Capítulo 2

Ponto de vista de Iris

Minha visão está embaçando, mas mantenho os olhos fixos naquele rosto lindo à minha frente.

Deus… é este o homem por quem eu abri mão de tudo?

Eu rio, mesmo com a boca cheia de sangue.

— Do que você está rindo? — o cenho de Damian se franze, um lampejo de irritação cintilando nos olhos dele.

Não respondo. Uso o que me resta de força para erguer a mão direita, morder o dedo e pressionar a ponta ensanguentada no pergaminho.

Uma luz vermelha ofuscante explode, e algo bem no fundo de mim cede com um som surdo e pesado.

O contrato foi quebrado.

Os olhos de Damian se arregalam um pouco, como se ele não conseguisse acreditar que eu realmente teria coragem de quebrá-lo sozinha.

Quebre um vínculo desses por conta própria, e toda a reação volta para você.

Tusso um bocado de sangue, meu corpo inteiro queimando de dentro para fora, mas meus olhos nunca estiveram tão claros — nem eu tão certa.

— Damian, acabou. — Eu forço as palavras com o último fio de ar e jogo o pergaminho aos pés dele. — Você está livre.

Damian encara o pergaminho, o rosto ficando cinzento.

Algo na falta de vida do meu olhar parece atravessá-lo, e uma raiva que ele não consegue controlar engole o pouco de razão que ainda restava.

— Ótimo. Maravilha. — Ele solta uma risada furiosa e estala a mão para a frente. Uma onda de força se choca contra o meu peito.

Eu sou arremessada como se não pesasse nada e bato na parede do corredor com tanta força que ouço algo estalar.

Damian se vira sem me lançar outro olhar e puxa Daphne com cuidado para os braços.

— Sai. Não faça ela olhar para você.

Eu nem lembro como consigo sair da Torre Ashgrove.

Lá fora cai um temporal; a chuva gelada atinge meus ferimentos como cem agulhas minúsculas. O corte no meu ombro ainda sangra, pelo menos três costelas estão quebradas, e cada respiração vem com um ruído molhado, sanguinolento.

Eu me arrasto pela rua vazia à meia-noite, mal conseguindo me manter de pé.

Um motor ruge no silêncio da chuva.

Um carro esportivo prateado faz uma curva fechada na pista encharcada e para bem na minha frente, levantando uma onda de água barrenta que me ensopa dos pés à cabeça.

A porta se abre de supetão, e alguém desce, alto e largo de ombros.

É Knox.

Ele nem se dá ao trabalho de pegar um guarda-chuva; deixa a chuva encharcar o cabelo prateado e selvagem. Está usando uma jaqueta de couro preta esticada sobre o corpo. Os olhos dele brilham num verde sinistro, cheios de algo feroz, e o ar ao redor parece prestes a se romper.

— Bem impressionante, Iris. — Knox atravessa a distância em dois passos e agarra um punhado do meu cabelo encharcado.

O puxão no meu couro cabeludo força minha cabeça para trás, e fico encarando diretamente os olhos dele, queimando de raiva.

"A Daphne acabou de me mandar mensagem. Disse que você foi pra cima do Damian feito uma psicopata, encheu o vestido dela de sangue e a assustou pra caralho." O maxilar de Knox está tão travado que consigo até ouvir. "Você tá querendo morrer, é isso?"

Eu olho para ele, e parece que alguma coisa invisível está esmagando meu coração.

Knox. O garoto com quem eu cresci.

Ele nasceu com a linhagem, mas nunca conseguiu se transformar. Quando fez dezoito anos, aquilo começou a destruir ele por dentro; em toda lua cheia, os ossos dele pareciam estar sendo esmagados um por um. Os médicos disseram que ele não passaria dos vinte.

Fui eu. Eu voltei àquele altar e abri mão de mais vinte anos da minha vida.

Troquei a minha vida para que ele nunca mais precisasse sentir aquela dor, para que finalmente pudesse se transformar.

Eu ainda me lembro da primeira lua cheia que não machucou mais ele, da noite em que ele se transformou naquele lobo prateado pela primeira vez. Ele me derrubou na grama, tão empolgado, esfregando a cabeça grande e peluda no meu pescoço, e jurou de pés juntos: "Iris, vou te carregar nas costas pelo resto da minha vida. Se alguém mexer com você, eu acabo com essa pessoa."

E agora ele está prestes a me pôr debaixo da terra por causa de um vestido.

"Fala alguma coisa! Ficou surda agora?" Quando não respondo, Knox me empurra para longe.

Eu rolo pelo concreto áspero, e minhas costelas, que já estavam quebradas, sofrem outro impacto. O sangue jorra da minha boca, misturando-se à água no chão.

"Knox..." Estou estendida no chão, mal conseguindo erguer a cabeça, minha voz quase se perdendo na chuva. "Você esqueceu... quem te deu essa vida?"

Aquilo claramente acerta um nervo.

"Você é muito cara de pau de tocar nesse assunto." Knox avança sobre mim e pisa com força na minha perna direita.

Um estalo horrível ecoa pela garagem.

É o som de um osso se partindo.

A dor dispara direto para a minha cabeça, e o suor frio se mistura com a chuva até eu não conseguir mais enxergar direito.

"Você me salvou uma vez, então eu aguentei toda a sua merda. Mas isso não te dá o direito de machucar ela!" Os olhos de Knox estão frios como gelo e, em vez de aliviar, ele enterra o pé ainda mais.

O osso quebrado rasga a pele, e o sangue se espalha rápido pelo chão molhado. A dor atravessa o meu corpo inteiro, e eu não consigo parar de tremer.

"Ela é a pessoa mais doce que eu conheço, não faria mal nem a uma mosca, e você vai atrás dela? Só porque nós dois por acaso gostamos dela agora? Iris, você me dá nojo."

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