Capítulo 4

Ponto de vista de Iris

Fecho os olhos e, lá no fundo da alma, estendo a mão pela última vez para Deus.

[Deus... eu retiro o que disse.]

[Três milagres, comprados com oitenta anos da minha vida, e todos eles são uma piada.]

[Eu quero tudo de volta.]

Uma voz responde na escuridão, calma e de outro mundo.

[Iris, se você retirar seu voto, os dons que você entregou voltarão aos seus verdadeiros donos. Mas os anos que você gastou não podem ser desfeitos. Você vai morrer, e não vai ser de um jeito gentil. Tem certeza?]

Solto uma risada baixa.

[Tenho.]

[Entendido. Em vinte e quatro horas, será como você deseja.]

Vinte e quatro horas. É todo o tempo que me resta neste mundo.

Na noite seguinte, acontece a festa de aniversário de vinte anos de Daphne, num iate particular ancorado na costa de Hamptons.

A segurança de Julian me arrasta para o meio do salão.

Estou usando um vestido fino e rasgado, com o corte na minha bochecha coberto por uma crosta feia, o osso da minha perna direita ainda para fora, e cada movimento mínimo dispara uma dor que me atravessa.

O salão está cheio de gente de traje formal, e cada uma dessas pessoas me encara como se eu fosse algo que rastejou para fora do esgoto.

Damian está ao lado de Daphne com uma taça de vinho, parecendo elegantemente impecável sem esforço algum. Knox se escora numa coluna, me observando do jeito que se observa uma presa. Julian ajeita com delicadeza o cabelo de Daphne.

— Damian, Julian, Knox, por favor, não façam isso com ela. É o meu aniversário. Eu não quero ver sangue. — Daphne fica no meio de todos, num vestido feito sob medida.

— Você é boa demais pro seu próprio bem. — Knox sorri de lado. — Depois do que ela te fez passar ontem à noite, ela te deve um pedido de desculpas.

Damian estala os dedos, e alguns garçons empurram carrinhos carregados de caixas cheias de taças de vinho.

Eles quebram taça após taça no chão à minha frente, até que os cacos se estendam num caminho cintilante com mais de nove metros de comprimento, pegando a luz em pequenos flashes frios.

— Rasteje por isso, chegue aos pés dela e deseje feliz aniversário. Faça isso e eu deixo você sair da cidade. — A voz de Damian não tem nenhum traço de calor.

— Não é o bastante. — Julian sorri, e aquele rosto perfeito dele está cheio de crueldade. — Daphne anda anêmica ultimamente. O médico disse que ela precisa de uma transfusão de alguém com o mesmo tipo sanguíneo. Quando você terminar de rastejar, vamos tirar de você o que a gente precisa.

Eles querem me ver morta. É só isso.

Estou no chão, olhando para os três homens a quem um dia eu dei tudo para salvar, e não sinto nada. Meus olhos estão serenos, lisos como água parada.

[Faltam três minutos.] A voz de Deus ecoa na minha cabeça.

— Tá bom. — A palavra sai rachada.

Sem súplica, sem raiva. Eu me ergo com as mãos já encharcadas de sangue e pressiono meus joelhos destruídos sobre o vidro quebrado.

Os cacos atravessam a pele direto, até o osso.

Cerco os dentes e começo a arrastar a minha perna quebrada para a frente, centímetro por centímetro.

O sangue borra o vidro atrás de mim, deixando um longo rastro vermelho.

O salão fica num silêncio mortal. Até os convidados, que um minuto atrás estavam se divertindo com o espetáculo, agora parecem incapazes de aguentar.

Mas os três apenas ficam lá, no fim do caminho, frios, como se estivessem aproveitando um show.

— Meu Deus, olha pra ela. Patética. — Knox torce o lábio, com nojo.

Eu não reajo. Minha visão já está falhando, tudo dentro de mim se desligando, e cada respiração parece mais fria do que a anterior.

Por fim, chego aos pés de Daphne.

Não sobra nada das minhas mãos e dos meus joelhos além de osso e carne rasgada, com vidro ainda encravado nas feridas.

— Feliz... aniversário. — Ergo os olhos para o rosto dela, entre apavorado e discretamente empolgado, e forço as palavras para fora.

— Peguem o sangue. — Julian dá a ordem, seco e frio.

Alguém vem com uma agulha grossa e a enfia no meu braço sem hesitar.

O sangue escorre rápido pelo tubo. Meu corpo vai ficando gelado, e o mundo começa a escurecer nas bordas.

É quando a taça na mão de Damian se estilhaça sozinha.

Ele leva a mão ao peito, a cor sumindo do rosto, os olhos arregalados e trêmulos, e algo que ele não consegue nomear começa a rastejar de algum lugar bem fundo dentro dele.

— Damian? O que foi? — Daphne arqueja.

Antes mesmo que ela termine, Knox solta um grito de dor e se dobra, agarrando os joelhos como se os ossos debaixo da pele estivessem sendo esmagados um a um.

Julian cobre o rosto com as mãos, sentindo a própria pele começar a queimar, como se um fogo estivesse se espalhando por baixo dela.

[O tempo acabou. O voto foi revogado. Os dons foram reclamados.]

Eu olho para os três, o terror estampado no rosto deles, e uso o último restinho de força que me sobra.

— Adeus.

Minha mão cai, inerte. O sangue respinga no branco do vestido de Daphne.

Meu coração para.

E, no último segundo antes de meus olhos se fecharem, eu vejo Damian empurrar Daphne para o lado, se atirando no sangue que se acumula ao meu redor, tremendo.

— Iris!

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