Capítulo 3 Chamado

MALIK

Após a morte de Kiera, uma parte de mim ficou soterrada sob o luto, sufocada por uma dor que o tempo não conseguiu dissolver.

Muitas vezes precisei deixar a alcateia sob o comando de Nathan, meu beta, e sair sem destino, para aliviar a dor que parecia me consumir por dentro.

Naquela manhã, o universo parecia ter decidido que tudo mudaria.

Entrei no restaurante que, há algum tempo, já fazia parte da minha rotina.

O som das conversas e das risadas misturava-se ao arrastar constante das cadeiras no piso de madeira.

As mesas estavam todas quase ocupadas. Mas, pelo que sabia, eu era o único lobo que frequentava aquele lugar.

Até aquele momento.

O perfume foi o primeiro a me alcançar.

Rosa. Orquídea. Baunilha.

Doce e envolvente, mas não enjoativo — era como um chamado que não precisava de palavras.

No mesmo instante, virei-me na cadeira e, quando meus olhos a encontraram, todo o restante pareceu perder nitidez.

As conversas seguiam altas, as cadeiras ainda se arrastavam pelo chão — mas nada disso me alcançava da mesma forma. Era como se minha percepção tivesse sido subitamente filtrada.

Observei o jeito como os cabelos dela se moviam suavemente com a brisa que entrava pela janela, o brilho atento nos olhos, o leve franzir das sobrancelhas.

“Minha”

O reconhecimento não veio como um pensamento articulado, mas como uma certeza primitiva que se impôs antes que qualquer lógica pudesse interferir.

Meu corpo reagiu primeiro — o coração acelerou, a respiração tornou-se mais pesada — e eu soube, com uma clareza desconcertante, que aquela sensação era a mesma que eu havia jurado jamais experimentar outra vez.

Eu tinha enterrado essa possibilidade.

Junto com Kiera.

Ela saiu do restaurante sem me notar. Eu deveria simplesmente deixá-la ir, mas não conseguia ignorar a necessidade de descobrir quem era aquela loba. Foi apenas nesse momento que a vi subir em um ônibus de turismo.

Aquilo me deixou ainda mais intrigado.

Levantei-me da mesa e segui em sua direção. Não sabia qual o destino daquele ônibus, mas isso não me importava naquele momento. Eu precisava descobrir quem ela era.

Assim que meus pés alcançaram o corredor do ônibus, olhei atento a todas as direções, tentando observar se existia algum outro lobo ali, mas todos eram humanos, com exceção dela.

Havia uma delicadeza naquela loba que não combinava com o mundo que eu conhecia. O leve rubor nas bochechas denunciava nervosismo, mas os olhos… aqueles olhos não eram frágeis. Eram atentos.

Era hora de descobrir o que aquela loba estava escondendo.

Antes que meu lobo decidisse por mim.

Quando minhas mãos alcançaram sua cintura senti o formigamento em todo meu corpo. O corpo dela ficou tenso e ela tentou se afastar, mas meu lobo se recusava a deixá-la partir. Não antes de saber quem ela era e o que estava fazendo ali.

— Não tão rápido. O que faz aqui? E por que está em um ônibus?

Ela não desviou os olhos de mim. Permiti que meu lobo se manifestasse por uma pequena fração de segundo.

— Quem é você? — perguntei, direto.

Algumas daquelas pessoas já começavam a notar nossa conversa.

— Desculpe? — ela questionou, tentando expressar que não havia entendido.

— Estou perguntando quem você é… e imagino que já tenha percebido ao que me refiro — disse, um pouco mais ríspido quando ela tentou se livrar de mim.

Ela desviou os olhos dos meus e olhou para a porta do ônibus. Provavelmente avaliando suas chances de fugir. Mas elas eram quase nulas.

— Não quero causar problemas — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Não sabia que existiam… pessoas iguais a mim por aqui.

Aquilo não me convenceu.

Por que está usando um ônibus? Lobos não costumam viajar dessa maneira.

Se ela estava correndo algum risco eu queria saber.

— Isso não é da sua conta — respondeu, sustentando meu olhar com firmeza.

— Quando você está em meu território, é da minha conta, sim — declarei, e algo na forma como disse aquilo fez sua respiração falhar por um instante.

Os olhos dela buscaram as pessoas ao nosso redor e apenas naquele instante percebi que estávamos sendo observados por algumas.

— Acredito que seja melhor conversarmos lá fora — disse ela.

Afastei-me, dando espaço para que passasse.

Ela hesitou por um instante, como se não esperasse que eu simplesmente cedesse, mas logo caminhou em direção à saída.

Esperei alguns segundos antes de segui-la.

Assim que desceu do ônibus, caminhou em direção ao restaurante, mas contornou o prédio, seguindo para um espaço mais reservado ao lado. Ali, estávamos distantes o suficiente para que nossa conversa não fosse facilmente ouvida.

Ela parou e se virou para mim.

Mantive alguns passos de distância.

Não queria pressioná-la, embora cada instinto dentro de mim exigisse que eu me aproximasse. Ela parecia inquieta desde o momento em que a encontrei.

E isso não fazia sentido.

— Agora podemos conversar — disse ela.

Cruzei os braços, observando-a atentamente.

— Então me diga. O que uma loba está fazendo sozinha em meu território, viajando de ônibus e evitando responder perguntas simples?

A tensão voltou a tomar conta de sua expressão.

— Eu não sabia que precisava prestar contas da minha vida a você.

Quase sorri.

Ela tinha coragem.

Talvez coragem demais.

— Não precisa — respondi. — Mas deveria saber que qualquer lobo que entre em meu território sem ser anunciado chama minha atenção.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.

— E o que pretende fazer?

A pergunta me pegou de surpresa.

Porque, pela primeira vez, eu não tinha uma resposta.

Eu deveria simplesmente deixá-la ir. Era uma desconhecida em meu território, e tudo naquela mulher indicava que carregava problemas dos quais eu não precisava fazer parte.

Mas meu lobo discordava.

Desde que a vi partir, ele permanecia inquieto dentro de mim, insistindo que aquela mulher nos pertencia. Não como uma posse, mas como uma certeza que eu ainda não conseguia compreender.

Não acreditava em segunda chance.

Ela continuava me encarando, esperando uma resposta.

— Ainda não decidi — admiti.

Uma de suas sobrancelhas se ergueu.

— Então talvez devesse decidir rápido.

— Está com pressa?

— Estou.

A resposta veio tão firme que algo dentro de mim se contraiu.

— Para onde?

— Isso também não é da sua conta.

Um sorriso discreto surgiu em meus lábios.

— Você sempre responde assim quando alguém tenta ajudá-la?

— Eu não pedi sua ajuda.

— Não. — Dei um passo em sua direção. — Mas também não parece estar tentando exatamente fugir de mim.

Ela ficou imóvel.

A distância entre nós havia diminuído, mas nenhum dos dois parecia disposto a recuar.

Senti novamente o seu cheiro.

Era sutil, mas agora que estava perto o suficiente, tornou-se impossível ignorá-lo. Meu lobo reagiu imediatamente, e precisei conter o impulso de aproximar-me ainda mais.

— Você sente isso? — perguntei, em voz baixa.

Ela franziu a testa.

— Sinto o quê?

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