Capítulo 1
Ponto de vista de Iris
Eu queimo oitenta anos da minha vida criando três cães que se viram e cravam os dentes em mim.
Meu marido, Damian, costumava ser um pária coberto de feridas purulentas, amaldiçoado a temer o sol. Eu cortei o pulso e abri mão de trinta anos da minha vida para que ele pudesse se tornar o homem mais poderoso entre as linhagens, controlando metade da riqueza do mundo. Frio e implacável com todo mundo, ele só mostra as presas para mim.
Knox, o garoto com quem cresci, nasceu com um defeito genético que o impedia de se transformar. Eu desisti de mais vinte anos para que ele tivesse a linhagem mais forte de todas. Selvagem e imprudente, ele costumava jurar que me carregaria nas costas pelo resto da vida.
Julian, meu irmão, ficou queimado a ponto de não ser reconhecido ao me salvar de um incêndio. Eu passei meus últimos trinta anos devolvendo a ele um rosto pelo qual as pessoas pagariam uma fortuna. Ele costumava mandar caixas das pinturas dele para o meu quarto — obras do tipo que as pessoas matariam para ter.
Aí aparece uma mulher chamada Daphne, e os três perdem a cabeça por ela.
E, de algum jeito, eu viro a esposa ciumenta e cruel que todo mundo quer ver longe.
Ela chora dizendo que eu a empurrei, então eles enfiam lâminas de sangue direto nos meus ossos.
Ela diz que eu sou cruel com os funcionários, então eles quebram as minhas pernas na frente de uma multidão.
E quando eu estou morrendo, eles drenam o meu sangue para mantê-la viva.
Se vocês vão tratar a vida que eu dei a vocês como lixo, então eu vou tomá-la de volta. A força, o rosto, a vida. Tudo.
[Deus, eu tomo de volta. Eu quero tudo o que eu dei a eles devolvido para mim.]
— Damian... devagar, isso dói...
A voz de Daphne flutua de trás da porta entreaberta, doce e ofegante.
Eu estou encostada no batente da porta do último andar da Torre Ashgrove, com o sangue do meu estômago encharcando o vestido e pingando no carpete.
Pela fresta da porta, eu observo o homem que um dia jurou me amar por toda a eternidade. Ele está ajoelhado, segurando o dedo de Daphne como se fosse algo precioso, embora ela mal tenha rompido a pele, e o rosto dele está suave de preocupação.
Uma hora atrás, os seguranças dele me jogaram escada abaixo, porque Daphne ligou chorando, alegando que eu a tinha empurrado.
A parte engraçada é que eu nem cheguei perto o bastante para encostar nela.
Esse é Damian. Agora o chefe da Primeira Casa, o homem que comanda metade da economia do mundo.
E meu marido.
Ele nem sempre foi assim. Eu fecho os olhos e volto àquele porão úmido e escuro de dez anos atrás.
Naquela época, Damian era amaldiçoado pela própria linhagem, apavorado com a luz do sol, o corpo inteiro coberto de feridas. Como um rato que tivesse saído rastejando do esgoto.
Fui eu. Eu fui até o altar e cortei o pulso, abri a carne, entreguei trinta anos inteiros da minha vida para quebrar aquela maldição por ele.
Deus tomou a minha juventude e a minha vitalidade e, em troca, deu a Damian a capacidade de andar sob a luz do dia, deu a ele uma força que nada podia tocar.
Uma vez, ele me segurou sob o sol da manhã, chorando no meu pescoço. “Iris, você me deu esta vida. De agora em diante, se alguém te machucar, eu vou despedaçar essa pessoa.”
Agora é ele quem está prestes a me despedaçar, por outra mulher.
Engulo o sangue que sobe na minha garganta e empurro a porta pesada.
Ela bate com força na parede, e o estrondo faz os dois se sobressaltarem. Daphne recua como um animal assustado e se enterra no peito de Damian, os olhos se enchendo de lágrimas na mesma hora.
“Iris... por favor, não fica com raiva, eu juro que não quis estragar a gravata que você deu ao Damian... por favor, não me machuca...”
Damian se vira num giro, e os olhos dele — geralmente tão escuros e quentes — brilham em vermelho-sangue no instante em que pousam em mim.
“Iris, você tem muita coragem de aparecer na frente da Daphne.” A voz dele sai fria como gelo.
Ignoro o teatrinho patético de Daphne e tiro um pergaminho de dentro do casaco, um canto manchado de escuro com sangue.
É o contrato. Aquele que nos prendeu um ao outro para a vida toda.
“Damian, eu quero sair.” Minha voz sai destruída, mal parece minha. “Assina. Depois disso, acabou. De uma vez por todas.”
As pupilas dele se contraem, e um sorriso cruel se espalha pela boca.
“Sair do contrato? Ainda fazendo doce?” Ele começa a vir na minha direção. “Você acha que ficar abanando essa porcaria vai me fazer perdoar o que você fez com a Daphne?”
“Eu não empurrei ela.” Eu digo seco, sem emoção.
“Ainda vai mentir na minha cara?”
Damian ergue a mão e fecha o punho.
Duas lâminas de sangue surgem num estalo e atravessam direto o meu ombro.
Eu cerro os dentes com força, engolindo o grito, mas a dor ainda me derruba de joelhos.
O sangue jorra, encharcando o meu vestido branco.
“Damian, para, a Iris está sangrando tanto...” Daphne cobre os olhos atrás dele, o retrato do horror — mas o canto da boca dela continua se curvando para cima.
“Ela é uma mulher venenosa. Um pouco de sangue não é nada.” Damian me encara, frio, e torce os dedos.
As lâminas dentro do meu ombro brotam farpas e rasgam a carne.
A dor é tão grande que eu fico encharcada de suor frio, a minha visão escurecendo nas bordas.
“Iris, você sempre foi durona, não foi?” Damian se aproxima e ergue meu queixo com a ponta do sapato, os olhos brilhando de satisfação cruel. “Quer sair do contrato? Tudo bem.
“Rasteja até a Daphne e implora pelo perdão dela. Continua até ela ficar satisfeita, e eu vou ser generoso o bastante para deixar você ir embora.”
