O último suspiro do lobo prateado

Eu estava pregado a um altar estilhaçado.

Não metaforicamente.

Pregos de verdade — espigões de prata cravados através das minhas escápulas, prendendo meus ossos com tanta firmeza que eu não conseguia nem me autodestruir.

Milhares de magos formavam círculos rituais ao meu redor. As cordas dos arcos élficos cantavam em uníssono; suas flechas não eram para me matar, e sim para me imobilizar, me pregando ali como um recipiente sangrando.

Quando o ritual proibido dos vampiros foi ativado, ouvi o som do meu próprio sangue sendo drenado.

Como um rio correndo ao contrário.

— Sangrem ele até secar — alguém riu de fora da formação. — O Lorde Viktor quer uma casca vazia para aterrorizar as alcateias.

Eles levaram meu braço esquerdo primeiro.

Um corte limpo. O toco foi selado imediatamente — nenhuma misericórdia de uma morte rápida para mim.

Depois, minha perna direita. Um martelo de osso, esmagando-a seção por seção.

Os ossos de um lobisomem de nono nível são mais duros que aço. Quebrá-los exige paciência — e eles tinham toda a paciência do mundo para me torturar.

Vi alguém recolher os fragmentos de osso numa caixa de prata, como quem junta troféus.

— Guardem como lembranças — disse friamente o líder élfico.

Eu não uivei.

O orgulho de lobisomem não me deixaria transformar dor em súplica.

Além disso, isso sempre foi para acontecer — contratos de sangue só podem terminar com “sacrifício”.

Desde que eu morresse de modo suficientemente completo, os grilhões se romperiam, e o poder antigo do Rei Lobo Prateado despertaria no meu cadáver.

Essa foi a única esperança à qual me agarrei todos esses anos.

Quando drenaram a última gota de sangue, minha visão ficou negra.

O peso do meu corpo me deixou, a consciência sendo arrastada para um abismo sem fundo.

Só restou o som nítido de ossos estalando, como correntes arrebentando elo por elo.

Bem quando eu perdi a última centelha de vida—

Crac.

Não era osso.

Era algo mais profundo, mais frio — um vínculo que havia sido cortado.

O som foi seco, como metal se rasgando nas profundezas da minha alma.

Eu entendi. Aquela era a cláusula central do contrato de sangue: morrer pela sua companheira destinada.

Eu já tinha achado que “destinada” significava inevitável, que eu tinha de amá-la, protegê-la, suportar tudo por ela.

Mas quando aquela corrente se partiu, percebi pela primeira vez — eu tinha cumprido um contrato, não um amor.

O rosto de Serena atravessou a escuridão como um relâmpago.

Coroa, lábios vermelhos, olhos que menosprezavam tudo.

Ela já tinha se encostado no meu peito e dito: “Você é meu único escudo.” Também já declarara friamente na corte: “Lobisomens não passam de ferramentas.”

Naquele instante, meu último resquício de antiga afeição por ela morreu como uma chama apagada por água gelada.

Eu não a odiava.

O ódio significaria que eu ainda me importava.

Eu simplesmente decidi — de agora em diante, a vida dela, a morte dela, a glória dela e a desgraça dela não tinham nada a ver comigo.

A escuridão se revirou e, no segundo seguinte, minha consciência foi arrancada por uma luz vermelho-sangue ofuscante — como se alguém me puxasse do abismo e me enfiasse em outra realidade.

O magnífico castelo dos vampiros.

O Festival da Lua de Sangue a todo vapor.

A cúpula estava incrustada de obsidiana e metais preciosos; a música, ostensiva; o vinho, enjoativamente doce.

Puro-sangues erguiam as taças rindo, tratando o sangue fresco dos outros como brinde.

Eu “via” tudo, e ainda assim não conseguia emitir um som.

Como uma alma obrigada a observar.

Serena estava sentada em seu trono, o vestido espalhado como uma flor desabrochando.

A ponta de seus dedos deslizava pela taça cheia de sangue humano morno.

Ela ouvia bajulações, desfrutando naturalmente de cada olhar prostrado.

