Capítulo 3

Ponto de vista de Iris

Mordo o lábio até ele se abrir, e o sangue enche a minha boca. Não imploro mais. Não discuto mais.

E eu finalmente entendo. O garoto que tremia nos meus braços nas noites de lua cheia se foi. A coisa que está diante de mim agora é só um cachorro raivoso.

Baixo o olhar para a minha perna destruída, e alguma coisa nos meus olhos passa da dor para uma calma morta.

Eu paro de lutar. Só fico ali, deitada na lama, e deixo que ele me pise.

Meu silêncio parece desestabilizar Knox, deixá-lo inquieto. Os olhos dele pousam no meu celular, largado na lama onde caiu.

Ele dá uma olhada na tela. O papel de parede ainda é uma foto dele, a mesma que eu coloquei há muito tempo.

Knox bufa e esmaga o aparelho sob o salto.

— Para de olhar pra mim como se já tivesse desistido. — Ele se vira. — É isso que você deve a ela.

Minha perna direita já era. Inútil.

Eu nem sei como consigo me arrastar de volta até a propriedade debaixo da chuva.

Minhas unhas estão rasgadas e sangrando de tanto me puxar pelo asfalto. Atrás de mim, a chuva lava meu sangue, deixando uma trilha quebrada pela rua.

A propriedade ainda está iluminada.

Uso o que restou de força para empurrar a porta. Ela está só encostada.

Lá dentro, uma música clássica toca baixo. Meu irmão, Julian, está sentado diante do cavalete, com um pincel na mão.

À frente dele, no sofá de veludo, Daphne está sentada num vestido branco novinho, posando como se fosse de porcelana.

— Você me deixou bonita demais. Eu não pareço nada assim. — Daphne dá uma risadinha, com aquela voz enjoativamente doce.

— Pra mim, você é uma obra de arte. Sempre foi. — A voz de Julian é quente, cheia de carinho.

Ele ergue os olhos, e aquele rosto dele poderia ter sido esculpido pelo próprio Deus. Traços afiados, olhos fundos, uma linha da mandíbula como se tivesse sido talhada em mármore.

Mas ninguém aqui jamais imaginaria que esse rosto um dia foi queimado a ponto de ficar irreconhecível.

Houve um incêndio na propriedade, anos atrás. Julian foi atingido por uma viga que caiu quando tentava me puxar para fora, e acabou coberto de queimaduras, o rosto queimado além do reconhecimento.

Durante anos depois disso, ele se trancou num quarto escuro, quebrou todos os espelhos da casa e gritou como algum tipo de monstro.

Fui eu. Eu voltei ao altar de novo.

Eu abri mão dos meus últimos trinta anos.

A essa altura, eu já tinha consumido oitenta anos de uma vida normal, ficando com um corpo que podia ceder a qualquer momento.

Troquei a minha vida para que a pele dele se curasse, para que ele pudesse ter o rosto que tem agora, aquele que ninguém consegue parar de encarar.

O sangue escorre de mim, pingando no chão com um som baixo e molhado.

O pincel de Julian congela no meio da pincelada. Ele se vira e me vê no chão, perto da porta.

Não há nada naquele rosto perfeito além de nojo.

Ele franze a testa e chega a tapar o nariz. “Iris? E agora? Você fede a sangue. Vai estragar o chão.”

“Meu Deus, isso é sangue? Eu não consigo olhar!” Daphne solta um grito estridente e se joga nos braços de Julian. “Eu tenho tanto medo de sangue... por que ela faria isso comigo?”

Julian larga o pincel na hora e a puxa para perto, esfregando as costas dela. “Está tudo bem. Eu estou aqui.”

Então ele se volta para mim, e o olhar dele esfria. “Iris, até quando você vai continuar com isso? Damian e Knox já te deram uma lição, e você ainda não aprendeu nada? Você voltou aqui desse jeito só pra assustar ela?”

Eu fico ali, jogada no chão, olhando para o homem que costumava se colocar na minha frente para me proteger.

Para ele, isso é só algum teatrinho que eu fiz para mexer com ela.

“Julian...” Minha voz sai áspera, como se raspasse em cascalho. “Dói tanto...”

“Cala a boca. Eu não sou seu irmão.” Julian me interrompe, com a voz cortante. Ele se levanta e vem até mim.

Ele pega uma faca de entalhe do suporte da escultura ao lado dele.

“Você tem a estrutura óssea dela. Quase o mesmo rosto. Pena que por baixo tem um coração tão feio. Você não merece se parecer nem um pouco com ela.”

Meus olhos se arregalam. Eu não acredito no que estou ouvindo.

Ele se agacha, agarra meu queixo, força minha cabeça para cima. A lâmina fria encosta na minha bochecha.

“Você gosta tanto de assustar as pessoas com sangue? Ótimo. Deixa eu te ajudar.”

“Não...” Eu tento lutar contra ele, mas meu corpo está quebrado demais para reagir contra um homem adulto.

A lâmina corta a pele, o som seco na sala silenciosa. Julian não se contém. Ele arrasta a faca pela minha bochecha, até a mandíbula, fundo o bastante para bater no osso.

A dor me atravessa como um rasgo, e meu corpo inteiro convulsiona. Sangue quente jorra, enchendo meu olho. Tudo fica vermelho.

“Julian, para, isso é tão cruel...” Daphne cobre o rosto atrás dele, encenando horror, mas por entre os dedos eu pego o brilho de satisfação nos olhos dela.

Julian joga a faca ensanguentada no chão.

Ele tira um lenço, limpa o meu sangue dos dedos como se fosse alguma coisa imunda e o atira no meu rosto.

“Assusta ela de novo, e eu mesmo vou arrancar a sua pele.”

Eu fico ali, deitada numa poça do meu próprio sangue, encarando o lustre através do lenço encharcado.

E, de algum jeito, toda a dor simplesmente... para. Fica dormente.

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