Capítulo 1

Ponto de vista de Katherine

A capa de chuva grudava nos meus ombros, pesada com a garoa implacável do Maine, enquanto eu me equilibrava num afloramento rochoso irregular com vista para uma baía sufocada pela neblina.

A névoa se enroscava na água como dedos fantasmagóricos, serpenteando entre pinheiros escuros que faziam guarda ao longo da costa. Ergui minha câmera, a lente capturando a harmonia selvagem e indomada de floresta e oceano — um instante fugaz de beleza num lugar que eu preferia esquecer. Ali, naquele penhasco áspero, o Maine era quase tolerável.

Quase.

A cena poderia estampar um folheto de turismo, bem longe da realidade áspera dos arredores de Portland onde eu estava presa. Olhei o relógio, e meu estômago se revirou. Merda. Escola. O tempo tinha escapado, e a ideia de encarar mais um dia naquela prisão iluminada por lâmpadas fluorescentes me dava arrepios.

Um mês em Portland, e eu ainda odiava cada segundo úmido e gelado até os ossos. O frio do Maine era uma coisa viva, infiltrando-se por entre as camadas de roupa para roer meu interior, tão diferente do calor seco, encharcado de sol, da Califórnia que ainda insistia nas minhas lembranças.

A viagem de três dias desde a Costa Oeste tinha sido um pesadelo gravado na minha alma: David, fedendo a uísque, largado no banco de trás, os roncos pontuados por palavrões pastosos; mamãe, os nós dos dedos brancos no volante, um silêncio mais alto do que qualquer briga. Nada de motéis, só paradas intermináveis em áreas de descanso com luzes tremeluzentes e o fedor de café velho. Eu mantive os olhos na janela, me apaixonando em silêncio pelas florestas esmeralda do Oregon e pelas faixas de litoral varridas pelo vento, marcando mentalmente trilhas que eu faria depois da formatura — supondo que eu sobrevivesse até lá.

Aos dezessete, eu era uma estranha para o meu próprio pai.

Os olhares gelados da minha mãe me marcavam como um erro, um lembrete vivo de algum pecado imperdoável. David, o namorado mais recente dela, era pior — as mãos dele vagueavam quando estávamos sozinhos, o hálito quente de cerveja e maldade. Quando criança, eu acreditara ingenuamente que ser boa podia consertar as coisas, podia fazer com que ela me amasse. Agora, eu sabia mais. Bondade era conto de fadas, e eu não era princesa nenhuma.

As fantasias de meu pai aparecendo para me salvar tinham morrido anos atrás, enterradas sob o peso do desprezo da minha mãe e dos olhares lascivos de David. Minha identidade era um quebra-cabeça quebrado, com peças faltando — ou escondidas de propósito. Mamãe — Mary, como ela insistia que eu a chamasse — nunca falava das minhas origens; só cuspia que eu era um “erro”. David era apenas o mais recente na porta giratória de homens dela, cada um pior que o anterior.

Amigos eram um luxo que eu não tinha permissão de ter. “Eles fazem perguntas”, mamãe rosnava, os olhos se estreitando como se conseguisse enxergar os segredos que eu carregava. Ela não sabia toda a verdade sobre mim, só que eu era “diferente”. Essa diferença era a minha jaula, nos mantendo isoladas, sempre mudando, sempre escondendo.

Descendo pela trilha, a floresta foi rareando e dando lugar aos primeiros sinais de civilização — casas tortas, com a tinta descascando, os quintais cheios de sucata enferrujada. O bairro ficava mais perigoso conforme eu me aproximava de casa, um tipo distorcido de conforto. Uma área ruim significava que mamãe e David provavelmente ainda estavam apagados, a ressaca deles funcionando como um escudo temporário.

Casa era um sobrado em decomposição no East Side de Portland, com tábuas empenadas e tinta lascada — combinando perfeitamente com a podridão lá dentro. Eu me esgueirei pela porta da frente, o silêncio quebrado apenas pelo rangido do assoalho sob meus passos. No andar de cima, peguei roupas limpas e me enfiei no banheiro, tomando banho numa corrida frenética contra a água quente falhando da casa. Três minutos, talvez quatro, antes de virar gelo.

