Capítulo 1 Correntes

LAYLA

O coração batia descompassado. A primeira dor atingiu minha coluna — um estalo surdo, profundo demais para ser apenas físico. Caí de joelhos, ofegante, sentindo o chão frio sob as mãos.

Então veio a segunda onda. Mais brutal.

Meu corpo tremia, os músculos se contraíam, e eu sentia cada fibra se despedaçando. Parecia que minha alma seria rasgada ao meio.

Meus sentidos foram os primeiros a se expandir — minha audição se tornou mais apurada, meu olfato captava cheiros antes imperceptíveis, e eu conseguia enxergar até os pequenos insetos que voavam naquela floresta.

E então, um grito rasgou minha garganta quando minha coluna voltou a se curvar, os ossos se realinhando em um ajuste doloroso.

Onde antes havia pele, agora surgiam pelos.

E, quando tudo terminou, me vi ali… com as quatro patas firmes no solo, o coração acelerado e um novo mundo se abrindo diante de mim.

Imaginei que finalmente seria livre.

— Volte à sua forma humana — a ordem veio seca.

Nikolai, o alfa — que, desde a morte misteriosa dos meus pais, passou a demonstrar um interesse incômodo em mim — me observava como um predador que finalmente havia encontrado sua presa perfeita.

Ele despertava algo primitivo em mim. Primeiro, medo. Depois, repulsa. E, por um instante vergonhoso, algo pior — submissão.

Eu odiava que meu corpo reconhecesse a autoridade dele antes mesmo que minha mente pudesse rejeitá-la.

A transformação era o momento mais sagrado da nossa espécie. Era quando nos tornávamos donos do próprio destino.

A transformação era a minha chance de partir. De deixar esta alcateia… e encontrar meu próprio caminho.

Mas, naquele instante, senti o peso das correntes invisíveis do alfa, impondo que eu pertencia a ele.

— Você jamais deve voltar à sua forma animal.

Nenhum lobo conseguia ir contra a ordem do alfa. A única maneira seria rejeitá-lo como meu alfa, mas ele consideraria isso uma traição — e eu seria punida com a morte.

— Ninguém pode saber que você passou pela transformação — ordenou, o olhar sombrio. — Se você mencionar, eu mesmo cortarei sua língua.

Ainda não entendia o que tinha feito de errado. Tudo o que fiz foi… me tornar quem eu nasci para ser.

Minha loba se ergueu dentro de mim, furiosa.

“Corra”, ela rugiu na minha mente.

Mas a ordem de Nikolai apertou o pescoço dela como uma coleira invisível. E minha loba recuou, ferida, uivando de frustração dentro do meu peito.

Depois disso, nunca mais soube o que era ser livre e jamais descobri o que havia acontecido de errado com minha transformação.

─── ✦ ───

Certo dia, nossa alcateia foi surpreendida por um ataque. Nikolai foi gravemente ferido — uma mordida profunda dilacerou seu abdômen.

O sangue jorrava sem controle. Os curandeiros tentaram de tudo. Nada funcionava. Sua regeneração natural não era veloz o suficiente para evitar sua morte.

Então ele ordenou que eu fosse levada até ele. E mesmo fraco, me fitou com autoridade.

— Me cure — ordenou. — Agora.

— Eu… eu não sei como fazer isso — gaguejei, sem entender ao certo o que ele esperava de mim.

— Toque-me e ordene a cura. Sua loba saberá como agir.

Sem acreditar que funcionaria, obedeci.

Toquei sua pele e, com voz trêmula, ordenei a cura.

A dor me atravessou como um raio. Meu corpo arqueou, uma energia violenta me atravessou e, por um momento, tudo pareceu explodir dentro de mim.

Era como se cada pedaço do meu ser estivesse sendo arrancado à força, até aquela energia alcançar o corpo dele.

Minha visão escureceu, meus joelhos cederam, e antes de ficar totalmente inconsciente, percebi que aquela ferida não existia mais.

Mais uma vez, sua voz cortou o silêncio.

— Ninguém deve mencionar o que aconteceu aqui.

Nikolai não precisava repetir.

Sua presença bastava para silenciar até os pensamentos.

Após aquele dia, descobri por que aquele alfa miserável me mantinha presa. Eu possuía um dom raro, quase extinto entre nós — o poder de cura.

Era provável que minha loba tivesse algo raro, e era exatamente por isso que ele proibiu minha transformação.

Passei quase dois dias inconsciente na enfermaria depois de salvá-lo da morte.

Porém, aquilo passou a se repetir. Nikolai deixou de ser prudente porque sabia que me tinha como seu seguro de vida.

Quando não aguentei mais aquilo, tentei fugir.

Naquela noite fui capturada e ele usou meu corpo como punição, lembrando-me cruelmente do que significava estar sob sua ordem.

Ele queria destruir tudo em mim que escapava ao seu controle. Queria forçar minha rendição, como se eu fosse um animal ferido implorando por piedade.

Suportei tudo em silêncio.

O que ele ainda não sabia era que eu nunca desistiria de tentar.

Certa noite, após salvá-lo mais uma vez da morte, fui jogada quase inconsciente em minha cama. No entanto, naquele dia, Nikolai esqueceu de um detalhe simples — e talvez o mais importante de todos: trancar a porta do meu quarto.

Quando consegui recuperar minhas forças, precisei ser rápida, silenciosa e desaparecer antes que ele percebesse minha ausência.

Nunca escolhi essa vida.

Fui forçada a ela.

Mas não mais.

Desci as escadas na ponta dos pés. Parei diante da porta da cozinha, imóvel.

O som do clique da porta foi baixo, mas ainda assim prendi a respiração.

Esperei. Nenhum som vindo de cima.

Puxei a porta lentamente, e a noite me envolveu como um manto cúmplice. Minhas pernas vacilaram, como se a liberdade pesasse mais do que eu imaginava.

Sobreviver era tudo o que me restava.

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