Capítulo 4
Ponto de vista de Katherine
Mais um dia.
Segui o fluxo de alunos até o vestiário, tentando permanecer invisível enquanto trocava de roupa e vestia o uniforme padrão de educação física. O short azul-marinho e a camiseta branca ficavam folgados no meu corpo — um contraste gritante com as roupas de treino de grife que algumas das outras garotas usavam.
— Pronta? — perguntou Jasmine, surgindo ao meu lado.
Assenti, ajustando o rabo de cavalo antes de segui-la para o ginásio. O chão de madeira polida brilhava sob as luzes, e o cheiro de suor se misturava ao de produtos de limpeza no ar.
O técnico Miller nos dividiu em dois grupos, mandando o meu para as arquibancadas primeiro. Sentei em silêncio, observando o primeiro grupo jogar enquanto, mentalmente, mapeava os pontos fortes e fracos de cada jogador.
— Grupo dois, é a vez de vocês! — chamou o técnico, por fim.
Ao tomar minha posição perto da rede, notei Bella do outro lado, ladeada pelos trigêmeos. O olhar intenso de Samuel acompanhava cada movimento meu, enquanto Edward ostentava um sorriso preguiçoso. Lucius, o mais gentil dos três, ao menos tinha a decência de parecer um pouco envergonhado com o comportamento do irmão.
Bella cruzou meu olhar e sorriu de um jeito perverso, jogando a bola de vôlei de uma mão para a outra com lentidão calculada. O desafio nos olhos dela era inconfundível.
O apito soou, e o jogo começou. Bella me mirou de imediato, cravando a bola com uma força desumana — definitivamente recorrendo à força de lobisomem. Mas anos de treinamento não tinham sido em vão. Firmei os pés e devolvi cada ataque, meu sangue misto me dando reflexos à altura das habilidades de um lobisomem puro.
— Puta merda, Katherine! — uma das minhas colegas ofegou depois que eu me joguei para salvar uma cortada especialmente brutal. — Onde você aprendeu a jogar assim?
Dei de ombros, enxugando o suor da testa.
— Talento natural, eu acho.
A cada devolução bem-sucedida, a expressão de Bella ficava mais sombria. Fiz questão de sustentar o olhar dela depois de cada ponto, deixando claro que eu não estava intimidada. Se ela queria briga, ia ter.
Quando o técnico finalmente apitou para encerrar o jogo, virei para bater na mão das minhas colegas. Foi quando ouvi alguém gritar:
— Cuidado!
Girei e vi uma bola vindo na direção da minha cabeça. Sem pensar, me abaixei; a bola passou raspando, a poucos centímetros de mim. Só Bella estava perto da rede, e a decepção no rosto dela confirmou minhas suspeitas.
Algo estalou dentro de mim. Senti o calor subir por baixo da pele, minhas habilidades de fogo se agitando perigosamente, perto demais da superfície.
— Você quer mesmo arrumar alguma coisa comigo, sua vadia? — rosnei, avançando na direção dela. A parte racional do meu cérebro berrava avisos sobre a minha missão, meu disfarce, meu controle — mas a parte primitiva, a parte que tinha suportado anos de abuso e isolamento, tinha cansado de ser pisoteada.
Jasmine apareceu na minha frente, bloqueando meu caminho.
— Confia em mim, ela não vale a pena — sussurrou com urgência. — Ela é filha do Beta Noah. Ela se safa de tudo nessa escola. Quem vai se ferrar é você.
O fogo nas minhas veias arrefeceu um pouco quando a lógica voltou. Eu não podia me dar ao luxo de comprometer meu disfarce — não por uma besteira como drama de ensino médio. Com um aceno seco, deixei Jasmine me conduzir para longe, enquanto a risada presunçosa de Bella ecoava atrás de nós.
No vestiário, observei Bella desfilar até a área dos chuveiros, ignorando completamente todo mundo. Meu olhar caiu no carrinho de limpeza logo do lado de fora da porta, e uma ideia se formou.
— O que você está fazendo? — sussurrou Jasmine quando eu peguei uma garrafa de água sanitária e fui na direção dos chuveiros.
Levei um dedo aos lábios, pedindo silêncio. Com movimentos rápidos, afiados por anos de treinamento, destampei o xampu caro de Bella, despejei uma boa quantidade de água sanitária e fechei, deixando tudo exatamente como eu tinha encontrado.
