Capítulo 2
Ponto de vista de Cassandra
Na tarde seguinte.
O tempo estava bem sombrio, com uma garoa fina pairando no céu de Nova York — clima perfeito para vampiros. Dirigi uma Range Rover preta até os terrenos do Solar de Santa Cecília, o sanatório de vampiros isolado, escondido nos subúrbios.
Quando empurrei a porta da sala de recepção, vi Serena sentada num sofá de veludo.
Ela continuava tão bonita. Meu Deus, depois de virar vampira, aquela beleza tinha se multiplicado por dez. Herdara do pai os olhos redondos, cinza-claros, e o cabelo dourado caía pelo peito como uma cascata. A pele era branca a ponto de parecer translúcida; os lábios vermelhos, delicadamente sedutores; e ela me lançou um sorriso doce.
— Cassandra! Minha irmã! — Serena se levantou e correu até mim nos saltos altos, me apertando num abraço forte.
A temperatura do corpo dela era muito baixa, mas a força do abraço era assustadoramente grande. Eu até senti as unhas afiadas arranharem de leve minha coluna através do tecido do meu trench coat.
— Senti tanta saudade, irmã. Faz sete meses que a gente não se vê. — Ela recuou meio passo, os olhos cinzentos me examinando de cima a baixo, e o olhar parou de repente no meu pescoço — para esconder a marca da mordida que Alexander tinha deixado, eu tinha colocado de propósito uma blusa de gola alta hoje.
O canto da boca de Serena se curvou num arco quase imperceptível.
— Parece que Alexander tem cuidado muito bem de você.
— Sim, está tudo bem. — Tentei fazer meu sorriso parecer natural. — Durante o voo… ah, não, quer dizer, está tudo indo bem para você no sanatório?
— Péssimo. — Ela suspirou e enlaçou o braço no meu, como se fôssemos as irmãs mais próximas do mundo. — Aquelas plasmas de sangue substitutas têm gosto de lama. Eu já estou de saco cheio. Mas Alexander me disse que, quando eu me mudar para o seu solar, ele vai escolher pessoalmente a melhor “comida” para mim. Ele sempre me mima assim, não é?
Meu coração afundou de repente. Eu sabia exatamente o que ela queria dizer com “mima”.
— Vamos — eu disse, sem querer continuar nesse assunto. Puxei meu braço para me soltar do dela e peguei uma das malas de grife. — Alexander está esperando você em casa.
Saímos do sanatório e colocamos a bagagem no porta-malas. Assim que entramos no carro, liguei o aquecedor. Eu estava com um pouco de frio — não só por causa do tempo, mas por causa dessa “irmã” linda e perigosa sentada no banco do passageiro.
— Cassandra — disse Serena, baixinho, olhando a paisagem correndo pela janela. — Você sabe? Se não tivesse sido por eu ter perdido o controle naquela época, a esposa do Alexander deveria ter sido eu.
Minhas mãos apertaram o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Mas agora a Sra. Alexander é você. — Ela virou a cabeça e abriu um sorriso para mim, com as duas presas pontudas levemente visíveis. — Mas não tem problema. Temos muito tempo pela frente. A gente pode brincar devagar.
A chuva ficou mais forte.
Os limpadores de para-brisa da Range Rover varriam o vidro freneticamente, de um lado para o outro, produzindo um som monótono e surdo. O aquecedor da cabine estava no máximo e, mesmo assim, eu sentia as pontas dos meus dedos ficando frias.
Serena, no banco do passageiro, estava animada. Ela abaixou um pouco o vidro, deixando o vento frio e úmido, misturado aos respingos de chuva, bater no rosto pálido e delicado. Inspirou fundo e soltou um suspiro satisfeito.
— Eu adoro os dias chuvosos de Nova York — ela disse, virando a cabeça. Aqueles olhos cinza-claros que ela herdara do nosso pai brilharam com uma luz incomum na penumbra do interior do carro. — Faz o ar cheirar… muito mais limpo. Sem tanto aquele cheiro pegajoso e azedo de suor humano.
Meus dedos se apertaram de novo em torno do volante, os nós dos dedos ficando de um branco fantasmagórico. Não respondi ao comentário; apenas encarei fixamente a rodovia à frente, borrada pela chuva.
Paciência, Cassandra, eu disse a mim mesma. Ela é uma vampira recém-nascida perigosa agora e, além disso, Alexander a protege.
Meia hora depois, atravessamos os enormes portões de ferro forjado da Mansão Alexander, entalhados com padrões de espinhos negros.
Aquele casarão gótico ficava encravado no meio de uma floresta particular em Long Island. Seus telhados pontiagudos se erguiam vagamente sob a chuva e a névoa, como uma fera agachada na escuridão. Para vampiros, aquele lugar era uma fortaleza inexpugnável; para mim, era apenas um túmulo um pouco mais luxuoso.
O carro mal tinha parado diante do pórtico do prédio principal quando vários servos de sangue, em uniformes pretos, correram até nós com grandes guarda-chuvas negros.
Eram todos vampiros de baixa patente, com a mesma pele pálida de seus senhores, os olhos vazios e obedientes.
Eu tinha acabado de empurrar a porta do carro e ainda nem tivera a chance de dizer uma palavra ao velho mordomo, Ilias, quando Serena já havia saído do veículo com graça, equilibrada em seus saltos agulha.
— Ah, Ilias… meu Deus, este tempo miserável está absolutamente pavoroso. — Serena tirou com displicência o trench coat caro, úmido de chuva, e o atirou direto nos braços de um servo de sangue próximo.
Seus movimentos eram extremamente naturais, como se ela fosse a verdadeira dona daquela mansão.
— Bem-vinda de volta, senhorita Serena. — Ilias fez uma leve reverência, o rosto enrugado sem demonstrar expressão alguma.
— Levem minha bagagem para cima. E lembrem-se: eu não gosto de ficar naqueles quartos de hóspedes úmidos do primeiro andar. — Serena sacudiu os cabelos dourados, os olhos cinzentos varrendo o saguão, o tom carregado de uma ordem incontestável. — Eu quero a suíte no segundo andar da ala leste. A que fica ao lado do escritório do Alexander.
Atrás dela, senti como se todo o sangue do meu corpo tivesse congelado na mesma hora.
O segundo andar da ala leste era a área dos quartos principais. Além do quarto de Alexander e do meu, e do escritório particular dele, os outros cômodos nunca eram abertos a estranhos. Era o lugar onde a consciência territorial de Alexander era mais forte.
Ilias hesitou por um instante. Seus olhos turvos olharam por cima do ombro de Serena na minha direção. Ele buscava a opinião de “Sra. Alexander”.
— Serena — dei um passo à frente, tentando manter a voz firme —, a ala leste é uma área privada. O quarto de hóspedes voltado para o sul, no primeiro andar, recebe boa luz e seria mais adequado para você…
— Luz do sol? — Serena virou a cabeça de repente, me encarando como se eu fosse uma idiota. Aproximou-se, baixando a voz, o canto da boca se curvando num sorriso frio e maldoso. — Irmã, você esqueceu o que eu sou agora? Você quer que eu fique no quarto com mais sol? Está tentando me assar até virar cinzas?
— Não foi isso que eu quis dizer. Você pode fechar as cortinas blackout…
— O que está acontecendo?
Uma voz baixa e fria, magnética como um violoncelo, veio da escadaria do segundo andar, interrompendo minhas palavras na mesma hora.
O ar do saguão inteiro pareceu ser sugado naquele instante. Todos os servos de sangue baixaram a cabeça profundamente, sem ousar respirar.