Viktor estava à direita dela, a capa impecável, o sorriso suave como uma lâmina escondida nas mangas.

Desde o retorno de Viktor à corte vampírica, Serena mal me lançara um olhar.

Claro. Viktor era um vampiro, afinal; amigo de infância de Serena — a confiança vinha naturalmente.

— Vossa Majestade — ele ergueu a taça com um suspiro leve. — Caleb está ausente de novo. Uma celebração tão grandiosa, e mesmo assim ele sempre some nos momentos cruciais. A senhora não acha... que ele está construindo sua própria base de poder?

Meu nome escorreu dos lábios dele com desprezo deliberado. Ele sabia muito bem que eu estava lutando contra os elfos pela causa dos vampiros, mas isso não importava para ele.

Serena levantou o olhar, os lábios se curvando.

— Ele? — Soou divertida. — Só um cachorro. Não importa o quão forte seja, ele é apenas uma arma na minha mão. Armas não deveriam ter ambição.

Viktor se inclinou, conspiratório:

— Há lobos de sobra. Se ele não obedecer, a gente simplesmente substitui.

Os puro-sangues lá embaixo explodiram em risadas, como se zombassem de uma fera de lama que tivesse rastejado até o salão do banquete.

Eu observei, frio.

Então o reino pelo qual eu sangrara para proteger não passava do direito de nascença deles.

Então, aos olhos dela, eu não era nada além de um cachorro.

Riam.

BANG—!

As portas explodiram e se escancararam, um vento gelado invadindo com o fedor de sangue.

A música se cortou de supetão, as chamas das velas tremeluzindo em uníssono.

Um batedor lobo rolou para dentro, metade do corpo estraçalhada, o abdômen aberto.

Ele se arrastou para a frente com o braço que ainda lhe restava, agarrado a um mastro de bandeira quebrado. O estandarte estava rasgado e enegrecido, ensopado de sangue — o estandarte de batalha da Guarda Lobo.

A minha bandeira.

Ele rastejou até o centro, a garganta soando como se estivesse entupida de vidro quebrado, lágrimas e sangue escorrendo juntos.

—Comandante... Lorde Caleb... —a voz dele estava tão rouca que mal conseguia formar palavras— morreu em batalha!

Depois de um breve silêncio, veio uma gargalhada ainda mais alta.

Os nobres trocaram olhares, como quem assiste a uma peça barata.

Viktor balançou a cabeça, num arrependimento teatral:

—Lobisomens realmente são grosseiros. Para chamar a atenção de Vossa Majestade, chegam a brincar com a morte do próprio comandante.

Serena nem sequer se levantou. Olhou para a bandeira ensanguentada como se fosse um trapo imundo.

—Você está dizendo que ele morreu? —Ela se ergueu devagar, a coroa reluzindo com frieza sob a lua de sangue. —Caleb é um lobisomem do nono nível, invulnerável a lâminas e balas. Como poderia morrer em batalha?

O batedor tremia, a voz falhando:

—É verdade... drenagem de sangue proibida, os ossos foram—

—Silêncio. —Serena desceu os degraus, os saltos estalando no mármore como pontas de lâmina. —Ele só está fingindo de morto para chamar atenção.

Ela se aproximou da bandeira ensanguentada, olhando para baixo como quem avalia um tributo defeituoso.

—Diga a ele para parar de fingir —a voz dela não era alta, mas dominou todo o salão. —Volte para cá imediatamente e ajoelhe-se pedindo perdão.

Então ela ergueu o pé.

O salto agulha afiado desceu com força bem no centro do estandarte — na mancha de sangue mais escura.

Meu sangue.

Uma pisada, depois outra. Como se esmagasse a fé do clã dos lobos até virar pó. Como se tratasse anos da minha resistência e do meu sacrifício como uma piada.

—Enxerguem bem —Serena ergueu o queixo, os olhos cruéis. —Na minha presença, lobos ficam de barriga no chão.

Minha alma não sentiu nada.

A dor de verdade não vinha do pé dela, e sim de eu um dia ter acreditado que ela entenderia.

Agora eu só achava risível... ter acreditado que ela entenderia.