—Vamos —sussurrei, devolvendo a água sanitária e pegando minha bolsa. Saímos de fininho, com a inocência estampada no rosto.
Às vezes, a vingança não exige habilidades sobrenaturais — só um pouco de engenhosidade humana.
Jasmine e eu mal tínhamos chegado aos degraus da entrada da escola quando um grito de gelar o sangue ecoou pelos corredores atrás de nós. A voz inconfundível de Bella.
Jasmine se curvou, rindo. —Meu Deus, eu nunca teria pensado nisso nem em um milhão de anos. O cabelo dela ficou completamente destruído.
—Você acha que as outras garotas vão dedurar? —perguntei, vasculhando ao redor por hábito.
—De jeito nenhum. Elas não são amigas dela — têm medo. Só vão dizer que não viram nada.
Olhei para o relógio. —Eu tenho que ir pra casa.
—Te vejo amanhã.
Sorri ao atravessar o estacionamento em direção à trilha da reserva florestal que, mais adiante, levava ao lado leste de Portland. O caminho fazia curvas por entre pinheiros densos, o ar carregado do cheiro de terra e de verde. Aquele trecho de mata — um colchão entre os bairros ricos do norte e o distrito abandonado do leste — rapidamente tinha virado o meu refúgio.
Um uivo de lobo quebrou o silêncio, fraco, mas inconfundível. Soube na hora que não era um lobo comum — o tom e o ritmo denunciavam um lobisomem, provavelmente da Alcateia do Norte patrulhando o território. Puxei minha câmera da bolsa, mas o lobo não se mostrou; parecia satisfeito em apenas me avisar que eu estava sendo observada.
Quando cheguei em casa, as sombras já se alongavam sobre as calçadas rachadas. Abri a porta da frente em silêncio, aliviada ao ouvir os roncos de David no sofá da sala. Com sorte, eu conseguiria evitar completamente seus olhos e suas mãos rondando.
Subi de mansinho para o meu quarto, tranquei a porta e esvaziei a mochila. Lição de casa primeiro — trigonometria, literatura inglesa, química — qualquer coisa para prender a mente longe da minha suposta vida doméstica.
Quando terminei, troquei de roupa: um moletom cinza, calça de agasalho, meias e tênis. Hora do treino.
Corri até a pequena área arborizada ao lado da nossa casa e, então, encontrei o caminho para a rua principal. Era um lugar quieto, isolado — poucos vizinhos, menos ainda visitantes. Ninguém vinha para essa comunidade decadente por vontade própria. Eu não podia culpá-los; nossa casa já devia ter sido interditada fazia anos, e várias estruturas abandonadas ali perto já estavam cercadas para demolição.
Corri pelo lado leste, contornando o centro, até chegar ao distrito de galpões abandonados na borda da cidade. Escondido entre os prédios em ruínas havia um circuito de obstáculos em estilo militar que eu tinha descoberto depois de me mudar para Portland.
Eu nunca tinha visto ninguém usando, então tomei aquilo como minha academia particular. Era o lugar perfeito para descarregar agressividade e praticar minhas habilidades, especialmente depois do confronto de hoje com Bella.
Fiz o percurso três vezes, usando o mínimo de aprimoramentos para manter a resistência, até o céu escurecer o bastante para me avisar que era hora de voltar.
Quando finalmente cheguei em casa, o carro de Mary estava na entrada esfarelando. Fiquei contente por ela estar em casa — isso significava que David teria menos chance de me encher o saco —, mas ainda assim eu detestava a ideia de entrar. A hostilidade de Mary era tão certa quanto as marés.
Eu entrasse pela porta da frente ou pela dos fundos, eles me veriam subindo, já que a única escada ficava logo do lado de fora da cozinha, onde os dois discutiam.
Depois de esperar mais um tempo, enfim me levantei e me aproximei da casa, empurrando a porta da frente, que rangeu. Mary e David estavam tão absortos na briga que nem perceberam minha chegada. Peguei meu porta-xampu depressa e tomei um banho na velocidade da luz.
Depois, voltei para o meu quarto, trancando a porta com cuidado — meu ritual noturno de segurança. Quando me virei, engasguei.
Tinha alguém sentado no meu quarto.
