiquei na grama.
Caminhei devagar, as mãos nos bolsos, deixando o silêncio se acomodar ao meu redor. Depois de quatro horas num ônibus e uma hora chorando, aquela quietude pareceu um presente. Inclinei a cabeça para trás e olhei para o céu. Azul-pálido, com algumas nuvens finas.
Soltei o ar devagar.
Eu não sabia o que estava esperando de Hartwick, mas, fosse o que fosse, eu tinha tempo para descobrir. Eu não ia a lugar nenhum. Zade estava aqui. Isso bastava por enquanto.
Eu tinha caminhado mais do que pretendia — não para dentro das árvores, mas ao longo da borda da floresta, onde a grama afinava e as raízes começavam a romper o chão.
Parei e me virei para olhar de volta para a casa.
Não estava longe. Eu ainda conseguia ver a porta dos fundos.
Virei de novo.
E quase dei de cara com ele.
O lobo estava a três metros de mim.
Era enorme. Nada parecido com os lobos que eu tinha visto em documentários ou em recintos de zoológico.
Aquele animal tinha o tamanho de um bezerro grande, os ombros na altura do meu peito, a pelagem de um cinza-escuro mesclado. Estava completamente imóvel, me observando com olhos âmbar.
Meu corpo parou de funcionar. Cada pensamento que eu tinha se dissolveu. Só existia o lobo, aqueles olhos e a certeza absoluta de que eu não devia me mexer.
Então alguma coisa estalou atrás de mim.
Girei.
Um segundo lobo saiu das árvores à minha esquerda. Do mesmo tamanho e com a pelagem mais escura. Ele se moveu num arco lento, sem pressa, cortando o caminho de volta para a casa sem qualquer urgência, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Meu coração batia com tanta força que eu conseguia senti-lo na garganta.
Um terceiro surgiu à minha direita.
Um quarto apareceu diretamente atrás de mim, fechando o círculo.
Virei devagar, olhando para cada um deles por vez. Eles não rosnavam nem mostravam os dentes, apenas observavam.
Abri a boca, embora não fizesse ideia do que ia dizer.
E então, como um só, começaram a avançar.