Vestida com um suéter azul, jeans e botas, abri a porta do banheiro — e congelei. David se agigantava no corredor, o corpo enorme preenchendo o espaço, o fedor azedo de cerveja exalando dele. Antes que eu conseguisse passar de fininho, ele me puxou para um abraço, as mãos descendo e agarrando minha bunda. “Cuidado com esses garotos do ensino médio”, ele arrastou as palavras, apertando mais forte. Minha pele se arrepiou, mas eu o empurrei, o coração disparado, e peguei minha bolsa do chão. Não olhei para trás quando disparei escada abaixo.

Na cozinha, estendi a mão para pegar uma maçã do balcão. A porta da geladeira se fechou com força, prendendo minha mão. A dor atravessou meus dedos quando a voz da minha mãe sibilou: “Inútil.” Os olhos dela cintilaram de veneno. “Arranja outro lugar pra morar.”

Engoli a resposta atravessada; a pontada na minha mão não era nada comparada ao fogo no meu peito. Ser expulsa não era uma opção — ainda não. Minha missão exigia uma cobertura, uma fachada de normalidade até o meu décimo oitavo aniversário. “Desculpa”, murmurei, forçando a palavra a sair. “Não vai acontecer de novo.”

“Cai fora”, ela cuspiu, virando de costas.

A raiva subiu, e com ela o calor familiar da minha habilidade de FOGO tremeluzindo nas pontas dos meus dedos. Cerrei os punhos, respirando fundo para abafá-la. Agora não. Aqui não.

A viagem de ônibus até a escola foi um trajeto de trinta minutos: da decadência do East Side, atravessando o centro com seus arranha-céus reluzentes, até os bairros impecáveis perto do distrito escolar.

As casas foram ficando mais arrumadas, os gramados aparados, árvores alinhadas nas ruas como sentinelas silenciosas. Desci do ônibus e encarei a fachada moderna da Portland Public High, seu vidro e aço em contraste gritante com o caos que eu tinha deixado para trás.

Inspirei fundo; meus sentidos aprimorados captaram marcadores de cheiro fracos e almíscarados que nenhum humano comum notaria. Lobisomens. Uma dúzia, talvez mais. Meus instrutores tinham me avisado que aquela escola tinha uma população mista, mas sentir a presença deles me deu um arrepio na espinha.

Os corredores fervilhavam de alunos, mas eu sentia os olhos em mim enquanto encontrava meu armário. Alguns olhares eram curiosos; outros, predatórios, narinas dilatando como se percebessem que havia algo errado. Os alunos nascidos de lobo sabiam que eu não era uma deles, mas as injeções de acônito que eu tomava toda semana mascaravam minha verdadeira natureza — um escudo vital para a minha missão.

Arrumei meus livros com uma calma ensaiada, organizando as aulas da manhã enquanto vasculhava o ambiente com o olhar. Meus instrutores tinham me treinado por anos: misture-se, esconda suas habilidades, permaneça invisível. Não era minha primeira infiltração. Eu já tinha enfrentado inimigos mais mortais em lugares mais sombrios. A Portland High era só mais um campo de batalha.

Na sala de aula, escolhi um lugar perto do fundo e me afundei na cadeira enquanto tirava o caderno. O lápis se moveu por instinto, desenhando arabescos intrincados para canalizar a energia inquieta que zumbia sob a minha pele. Um formigamento nas pontas dos dedos me avisou para manter o controle. Aqui não. Agora não. Mas eu sentia um olhar perfurando a parte de trás da minha cabeça, insistente e perturbador.

Os saltos da professora estalaram no linóleo quando ela entrou. “Pessoal, por favor, sentem-se”, ela ordenou, silenciando o burburinho.

Ergui o olhar — e congelei. Três garotos, absurdamente bonitos, ocupavam a fileira à minha frente. Os ombros largos e a postura perfeita os destacavam dos adolescentes desleixados ao redor. Poder irradiava deles, uma aura que fazia o ar parecer mais pesado. Lobisomens, sem dúvida. Mas não lobisomens quaisquer.

Os Trigêmeos Griffin.

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