Capítulo 1

Engoli mais uma dose, ignorando a ardência.

Do outro lado do salão lotado do banquete, Lucas Vitter nem sequer olhou na minha direção.

Hoje era a comemoração do terceiro ano dele no comando do sindicato da família.

E também era para ser a noite em que a gente finalmente colocaria tudo dentro da lei.

Cinco anos juntos, três como a secretária que carregava o piano por ele, e dezoito promessas quebradas de ir ao cartório.

Enquanto eu bebia até embrulhar o estômago, mantendo os capos dele entretidos, Lucas estava enfiado num reservado, cochichando com a advogada novinha em folha, Selena Blake.

Mesmo assim, eu ainda me agarrava à ilusão patética de que hoje a gente assinaria nossos papéis de casamento. Essa ilusão morreu na calçada, do lado de fora.

Lucas encostou o Maybach, mas, quando eu peguei na maçaneta, as travas desceram com um clique. Expulsa. O vidro baixou só um dedo.

— A Selena exagerou tentando acompanhar. Vou levar ela pra casa — ele disse, sem emoção. — Pega um Uber. O cartório vai ter que ficar pra depois.

Ele não ficou ali pra discutir. Desceu, deu a volta pela frente do carro e, com toda a delicadeza, acomodou a Selena, vermelha de bebida, no banco do passageiro.

Dezoito adiamentos. Ultimamente, a maioria tinha a ver com ela.

A Isabella de antes teria desabado no asfalto. Eu teria gritado, feito escândalo, exigido saber o que valiam cinco anos da minha vida.

Hoje, eu só sorri.

— Claro.

Lucas congelou, a mão pesada no batente da porta, visivelmente desconcertado com a total ausência de drama.

Mas, um segundo depois, a máscara gelada voltou pro lugar.

— Eu te trago um presente hoje à noite.

Ele foi embora, fazendo questão de deixar o vidro da Selena bem fechado.

O vento cortante de Chicago atravessou meu vestido, mas meu peito já tinha ficado completamente dormente.

Puxei o ar devagar, dobrei o requerimento de casamento que eu tinha guardado a noite inteira e enfiei direto no fundo da bolsa.

Eu não voltei pro nosso cobertura. Fui direto pra sede do Grupo Vitter.

Coloquei minha carta de demissão assinada em cima da mesa do Marcus. Ele era o Diretor de Recursos Humanos.

— Isabella… o que é isso? — a voz dele falhou quando viu o envelope.

— Estou pedindo demissão.

Ele pegou o envelope, mas não abriu. Só olhou pra minha assinatura na frente.

— O senhor Vitter já sabe?

— Eu falo com ele depois. Não que ele vá se importar. Agora ele tem alguém mais capaz ao lado dele.

Marcus ficou em silêncio por um bom tempo.

Ele pousou o envelope sobre a mesa. Não arquivou, não empurrou de volta. Só me encarou, com uma relutância evidente nos olhos.

— Eu apoio a sua decisão.

— Isabella, você está com ele há três anos. Começou como secretária júnior e chegou a Assessora Sênior em Desenvolvimento Estratégico. As duas expansões na Europa — aqueles relatórios de due diligence foram só seus. Aquela fusão do ano passado, aquela em que o órgão regulador estava no nosso pé — eu ouvi dizer que você montou toda a estrutura de risco antitruste. Três meses virando noite.

Ele fez uma pausa.

“E ninguém fora destas paredes sabe de nada. Na assembleia anual de acionistas, a mulher ao lado dele, recebendo os aplausos, era a Selena.”

Eu sorri.

“Eu estava sendo paga. Fazia parte do trabalho.”

“Você estava sendo paga com sacrifício.” Marcus suspirou, tirando os óculos para limpá-los. “Dois anos atrás, eu tirei você do grupo de secretárias porque queria que você tivesse seu próprio caminho. Mas você escolheu continuar na sombra dele.”

“Agora eu quero sair e ver o mundo.”

Ele sustentou meu olhar por um longo instante.

Então trancou minha carta de demissão na gaveta e se levantou, estendendo a mão.

“Quando você vai embora?”

“Depois de amanhã.”

“Então hoje e amanhã não contam como folga. A porta do Desenvolvimento Estratégico continua aberta pra você. Se um dia você quiser voltar, venha direto falar comigo.”

Eu apertei a mão dele.

“Obrigada, Marcus.”

Dez horas. Eu já estava de volta ao meu apartamento, fazendo as malas.

Meu celular acendeu com uma notificação — atualização no Instagram da Selena. Eu nem lembrava de seguir ela.

A foto mostrava uma sala reservada num restaurante japonês. Uma travessa de sashimi impecável na mesa, um copo de saquê perto da mão dela. O enquadramento pegava só um canto da mesa — e a mão esquerda do homem sentado à frente.

Dedos longos. Nós dos dedos bem marcados. Uma cicatriz antiga e pálida na membrana entre o polegar e o indicador.

Eu conhecia aquela cicatriz. Eu tinha ficado sentada ao lado dele no pronto-socorro na noite em que ele levou doze pontos.

No dedo anelar: uma aliança lisa de platina.

Ele costumava dizer que anéis eram grilhões. Dizia que a gente usaria quando estivesse casado.

Cinco anos. Eu acreditei nele por cinco anos.

A legenda dizia:

[Obrigada pelo presente. Obrigada por me ajudar a passar pelo ano mais difícil. Um brinde ao próximo capítulo — espero que você ainda esteja nele.]

Postado às 21h45.

Pouco antes disso, ele tinha mandado uma mensagem falando de um evento de trabalho que ia até tarde.

Eu não respondi. Virei o celular com a tela pra baixo.

Então abri meu e-mail.

Duas dúzias de mensagens não lidas. Propostas de recrutadores das melhores empresas de Nova York, Boston, Los Angeles. Elas vinham caindo na minha caixa de entrada havia três anos, e eu nunca tinha olhado nenhuma com seriedade.

Naquela noite, eu abri uma por uma. Li cada palavra.

Meu cursor parou no e-mail com a insígnia da íris negra no rodapé do remetente.

A Costa Oeste. Território da família Morinetti — inimigos jurados de Lucas Vitter.

Anos atrás, homens dos Morinetti tinham matado gente da família dele naquele tiroteio. Depois disso, o nome “Morinetti” virou tabu na propriedade dos Vitter.

Ele nunca mais pisou na Costa Oeste. Nunca permitiu que nenhum membro do círculo principal tivesse qualquer negócio com eles.

Apaguei a luz do abajur e fiquei sentada no escuro por um bom tempo.

“Lucas”, eu sussurrei, “quando eu chegar à Costa Oeste, nós dois vamos estar acabados de vez.”

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