Capítulo 2 Liberta
Corri, evitando todos os lugares que imaginei que os guerreiros de Nikolai pudessem estar. Eu havia crescido ali.
Mas isso não foi suficiente.
Quando menos esperei, escutei rosnados.
Três lobos me cercaram, nenhum deles era Nikolai. O de pelo marrom-escuro voltou a forma humana. Alex. Um sorriso debochado surgiu em seu rosto.
— Ora, ora, ora. A Chapeuzinho tentando escapar do lobo mal.
— Por favor, deixe-me ir — implorei.
— E nos condenar a morte? — Ele riu. — Nem em seus melhores sonhos.
Outros rosnados surgiram próximo de nós e observei a fisionomia daqueles guerreiros parecerem confusas e olharam na mesma direção.
Mas dois lobos maiores surgiram. Não pertenciam à nossa alcateia, apesar de estarem em nosso território.
— Acredito que ela não vai precisar sonhar para que isso aconteça, vira-lata.
A voz feminina vinha do lado oposto dos lobos e tanto eu quanto Alex nos viramos para ela.
— Vocês estão invadindo nosso território, sua vadia — cuspiu aquele lobo.
A mulher apenas sorriu.
— Olha… você não é tão burro como eu imaginava. Pelo menos sabe os limites de sua alcateia — ela debochou.
Não sabia quem eram aquelas pessoas, mas tinha que admitir que, ou eram corajosos demais para invadirem o território de Nikolai, ou burros ao quadrado, o que não parecia o caso.
— Acho melhor você começar a correr, lobinha — disse a mulher, sem desviar os olhos de Alex.
Por um instante não tive certeza se ela falava comigo até me olhar.
— Você não vai querer lutar ao lado desses babacas, vai?
Um dos lobos uivou e eu sabia o que aquilo significava. Logo aquele lugar estaria cheio de lobos de Nikolai.
Sem esperar mais, corri me afastando de Alex. Ele tentou me segurar, mas a mulher sorriu e se colocou entre mim e ele. Aquele era o momento do tudo ou nada.
— Eu, Layla, rejeito Victor como meu alfa — minha voz saiu firme.
Um uivo ainda mais horripilante foi ouvido a quilômetros dali. Olhei uma última vez para a mulher que deteve Alex agora em sua forma de loba e os olhos dela me encontraram.
— Obrigada.
Foi a única coisa que disse antes de minha transformação acontecer.
Meu corpo vibrou com o poder que parecia correr livre por ele. Meus ossos começaram a estralar, quebrando-se e se realinhando em outro ângulo. Em poucos segundos estava com quatro patas no chão.
E o mais importante… livre das correntes invisíveis de Nikolai.
Enquanto ganhava velocidade em minha fuga, sentia a liberdade atravessar meu corpo a cada passada. Minhas patas golpeavam o chão em um ritmo cada vez mais rápido, enquanto o vento agitava meus pelos e soprava contra o meu focinho.
Eu corria sem pensar, guiada apenas pelo instinto. Meus músculos se contraíam e se estendiam sob o pelo, impulsionando-me para a frente, enquanto árvores e sombras passavam depressa ao meu redor.
Perambulei por dias em minha forma de lobo, atravessando cidades que mal registrei na memória, como se cada quilômetro percorrido fosse apenas uma tentativa de colocar distância suficiente entre mim e tudo o que eu deixei para trás.
Tinha total certeza de que não poderia deixar de correr. O longe nunca seria suficiente para Nikolai. Cheiro era algo que um lobo nunca esquecia e ele não deixaria de me caçar.
Ao pensar nisso, tive uma ideia para dificultar a caçada dele. Ao chegar em uma determinada cidade, voltei a minha forma humana. Precisei furtar algumas roupas do varal de uma casa para me vestir, e não me orgulhei disso.
Quando fugi, levei comigo apenas o pouco dinheiro que consegui juntar escondida, em um pequeno saquinho preso ao meu tornozelo.
Ao chegar a rodoviária, comprei uma passagem de ônibus para o ponto mais distante dali. Eldoria. Seriam três dias dentro de um ônibus. Nikolai teria que se esforçar muito para me localizar.
Esperei quase meia hora para embarcar. E por segurança, sentei no último assento, atenta a tudo que acontecia ao meu redor.
Depois de algumas horas de viagem, o ônibus finalmente fez uma parada para que todos pudessem se alimentar e usar o banheiro. A fome eu até suportava, mas eu precisava ir ao banheiro.
Quando retornei ao ônibus, algumas pessoas já tinham voltado da lanchonete e circulavam entre os bancos, enquanto outras ainda procuravam seus lugares.
Segurei-me no encosto de um dos bancos e comecei a avançar pelo corredor, tentando alcançar o meu lugar sem esbarrar em ninguém.
— Com licença — pedi, desviando de uma mulher que carregava uma bandeja.
Dei mais alguns passos, mas precisei parar novamente quando duas pessoas bloquearam a passagem enquanto conversavam.
Olhei por cima dos ombros delas, tentando localizar meu assento.
Só mais um pouco... — pensei comigo mesma.
O ônibus estava cheio, não havia percebido nada de incomum, até sentir duas mãos envolverem minha cintura, tocando a pele nua dos meus quadris.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Tentei me afastar, mas as mãos se apertaram, mantendo-me no lugar. Foi então que uma sensação estranha percorreu meu corpo.
Faíscas.
Centenas delas pareciam explodir sob minha pele, fazendo minha respiração falhar por um instante.
Ergui a cabeça para descobrir quem estava me segurando, e meus olhos se arregalaram. Ele era de tirar o fôlego.
Alto, com músculos bem definidos e uma postura que deixava claro que não era alguém acostumado a passar despercebido. Ele tinha olhos verdes hipnotizantes e uma mandíbula marcante que quase me fez esticar a mão para acariciá-la.
Havia algo intenso nele.
Algo que fez minha loba se agitar dentro de mim.
Um súbito rosnado profundo me fez despertar daquele momento de admiração. Ele não era simplesmente um humano. Ele era um lobo assim como eu.
A presença dele não era apenas marcante — era dominante. E naquele momento tentei me afastar, mas ele não permitiu.
Suas mãos apertaram minha cintura suavemente.
— Não tão rápido. O que faz aqui? E por que está em um ônibus?
Ele avaliou todos ao nosso redor. Talvez estivesse em busca de algum outro lobo.
O cheiro que emanava dele — cedro, âmbar e terra molhada, profundamente inebriante — atravessou minhas defesas e puxou minha loba das sombras. Senti-a querer emergir com intensidade renovada, como se tivesse encontrado algo que não imaginava.
O olhar dele se fixou em mim novamente com intensidade quase predatória.
Até que escutei minha loba rosnar em minha mente.
Meu
Meu corpo enrijeceu.
Ela estava se referindo a ele? Aquilo não fazia sentido.
— Quem é você? — perguntou, direto.
Dessa fez existia uma frieza em sua voz.
Por um segundo, vi em sua expressão traços que me lembraram Victor — a mesma postura autoritária, o mesmo tom que exigia respostas.
— Desculpe? — questionei, virando-me de frente para ele.
— Estou perguntando quem você é… e imagino que já tenha percebido ao que me refiro — disse ele, mais ríspido.
Minha loba voltou a rosnar dentro de mim.
Meu.
Eu não sabia quem aquele homem era. Não sabia de onde vinha, para onde estava indo ou por que meu corpo reagia daquela maneira quando ele me tocava.
Mas sabia de uma coisa.
Eu tinha acabado de fugir de um alfa.
E, não me entregaria a outro.
