Capítulo 3

Naquela noite, às nove, Lucas chegou em casa.

Ele se livrou do casaco e foi pendurá-lo, mas parou. O olhar dele ficou preso no armário de canto vazio.

— Cadê a caixinha de música de Florença?

Ele nem se deu ao trabalho com o casaco. Foi direto para a sala, com uma urgência estranha no passo.

Eu não levantei os olhos.

— Quebrou.

— Quebrou? — ele franziu a testa. — Como?

Eu o observei. A confusão dele parecia genuína.

Claro que parecia. Quando a barra do casaco dele esbarrou no armário naquela manhã, ele estava ocupado demais olhando o relógio, calculando em quanto tempo conseguiria levar para ela o xale que ela tinha esquecido.

Ele não fazia ideia do que tinha estilhaçado.

— Você derrubou hoje de manhã — eu disse.

A testa dele se enrugou ainda mais.

— Vou mandar o Vincent encontrar alguém pra restaurar. Aquela loja em Florença ainda existe… no pior dos casos, eu compro outra pra você.

Ele jogou o casaco no braço do sofá e tirou da bolsa uma caixinha de joias da Hermès.

— Um presente. Pelo de ontem. Feliz cinco anos de casamento.

Uma pulseira riviera de platina com diamantes. Ele colocou a caixa na mesa de centro e a empurrou na minha direção.

Eu olhei para a pulseira. Depois, para o comprovante — comprado meia hora atrás. A compreensão veio de uma vez. Ele tinha passado a tarde comemorando com Selena no Four Seasons, e isso o lembrou que dia era. Pegou isso no caminho de saída.

Talvez tivesse sido até um brinde por causa do xale de cashmere.

O que ele não sabia: já havia duas pulseiras idênticas na minha gaveta. Uma de três anos atrás. Outra do ano passado. Mesma ocasião. Mesmo “presente de compensação”.

Ele nunca perguntou o que eu realmente queria.

Eu não disse nada. Só olhei para ele.

Meu silêncio pareceu deixá-lo desconfortável. Ele pigarreou.

— Ah, e sobre a eleição do conselho da família no fim do ano… a indicação para diretor jurídico do departamento jurídico do grupo… você poderia abrir mão dessa vez?

Os olhos dele não encontraram os meus direito. Uma hesitação rara.

— A Selena tá na Vitter há um ano agora. Ela precisa dessa posição pra se firmar. Você é a minha mulher — você pode pegar isso a qualquer hora.

Eu ri.

Não de dor. De absurdo.

— Tá bom. — Eu assenti, tranquila.

Não só este ano. Ela podia ficar com isso todo ano. Eu não ia mais disputar nada com ela.

Porque eu estava deixando você.

— Você… você concorda?

Meu consentimento rápido o deixou inquieto. Ele ficava me olhando de lado.

— A Selena veio do nada, se esforçou pra chegar onde chegou. Ela tá indo bem. Além disso, você é a minha mulher. Esse cargo significa mais pra ela do que pra você.

— Enfim, amanhã de manhã eu tô livre. A gente vai no cartório. Resolve a certidão.

Eu não disse nada.

O olhar dele caiu na minha mala aberta. A voz dele ficou mais suave.

— Que horas é seu voo amanhã?

— Duas da tarde.

Eu encarei ele.

Essa era minha última chance. De dizer que eu tinha pedido demissão. De dizer que eu estava indo para a Costa Oeste. De dizer que a gente nunca mais ia se ver.

Então o telefone dele tocou.

A voz da Selena, delicada e impotente — o encanamento tinha estourado. Ela precisava que Lucas fosse até lá.

Ele desligou e me olhou, quase desculpado.

— A Selena tá com uma emergência… ela não dá conta sozinha. Eu tenho que ir lá.

O tom dele era suave. Quase como se ele estivesse pedindo permissão.

— Ela não devia chamar um encanador em vez do chefe?

— Ela acabou de se mudar. Talvez ainda não conheça os serviços daqui.

Eu engoli tudo o que eu queria dizer. Ainda consegui esboçar um sorrisinho.

— Tudo bem. Vai.

Um alívio passou pelo rosto dele.

— Seu voo é às duas. Ainda dá tempo. Dez da manhã no cartório. Eu vou estar lá.

Ele chegou à porta e então olhou para trás.

— Dessa vez, aconteça o que acontecer, eu juro que eu vou.

A porta se fechou.

O silêncio se instalou na sala.

A caixa da Hermès ainda estava na mesa de centro, a tampa aberta, os diamantes brilhando frios sob a luz do abajur.

Eu não toquei nela.

Na manhã seguinte, eu não fui ao cartório.

Peguei minha mala e embarquei num voo para a Costa Oeste.

O meio-dia veio e passou. Nenhuma ligação do Lucas perguntando por que eu não estava lá.

Só quando eu estava prestes a embarcar é que meu celular acendeu com a mensagem dele.

“Desculpa — o apartamento da Selena tá um caos, o cano estourou e ainda não consertaram. Acabei de deixar ela mais tranquila.”

“A gente perdeu o cartório hoje. Assim que você voltar da sua viagem, a gente vai na primeira hora.”

Eu encarei a tela.

Dezenove vezes.

Abri a conversa e digitei:

[Esquece, Lucas. Acabou. Eu tô a caminho da Costa Oeste. A gente não vai mais se ver.]

Enviei e caminhei em direção ao portão de embarque.

Meu celular explodiu de notificações. Todas do Lucas.

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