Capítulo 2 O homem estranho e o aviso
CAPÍTULO 002
CHARLOTTE
Meu coração estava disparado.
Esse foi o primeiro pensamento claro que tive enquanto ficava ali, observando-os se aproximar. O segundo foi a voz de Zade na minha cabeça, simples e direta: não se afaste demais — e a percepção aguda e inútil de que eu tinha feito exatamente isso.
Eu nem tinha ido longe. Essa era a parte ridícula. Eu ainda conseguia ver os fundos da casa de onde eu estava. E, ainda assim, ali estava eu, cercada, com nada além de grama aberta entre mim e quatro lobos que avançavam como se já tivessem decidido como aquilo ia terminar.
Eu não gritei. Não sei por quê. Minha garganta fechou completamente, e o som simplesmente não saiu.
Dei um passo para trás. Depois outro.
Então aconteceu uma coisa que me fez esquecer de gritar por completo.
O lobo mais próximo parou. A cabeça dele baixou um pouco. E então eu ouvi — um som para o qual eu não tinha nome. Um estalo profundo e úmido, como se alguma coisa estivesse sendo puxada e rasgada e, ao mesmo tempo, remontada.
A forma do lobo começou a mudar. Os membros se alongaram e encurtaram ao mesmo tempo. O pelo recuou. Tudo durou, talvez, quatro segundos e, quando acabou, no lugar onde o lobo estava, agora havia uma pessoa.
Depois outra. Depois outra. Depois o último.
Quatro lobos. Quatro pessoas. Paradas na grama diante de mim sem uma única peça de roupa entre elas.
Eu encarei.
Não tive como evitar. Meu cérebro tentava processar o que meus olhos tinham acabado de ver e falhava completamente. Lobos não viravam pessoas. Isso não era uma coisa que acontecia. Nunca seria uma coisa que aconteceria. E, no entanto.
O grupo era uma mistura. Três mulheres jovens, uma delas parecendo mal mais velha do que eu, e dois homens que pareciam ter uns vinte e poucos anos. Eles ficaram ali, completamente à vontade, como se aquela fosse a situação mais comum do mundo.
— Bom — disse uma das garotas, inclinando a cabeça. — O que temos aqui?
Ela deu um passo à frente antes que eu pudesse responder. Era magra, tinha cabelo castanho-claro e olhos afiados, e se movia com um tipo de confiança tranquila que deixava claro que ela não esperava que eu fizesse nada a respeito. Estendeu a mão e tocou uma mecha do meu cabelo, erguendo-a um pouco, e então se inclinou e cheirou.
Eu me afastei num sobressalto.
— Não...
Ela me ignorou por completo. Franziu o nariz e se virou para os outros.
— Ela cheira diferente. Como se em parte pertencesse e em parte não.
Um dos homens se aproximou com isso. Ele era alto, de ombros largos, com um maxilar que parecia ter sido feito especificamente para causar problemas. Os olhos dele passaram por mim devagar, baixando por um instante antes de subir de novo, e os lábios se curvaram.
Mantive o olhar firme no rosto dele.
— Vocês não têm vergonha? — eu disse. — Desfilando assim na frente de uma completa desconhecida?
Houve um instante de silêncio.
Então todos eles riram. Alto, como se eu tivesse dito algo genuinamente engraçado.
— Vergonha? — a garota repetiu, ainda sorrindo. — Isso é perfeitamente normal aqui. Nada que nenhum de nós já não tenha visto antes. — Os olhos dela se estreitaram um pouco. — Como é que você não sabe disso? Você é de onde?
— Acabei de chegar na cidade.
— Chegou de onde?
— Isso não é da sua conta.
O homem alto deu mais um passo e chegou ainda mais perto. Perto demais agora, bem dentro de qualquer distância com a qual eu me sentisse confortável — e ele sabia disso. Inspirou devagar pelo nariz, os olhos semicerrando por um momento, e então olhou para mim do jeito que as pessoas olham para algo que decidiram que querem.
— Qual é o seu nome?
— Se afasta — eu disse. — Eu quero voltar para a casa do meu irmão.
Algo mudou no grupo. Não de forma dramática, mas a diversão fácil sumiu dos rostos deles, substituída por algo mais frio.
— A casa do seu irmão — repetiu a garota. — E onde seu irmão mora?
— Se afasta — eu disse de novo — significa que eu terminei de falar.
O maxilar do homem alto se contraiu.
— Palavras ousadas.
— Então faz alguma coisa — disse um dos outros em voz baixa, deslocando-se para a esquerda para cortar o caminho de volta para a casa. — Se você tem tanta certeza de si.
Olhei para o vão que ele tinha acabado de fechar. Depois olhei para a garota mais próxima de mim.
Eu sabia que não ia sair dali sem brigar. Sabia desde o momento em que eles formaram o círculo. Então parei de esperar um momento melhor e enfiei meu punho direto no rosto da garota.
O estalo do impacto me surpreendeu tanto quanto surpreendeu a ela. Ela cambaleou um passo inteiro para trás e, quando se endireitou, havia sangue escorrendo do nariz. A mão dela voou até o rosto e ela olhou para os próprios dedos como se não conseguisse acreditar no que estava vendo.