Os olhos do batedor arderam vermelhos.

Os dedos dele arranharam o tapete, as unhas se partindo, o sangue escorrendo por entre elas.

—A senhora está pisando no sangue do rei... —um gemido bestial rolou da garganta dele. —Ele tomou o golpe por você—

Viktor deu um passo à frente com um sorriso gentil:

—Tomou um golpe por Vossa Majestade? Um lobo ousa falar de lealdade? Vocês nasceram para ser sacrificados pelos puro-sangues.

A gargalhada explodiu de novo.

Aquela risada arrebentou o último nervo do batedor.

Ele rugiu e se lançou contra Serena, o corpo quebrado como uma tocha moribunda.

Ele nunca chegou até ela.

Lanças dos guardas atravessaram o peito dele pelos dois lados, pregando-o ao chão.

Viktor estalou os dedos; a magia de sangue desceu, e a cabeça do batedor explodiu na hora, uma névoa vermelha respingando no tapete branco.

O tapete branco virou vermelho, e o perfume de celebração foi engolido pela doçura metálica.

Os nobres franziram a testa, mas logo voltaram a sorrir, como se tivessem apenas pisado num inseto.

O batedor não estava exatamente morto; o que restava de sua garganta ainda vibrava, soltando uma última maldição, usando a própria vida para cravar estas palavras no palácio:

— Seus parasitas... vão pagar pela sua arrogância! O sangue do rei... não vai ser derramado em vão!

A voz morreu na poça de sangue.

Serena recuou meio passo, franzindo o cenho com repulsa, então voltou ao trono e ergueu a taça outra vez.

— Continuem — disse, sem emoção. — Não deixem o chilique de um lobo estragar o clima da Lua de Sangue.

A música recomeçou à força, como se cobrissem a carnificina com seda.

Mas o vento não cessou.

A ventania lá fora de repente se intensificou, como se algo se aproximasse pela noite. As chamas das velas se retorceram; os reflexos da lua de sangue nos vitrais tremeram de leve.

Um guarda tropeçou para dentro do salão, o rosto pálido como a morte, caindo sobre um joelho com a voz trêmula:

— Vossa Majestade... a escolta sobrevivente voltou da linha de frente.

Serena se irritou:

— E agora?

O guarda engoliu em seco:

— Eles... trouxeram de volta um caixão de aço negro. Dentro... os restos do comandante Caleb.

O riso do salão morreu na hora.

Os olhos de Viktor lampejaram sombra, mas ele logo adotou seu tom gentil:

— Vossa Majestade, isso é obviamente mais uma das teatralidades dele. Usar um caixão para forçar sua mão.

Serena zombou, o sangue na taça captando a luz.

— Ótimo. — Ela se levantou, a capa varrendo o ar com dramatismo, como se fosse esmagar a mentira pessoalmente. — Eu mesma vou desmascará-lo.

Os saltos dela ecoaram pelos corredores como uma contagem regressiva.

Eu a “segui”, observando com frieza.

No fundo da minha alma, ouvi outro estalo, mais profundo — como uma porta se abrindo.

O poder do Rei Lobo Prateado estava voltando para mim.

O caixão de aço negro estava no pátio externo do castelo, com uma névoa gelada subindo dele, geada se formando no chão.

A escolta se ajoelhava em fila, como almas drenadas de vida.

Serena se aproximou do caixão, a palma pressionada contra as runas de selamento.

— Abram.

As runas se acenderam, o caixão rangendo. A tampa deslizou lentamente, e um frio que cortava os ossos jorrou para fora, trazendo cheiro de sangue e metal.

Serena continuou rindo, rindo de cima, da sua altura.

— Caleb — sussurrou, como quem concede esmola —, já vi o bastante da sua encenação.

A tampa se abriu por completo.

Meu corpo destruído jazia quieto lá dentro — membros faltando, a cavidade do peito aberta, ossos estilhaçados como porcelana amassada. O sangue já havia escorrido há muito tempo, deixando apenas um vazio frio e bordas irregulares, horríveis de encarar.

O sorriso de Serena enfim congelou.

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