Capítulo 2

Na manhã bem cedo do dia seguinte, a porta escancarou enquanto eu ainda arrumava minhas coisas.

Lucas parou na soleira, com uma cara de exausto. Atrás dele veio o rastro de um perfume desconhecido — doce demais, enjoativo — nada parecido com o que eu usava.

Ele costumava odiar perfumes fortes. Quando, por engano, eu passei um diferente para ir trabalhar, ele franzia a testa. Fazia tempo que eu tinha parado de usar qualquer fragrância.

Agora eu entendia. Não era o perfume que ele odiava — era quem estava usando.

Ao ver minhas malas, ele hesitou. “A Selena estava bêbada demais ontem. Arrumei um quarto de hotel pra ela. Ficou tarde, então eu não voltei.”

Eu assenti, sem dizer nada.

Ele chegou mais perto, reparando na minha mala. “Você tá arrumando as coisas pra uma viagem de trabalho?”

“Pode-se dizer que sim.”

Ele pareceu aliviado. “Tenho uma reunião de manhã — só vou pegar uns arquivos. Volto mais cedo e janto com você.”

“Tá.”

Meu coração nem se mexeu. Eu sabia que era só mais uma mentira.

Voltei a dobrar as roupas. Eu tinha planejado contar a ele, no jantar, sobre a minha demissão, para encerrar oficialmente esses cinco anos. Agora parecia inútil.

Lucas pegou uma pasta no escritório e foi em direção à porta. Quando passou pelo hall de entrada, a barra do sobretudo roçou na quina do aparador.

Creck.

Eu levantei a cabeça num sobressalto.

Era a caixinha de música. A que a gente tinha encontrado cinco anos atrás numa loja de antiguidades em Florença, perto da Ponte Vecchio. Caixa de madeira, corda de latão. Dentro, uma bailarina entalhada à mão girava quando você abria a tampa. Eu tinha ficado com o rosto colado no vidro por tanto tempo, querendo, mas sem conseguir justificar o preço. Na manhã seguinte, ela apareceu em cima do meu travesseiro no hotel.

“Um dia, quando eu assumir a família”, ele disse, “eu vou comprar mais caixinhas de música pra você. Vamos espalhar pela nossa casa.”

A gente até teve uma “casa” depois. Mas ele tinha esquecido aquela promessa fazia tempo.

Agora ela estava no chão. A madeira partida em duas. A bailarina quebrada na cintura. Molas e engrenagens espalhadas por todo lado.

Lucas olhou para baixo. Depois, para o relógio.

“Eu mando alguém consertar.”

Ele pegou a sacola de presente da Hermès que estava pendurada perto da porta e saiu apressado.

A porta se fechou com suavidade.

Eu me agachei e juntei os pedaços, um por um. Cinco anos dando corda tinham deixado o latão liso. Eu segurei a bailarina quebrada na palma da mão. A saia de tule estava amassada, como um sonho dobrado vezes demais e enfiado numa gaveta.

Depois de um bom tempo, eu varri tudo para o lixo.

Aquela caixinha de música e cinco anos amando ele foram juntos.

Anoiteceu. Minhas malas estavam prontas. Eu fiquei sentada no sofá, olhando para o nada.

Meu celular vibrou. Leah — minha colega no Vitter Group e, depois, minha melhor amiga. A única que sabia de mim e do Lucas.

“O chefe levou a Selena pra jantar no Four Seasons hoje. Alguém conseguiu fotos. Olha.” Ela mandou uma foto tirada sem pose.

Na imagem, Lucas tinha colocado o paletó do terno sobre os ombros da Selena. Eles atravessavam juntos a porta giratória do hotel, lado a lado. Na mão da Selena estava a sacola da Hermès que ele tinha levado do meu apartamento naquela manhã. Dentro: um xale de cashmere.

Então ele tinha voltado de propósito — para entregar o presente dela.

“Vocês nem se divorciaram ainda! Como ele pode te trair assim com uma subordinada?”

Vieram mais mensagens. “Parece que estão comemorando o aniversário de trabalho dela.”

Claro. Hoje também era o aniversário da nomeação da Selena como Diretora Jurídica do Vitter Group. E também o nosso quinto aniversário juntos.

Ele nunca lembrava de aniversário nenhum. Com o tempo, eu também parei de lembrar.

Fiquei encarando a tela por um bom tempo antes de responder à Leah: “Não precisa comprar briga por mim. A gente nunca registrou o casamento, então não tem do que se divorciar.”

“O quê? Cinco anos juntos e vocês nunca registraram?!”

A voz da Leah explodiu na ligação imediata, vibrando de incredulidade.

Sim. Cinco anos atrás, a gente começou a morar junto. Três anos atrás, ele assumiu os negócios da família, e eu achei que, finalmente, ele ia me reconhecer publicamente como a mulher dele. Em vez disso, eu ganhei um cargo de secretária ao lado dele.

Ele dizia que nosso relacionamento não precisava de um casamento de cerimônia e ficava adiando o registro. Dezoito vezes.

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