Os olhos dela se arregalaram. Em seguida, ficaram frios.
Ela veio para cima de mim rápido. Eu recuei, firmei o pé no chão e chutei com força. Meu calcanhar acertou as costelas dela, e ela caiu na terra com um grunhido.
Eu tive, no máximo, um segundo para me sentir bem com aquilo antes de a segunda garota agarrar meu braço por trás.
Depois disso, virou uma bagunça. Eu estava em desvantagem numérica e sabia disso, mas não ia sair quieta. Acertei uma cotovelada na cara de alguém. Me soltei de um aperto forte demais, tropecei, fui agarrada de novo. Um dos homens pegou no meu ombro e me empurrou, e eu bati no chão com força, de mãos e joelhos, o impacto subindo pelos meus punhos.
Eu estava me levantando quando ouvi.
O motor de uma motocicleta. Perto.
A mão que me prendia pelo braço me soltou.
Ergui o olhar. Uma moto tinha parado na beirada da linha das árvores, a uns quinze metros, e o homem sentado nela ainda não tinha tirado o capacete, mas a cabeça estava virada na direção do grupo — e o grupo tinha ficado completamente imóvel. Não um imóvel cauteloso. Um imóvel imediato. O tipo de imobilidade que acontece quando todo mundo numa sala de repente lembra onde está.
Ele desceu da moto e tirou o capacete.
Aí eu entendi a imobilidade.
Ele era enorme — não há outra palavra. Pelo menos um metro e noventa e oito, largo de ombros de um jeito que fazia a jaqueta de couro que usava parecer estar no limite. Cabelo castanho comprido, solto ao redor do rosto. E quando o olhar dele percorreu o grupo, havia algo ali que eu senti a quinze metros de distância: um peso que pressionava sem precisar fazer som algum.
— O que está acontecendo aqui?
Ninguém respondeu. O grupo ficou ali parado como crianças pegas fazendo alguma coisa errada.
Eu me pus de pé e limpei a terra das palmas das mãos.
— Eles apareceram do nada e me atacaram — eu disse, já que aparentemente ninguém mais ia falar. — Porque eu não quis responder às perguntas deles. É assim que as pessoas são recebidas nesta cidade?
Os olhos dele se voltaram para mim.
Havia algo na franqueza daquele olhar que me fez querer dar um passo para trás. A expressão dele pairava em algum lugar entre irritação e outra coisa — não exatamente diversão, mas perto disso, como se minhas palavras o tivessem surpreendido de um jeito que ele não esperava e ainda não soubesse o que fazer com aquilo.
Ele me encarou por um tempo maior do que parecia necessário.
Então voltou o olhar para o grupo e fez um único aceno com a cabeça. Só isso. Sem palavras, sem instrução. Apenas um aceno.
Eles me lançaram olhares de ódio e então, um por um, se viraram e desapareceram entre as árvores. Em segundos, não havia sinal de que algum dia tinham estado ali.
Eu soltei o ar devagar.
Quando me virei de volta, ele estava me olhando de novo. Completamente imóvel, do jeito que tinha ficado imóvel no primeiro instante em que me viu. As narinas dele se dilataram de leve, quase como se estivesse farejando, e algo atravessou seu rosto que parecia, estranhamente, alarme.
Então ele colocou o capacete de novo, acelerou o motor uma vez e foi embora.
Fiquei ali, parada, vendo-o partir.
Ele não perguntou se eu estava machucada. Não se apresentou. Não me disse uma única palavra diretamente. Apenas fez um aceno para um grupo de pessoas que tinha estado em cima de mim trinta segundos antes, fez com que eles saíssem correndo como se não fossem nada e foi embora.
Que homem.
Passos vieram trovejando pela grama atrás de mim e eu me virei de supetão. Zade vinha correndo na direção da casa, ofegante, os olhos passando rápido por mim, da cabeça aos pés.
— Você está machucada? O que aconteceu? Eu ouvi… — Ele parou, segurando meus braços, vasculhando meu rosto.
— Estou bem. Só alguns arranhões. — Apontei para a linha das árvores. — Algumas pessoas saíram do mato. A coisa ficou desagradável. Aquele homem na moto apareceu e eles se espalharam.
Algo mudou no rosto de Zade. O alívio que tinha acabado de chegar arrumou as malas e foi embora. Ele olhou para a estrada vazia por onde a moto tinha desaparecido e depois voltou a olhar para mim, e as mãos dele apertaram um pouco mais meus braços.
— Que homem?
— Eu não sei. Grande. Cabelo castanho. Olhos azuis. Foi embora antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa.
Zade ficou em silêncio por um momento. Um momento longo.
— Entra, Charlie.
— Zade, quem era ele?
Ele me guiou com firmeza de volta para a casa, uma mão no meu ombro. Eu deixei, mas não larguei o assunto.
— Quem era ele?
Ele soltou o ar pelo nariz. Não olhou para mim.
— Zade.
— Alpha Dorian — ele disse. — E fique longe dele.
